sábado, 18 de novembro de 2017

As vontades mudam

Demorou para encontrar as chaves certas. Abrir a porta finalmente foi como respirar fundo e soltar o ar bem devagar, em um alívio momentâneo. Dentro de casa ainda no escuro, tirou os saltos pelo caminho à cozinha. Encontrou a geladeira, como se visse um velha amiga, levantando o braço para abri-la, ou seria para abraçá-la? Demorou um tempo para se acostumar com a luz e o ar frio. Seu corpo estava quente apesar da chuva que tomou no caminho. Só uma cerveja bastava. Precisava gelar os pensamentos que estavam em fervura. Dali, o corpo só se arrastou, sem carecer de levar a mão a qualquer interruptor, acostumado com o mesmo caminho e os mesmos desvios no escuro até o quarto, pelas inúmeras madrugadas que assim o fazia. No quarto, a cadeira velha a esperava. Antes de tirar a roupa, antes de pensar em banho, antes de querer dormir, só tinha que ficar ali, até que de gole em gole secava a garrafa de cerveja e a vontade de chorar. Todas as noites eram, de diferir apenas em detalhes, um bocado de semelhanças das noites passadas. E aquelas repetições da ilusão do que era ser feliz já a cansavam. Quando foi que aquela vida que havia escolhido deixou de fazê-la feliz? "As pessoas mudam", pensou. E o que é que isso significava? Será que mudavam mesmo? Devia ter alguma parte de nós que era sempre a mesma, que continuava ali, vivendo mudanças de não mais que nossos desejos. E se fôssemos as mesmas pessoas só com vontades diferentes conforme o tempo passa? Não seria mais fácil compreender porque nada daquilo que queria era o que queria agora? Sentia como se fosse um esforço imenso manter os vínculos, a vida social, e um tempo só seu. Era como mostrar que queria estar em algum lugar quando, na verdade, não queria. Mais uma vez chegava de outra noite combinada entre amigos, amigos que queriam se divertir, em um combinado do qual fazia parte. Então porque ficava infeliz? Tinha alguma coisa tornando difícil o que antes era simples de ver, de quando sabia se tinha ou não vontade de fazer algo, de quando nada que não quisesse chegasse a ser assunto. Agora tudo era um peso. Pouco a pouco, perdia aquelas vontades como quem perde a essência. E aquilo era só mais uma mudança? Não sabia. Porque mudar significava chegar a um novo estado, enquanto sentia não querer ir a lugar nenhum. Aquele sentar na velha cadeira por minutos, por horas, por noites inteiras, era um profundo embalo na imensidão triste da perca de todas as vontades. Não queria mais aquela casa, não queria mais aquelas saídas, não queria mais aquelas noites. Não queria. Antes queria tudo aquilo que chamava de conforto, para agora sufocar no aconchego das possibilidades rotineiras que havia criado. Não queria mais nada daquilo. O último gole da cerveja foi acompanhado de um abandono do corpo sobre a cadeira que o suportava. E agora? Um banho? Uma roupa limpa e cheirosa? Uma boa noite de sono, sem ter hora pra acordar? Sim, tudo isso. E a esperança de em algum momento poder se encontrar de novo, como quando essas noites a preenchiam bem e não precisava de mais. Como quando em cada dia sabia estar fazendo o que queria fazer. "Agora sequer sei... se quero". É assim que acontece quando mudamos? Precisa ficar tão ruim até percebermos que queremos que fique bem? Talvez não fosse necessário ficar cheio de vazio para se dar conta de que são outras escolhas que nos alimentariam bem de novo, não fosse a nossa insistência em achar que sabemos o que nos faz feliz sempre. Aquelas noites não seriam problema, as pessoas não seriam problema. Só não deveriam ser mais o mesmo compromisso. O banho que sempre era iniciado com a espera pela água morna, dessa vez foi gelado. Precisava de mais que a cerveja para se esfriar. As roupas úmidas havia deixado em um canto qualquer do quarto, junto com o pensamento de lembrar delas amanhã. E já que o banho era finalmente diferente, porque o resto não poderia? As coisas todas continuavam iguais. E já não eram nenhuma de suas vontades. A vida desse jeito faz os dias passarem como se as horas se arrastassem, pedindo ajuda para que alguém as empurrem. Então se nada daquilo era vontade, havia pelo menos a vontade de que não fosse mais assim. Que fosse então por esse não querer, se mais nada queria, que pudesse não continuar vivendo sob velhas escolhas, cujas únicas funções agora só podiam ser de manter a felicidade como lembrança. Foi um banho demorado aquele. Mas quando foi se deitar já sabia que as próximas noites deviam ser diferentes.