terça-feira, 10 de abril de 2018

Reflexões a partir de 'Pantera Negra'


Várias críticas a respeito do filme Pantera Negra contemplam suas cenas cheias de significado, a exploração da Marvel por tecnologias avançadas, as questões de representatividade, e mesmo as opiniões tanto vindas de quem tem mil elogios à colocar, como de uma crítica negativa sobre alguns aspectos do longa, como o elenco quase totalmente negro (o que para um filme de um herói de Wakanda, não deveria trazer menos, e isso nem é negativo), o retrato de uma sociedade avançada em ciência e tecnologia, mas que se esconde do resto do mundo para evitar a ganância humana, e o fato de essa sociedade ser africana (o que acaba por soar mais como um incômodo de quem sente necessidade de reclamar de algo muito bom quando vem de negros), ou ainda de falas de um vilão com uma história pessoal que denuncia o abandono e preenche o personagem de  revolta, como sendo uma representação muito apelativa. A respeito desse caráter apontado como apelativo, para além dos raros momentos em que isso poderia ser identificado no filme, é interessante compreender as razões que levam o personagem a agir como age.
O vilão do filme é adepto das ideias de emancipação negra, e é de se supor que sua leitura histórica não difere essencialmente da de T’Challa, herói protagonista. No entanto, o vilão nesse contexto é motivado por uma revolta que já fez parte de todos os negros e negras na história da humanidade que descobriram que poderiam ser livres quando não eram. Isso o filme traz e permite analogias muito palpáveis com as questões da negritude. T’Challa tem a compreensão da necessidade de paz entre os povos, tal como Mandela mesmo depois de todos os anos preso, ou como Martin Luther King. Mas há um estágio da percepção da necessidade de resistência a um formato de vida escravizador e opressor, que pode evoluir para soluções como a que o vilão prevê como ideal na história de Pantera Negra: se pudesse voltar no tempo, talvez tivesse invertido os papeis de negros e brancos, e seu objetivo mesmo no filme é que a tecnologia de Wakanda seja usada para esse fim, em defesa do povo negro através de guerras. Não é difícil supor a violência como método mais eficiente para combater a violência e a injustiça.
O que o povo de Wakanda faz é justamente o contrário, vivendo em paz e em respeito a decisão de não compartilharem seu conhecimento com o mundo. Esse tipo de reação do vilão é muito análogo ao que as vezes acontece nos separatismos na luta contra o racismo, e é da mesma forma que para o personagem, cheio de justificativas mais que plausíveis. Mas é uma discussão a amadurecer sempre, porque a luta contra o racismo é pela igualdade, ainda que seja difícil avançar com foco na construção de um mundo mais igualitário enquanto é preciso se opor ao mundo como ele é – oposição que o vilão está fazendo a seu modo.
O filme traz uma bela dose de ficção científica, e o fato de Wakanda não ter sido colonizada permite explorar com potencial o desenvolvimento de sua civilização, somando-se aí a presença do vibranium, elemento vindo de um meteoro e que abastece a sociedade enérgica e tecnologicamente, além de transformar mesmo aspectos ambientais e permitir uma barreira de esconderijo para Wakanda, sendo um alicerce dos meios de produção. E a cultura de um povo que preserva isso do restante do mundo a fim de evitar o mau uso do vibranium, é baseada em valores de justiça e paz. Mesmo nas batalhas importantes que fazem parte dos rituais e do sistema político, onde são buscados a aprovação e o mérito ao trono, com a coragem e a força de um líder, um rei que saberá proteger Wakanda, o poder do Pantera Negra é removido de T-Chala, para que a luta seja justa. E apesar de saberem dos riscos de seu conhecimento ser partilhado com o mundo, Wakanda é o próprio exemplo de uma sociedade com um estilo de vida harmônico à disponibilidade de recursos, e ao uso consciente desses.
Como mais dois pontos fortes do filme, tem-se tanto a participação e a devida importância de um personagem branco no enredo, como a representatividade feminina. Do segundo ponto, a força, as habilidades e a inteligência das principais mulheres do filme permitem reconhecer mais de um herói em Pantera Negra, ou melhor, heroínas. O papel por elas desempenhado não ficou totalmente à mercê dos clichês da representação feminina frágil, sentimental, esposa ou mãe como personagens secundárias e sem grande contribuição aos acontecimentos, ou ainda da sexualização com que se retratam negras de modo geral. São, pelo contrário, essenciais ao desenrolar da história em mais que apoio ao Pantera Negra, são também tomadoras de decisões importantes e mais que corajosas em batalha. E sobre o primeiro ponto, para finalizar essa proposta de reflexões a partir do filme, a forma de retratar a participação de um branco em Wakanda, que teve seu papel e sua importância nos combates, é também simbólica e ilustrativa de um modo de, naquele contexto, fazer parte da batalha do filme em meio a um ambiente e a questões que não eram diretamente suas, mas nas quais podia ajudar. O que é isso se não um exemplo de onde a branquitude deve e pode se situar nos movimentos? Única cena em que deslocam de propósito o único personagem branco que está em Wakanda, como se não pudesse falar ali, é uma piada de uma das tribos para ridicularizar a exclusão.
Quem assistiu no cinema e esperou pelas duas cenas pós créditos, além da chance de saborear seus detalhes a mais ao filme, pôde observar que até ali o conteúdo é todo carregado de mensagens políticas, na cena do discurso de T’Challa. Que assim como já existem muitas referências de heróis brancos de mais repercussão no cinema e no mundo, também possa haver uma variedade de heróis de todas as raças para que não faltem os exemplos, e para que esse entretenimento seja tão representativo, que se possa discutir e comparar os filmes para muito além de pautar antes de tudo a questão racial. Melhor ainda seria que um processo de mudança assim no cinema fosse ou produto ou contribuinte de cada vez mais transformações sociais pela igualdade.

Wakanda forever!
Fonte: Ovelha Mag