quarta-feira, 8 de abril de 2020

Pra tentar me despedir de você

Pensar na morte em si é simples pra mim. O que não é simples é o efeito que ela causa, fazendo parecer estranho continuar vivo pra quem fica e tem que se despedir pela última vez de quem finda a vida. Eu nem sei se assimilei ao certo que você morreu. Morreu. O que isso realmente significa. Porque, e isso também é estranho, por mais que não estivéssemos mantendo contato há anos, nós não nos víamos mais não porque você morreu e não teria como, e só porque é assim que a vida segue, que as nossas vidas em particular foram se desenrolando para cada canto onde estivemos, para as coisas que fomos fazer. Mas as redes sociais comprovavam sua vida à distância pra mim. E foi a rede social também a comprovar a sua morte. Pra onde vamos, enquanto seres sociais hein? Eu já não acho que verei tanto nossos rumos, só o que couber no tempo da minha vida e como as velocidades tecnológicas não são uma constante, uma vida inteira representa cada vez menos. O que quem nasce hoje verá? Nem imagino. Mas a questão é que você terminou a sua vida agora já sabendo que quando pessoas falecem muitas pessoas usam as redes pra registrar os sentimentos que nos brotam nesses momentos. Se mostramos a vida, expressamos e damos provas de amor nas redes, porque seria diferente com a morte, não é? Mas comprovar seu falecimento assim foi tão ruim. Mandei mensagem, não tive mais resposta. E aí fui no teu perfil já esperando confirmar a suspeita mais chata de todas as minhas suspeitas. Só que ler as pessoas se despedindo e falando diretamente com você, sabendo que são mensagens que não chegam mais, me fez mal. Não quero nem de longe dizer como é melhor viver o luto, se é que existe um "modo melhor", ou achar que ninguém deveria escrever, nem tô tentando analisar nada agora. É só que pra mim, de longe, de um lugar onde a rede social era tudo, foi sombrio. Porque, por mais que agora eu esteja fazendo exatamente o mesmo e falando como se fosse diretamente pra você, eu sei que só estou falando comigo. E coloquemos a fé e um tanto da religiosidade cristã que eu lembro que você tinha à parte, a que você tinha e também a de todos os que te amam e têm essa fé, e que podem estar convencidos de que essas mensagens chegam a você de alguma forma espiritualizada, eu li trechos de mensagens no facebook que me tiraram do eixo do normal e do palpável, da realidade simples e imediata que assimilamos automaticamente. Não sei porque fiz isso e continuei lendo, mas com a ciência de que não chegam mais em você, continuei. E foi assombroso. Com todo respeito a quem se comunica com você, mas agora você está nas mentes e corações. É por isso que ao falar diretamente pra você eu falo comigo, com o "você" que há e está em mim. E é por isso que sempre vai haver um tantinho de você por aqui, como sempre houve, e nos últimos anos do mesmo modo que agora, pelos rumos diferentes das nossas vidas. Sua morte, na verdade, não muda como eu já te tinha aqui nas boas lembranças. Só é especificamente estranho saber que não dá pra marcar o almoço que dissemos que seria legal. E é triste. Isso ser triste não é um problema. Mas ainda não sinto que compreendi totalmente. E sobre ler trechos das suas mensagens, que você não tem mais como ler... eu acho que fez parte de assimilar a informação da morte pra mim. Mesmo assim, li mais que o suficiente pra ter a informação, e menos que o suficiente pra entender a sua morte. Pra mim, que estava de longe, que sei que vou continuar vivendo exceto por uma morte não prevista, que seria tão do nada que só posso seguir achando que amanhã vou acordar pra mais um dia, e que mesmo tendo uma parte de mim que esperava e já aceitava a sua morte por saber que estava doente, e pensar nisso quando conversamos, restou esse estado de limbo, de não compreensão e de as vezes, ao chegar perto de entender, chorar em despedida. Porque a parte que esperava ficou sem entender, e a que não queria esperar está escrevendo tentando esmiuçar o fato, abrí-lo, rasgá-lo, mastigá-lo. Preciso digerir que morreu, e vou. Hoje ainda é pouco palpável, esquisito, e em certa medida já é, ao mesmo tempo, também definitivo, pra contradizer tudo que eu disse. É exatamente isso que torna tudo estranho. Eu sei algo que não sei. Sei o que não entendo. Como posso saber sem saber? Algumas contradições são bonitas. Como a nossa história, por exemplo. Se éramos dois que se gostavam tanto, mais tanto, mas que não ficaram juntos mais tempo... e isso ia ser uma pergunta, mas não é porque nós já sabíamos responder. Só éramos novos. Só íamos viver outras coisas. E ainda bem que foi assim. Duvido que um dia eu vá sentir um amor que arde, que embrulha o estômago, que me treme as pernas, que me rouba o ar de novo. Mesmo que a própria ideia de amor que eu tenho já tenha mudado com o tempo, o amor é muito mais que uma ideia, e o nosso foi de um jeito que com a ideia de amor que tenho hoje seria inacreditável pra mim, se não tivesse vivido e sentido com você. Ainda bem que senti isso, que sentimos isso na vida. E no mais, você é uma biblioteca vasta na minha cabeça. Tenho um verso para cada olhar seu. Um texto inteiro pra cada sorriso ou frase que me disse, infinitas poesias para os momentos reais e para todos os que eu imaginei. Tenho também um sorriso pra cada lembrança. Meu coração aquece bem com tudo que fomos, e eu sei que continuará assim nessa saudade que eu não posso mais diminuir. Talvez eu nunca entenda perfeitamente sua morte porque já não estávamos em lugar disso, porque eu já havia seguido e não estava tão por perto, e principalmente porque já éramos imortais um dentro do outro. Talvez a morte de quem amamos não possa fazer sentido por isso mesmo, porque estamos vivos e quem amamos vive em nós.
Obrigada por você, Henrique. 

Um comentário:

  1. Sei como é ficar lendo os posts na rede social de uma pessoa querida que faleceu. Esse foi o principal motivo pelo qual deletei as minhss redes sociais.

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