A Poesia Dama Nômade
sexta-feira, 5 de julho de 2019
O que acontece com as cinzas dos corações mais ardentes de amor?
Queria por pelo menos um dia poder sentir o que é um amor pra vida toda. Queria que alguma vez ardesse, gritasse, inflamasse num fogarel, nas chamas que deram sentido às ações de todos os maiores e mais loucos amantes da história. Queria saber porque ficam tão felizes, tão entregues, porque não desistem, porque doi tanto quando se acabam. Queria saber como é sentir um universo desse amor. Queria saber como e quando é tão inexplicável, saber quando é tanto e tanto e tanto que parece perigoso. Queria entender quando vejo que parece corrosivo, mas ainda querem se corroer, e se jogar, e se lambuzar de algo que visto de fora é loucura, mas que ainda não é veneno, não é abusivo, é só incompreensível. Não consigo entender. Nunca senti arder tanto assim. Não parece que alcancei nem que sou capaz de viver o amor dos loucos. E se eu pergunto, se duvido, será que isso existe mesmo ou não seria o amor algo menos absurdo e só mais leve, menos em chamas, mais translúcido, eles me batem, eles brigam, eles insistem, eles argumentam que é claro que sim. Que existe, que é muito maravilhoso, que é uma força que te domina e te impulsiona por inteiro. E se suspeito que o pulso vem só de nós mesmos, e ainda não me faz sentido achar que viria desse amor dos loucos, me julgam, me olham mal, me chamam de sem razão nem coração. Pois que, então, talvez eu tenha perdido meu coração, e não entenda desse licor que bebem tantos poetas, dessa taça onde beberam Julieta e Romeu, onde arderam, flamejaram, enlouqueceram, e se assassinaram. Eu que não tenho a sensibilidade dos loucos, dos que queimam de amor, e meu amor é água. Queria que um dia só sentisse secar, que me afogasse no ar, que me sufocasse de terra, que me agoniasse no fogo, por um dia. E depois desse dia saberia então se vale a pena essa loucura tão profunda dos amantes. Se é melhor parecer ter perdido o coração do que só saber amar depois de ter queimado, partido, rasgado o próprio, feito ele doer, feito ele ruir, deixado-o com um pulsar fraco mas de tanto pulsar. De tanto esforçar, de tanto arder. O meu não alcança arder tanto assim. Mas os loucos com corações flamejantes me sorriem, e agonizando de dor me afirmam estar assim felizes. Eu os vejo e não entendo. Resta-me observar daqui, com meu coração que flutua, que bóia em água as vezes com as vezes sem correntezas, e me perguntar sem poder responder o que acontece com as cinzas dos corações dos maiores e mais loucos amantes.
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