domingo, 30 de janeiro de 2022

Menina Pomba

 Você era uma pomba. Não uma pomba assim, por inteira, mas a tua cabeça era. Acima do pescoço não se via um rosto humano, não se viam olhos humanos, lábios humanos, nariz, um queixo arredondado e pequeno como o seu é, não se viam suas bochechas levemente rosadas, não se viam as suas orelhas, nem o desenho rebelde que uma delas faz, com uma curva cartilaginosa mais fina de um lado. No lugar do conjunto de traços tão seus, haviam asas, cauda, um peito estufado, uma cabeça pequena com movimento inquieto, olhos miúdos e pretos e um bico que apontava para várias direções. As asas moviam-se frenéticas. A pomba tentava levantar voo. Mas o corpo continuava caminhando ao meu lado, devagar e sempre. Algumas pessoas surgiam para perguntar, espantadas, quem era aquela criatura comigo que não parecia humana, que era tão estranha, que com duas formas em uma desafiava toda a natureza. E eu as olhava de volta, encarando-as com a mesma estranheza. Ora essa, quem era. É ela. Uma forma que compreendi desde que vi. Ela tem asas na cabeça, gente. É ela. Quem mais seria? Ela precisa voar. Sempre que mais alguém admirado passava por nós, queria saber quem era. Queria compreender de onde vinha. Queria entender como poderia aquela criatura existir. E eu dizia que não só podia existir, precisava. Essa era ela. Veio do ar, veio do vento. Aquela criatura com muito movimento na cabeça, com muitas ideias para se desprender, aquela criatura que não fazia do corpo um limite, usava-o como suporte para a tua vontade de voar, e as asas da sua cabeça, ela as usava, e como usava. Às vezes eu parava para pensar se ela não cansava de todo aquele movimento incessante. Mas ela continuava, e continuava. Caminhava ao meu lado, mas seu caminhar era de leveza. Eu ouvia cada passo meu. Mas os dela não, não emitiam qualquer som e o encostar do seus pés no chão não parecia mais que uma ideia. Era como se seu corpo estivesse sempre entre andar e flutuar, mas a tua mente voava. Eu te vi, Menina Pomba. Sei que seu rasante é por pouco tempo. Logo você alcançará grandes alturas. Os horizontes por onde vai passar serão imensidões diante dos olhos e você verá muito mais do que já vi.

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