segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Três estações

Ela se demorou tanto pra dizer
Diante do espelho, doa a quem doer
Que era dona si e da imagem que via
Que teu corpo era a silhueta da folia
De quem ri com inocência ao que vê
Como ela, que era ela (!), a se perceber
Poderia antes ter mesmo não visto
Como é toda linda, toda graça, toda

E foi assim caminhar de beleza assumida
Ela que então já andava toda sabida
De quando um tecido novo lhe caia
E se moldava à tua forma desenhada
Se era bela assim vestida, imagine nua
Ela pensava isso de si depois ria
Quem é que define isso de ser bonita?

E tudo que é belo existe e faz bem
Ao passo que faz mal a tudo que não é.
Então ela que era linda pra si, pra outros
Era também feia pra outros, e pra si
De onde é que vem o peso carregado
Por ser ou não bonita, isso não sabia
Mas sabia isso sim, quem é que carrega.

Ela que já se dizia em seu melhor elogio
De tão imersa na própria beleza
Cansou de ser bela toda dia, e foi toda dia ela.
E agora ela podia sentir de novo seu peso
Por que é que ao ser só ela a dizer "me vejo"
Lhe faltava ainda outro tipo de alegria?
E ela que já era sua aceitação natural
Via que alimentar o ego não é de todo mal.

Sua imagem servia, antes de ser feia ou bonita
Pra se reconhecer sempre que perdida
E se há dias em que ela mesma se elogia
Que hajam muito mais pra ela ouvir
Que ser completa na imagem de si é passo
Sobre o andar de quem se vê na imagem alheia
E ela que era bonita, já nem tinha espelho.





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