quarta-feira, 26 de julho de 2017

Final Alternativo

Duas amigas saindo de um dos bares do centro de São Paulo à noite. Saindo de mais que um bar: voltando à realidade depois de conversar por horas sobre suas utopias. Viram em uma esquina, no caminho pro metrô. Param de caminhar ao avistarem duas pessoas. Está escuro. A lâmpada do poste mais próximo está queimada aparentemente. O deserto dessa rua destoa de toda a movimentação dos entornos. A noite está agitada, mas ali… O que há ali? Quem são aquelas pessoas? Uma delas contra a parede, a outra gesticulando muito. As amigas se olham, desconfiadas. Uma delas avança um passo na direção da cena que veem. Poucos segundos a mais se fazem necessários para compreender: há uma moça assustada e um homem bravo. Quando a primeira amiga que observava parada se deu por conta, a segunda já estava próxima dos dois. Como foi que chegou ali? Nem percebeu que havia se mexido. Se viu diante deles, e o homem agora fazia um ímpeto silêncio enquanto a olhava. Os dois a encararam. Estou aqui, o que eu faço? Em uma fração de segundos entre estar ali e esboçar reação ao movimento de si mesma, logo cumprimentou a moça. “Ah, Não acredito! Você! Quanto tempo… Como você está? Como assim trombo você no meio da rua?! Esse mundo é tão pequeno!”. A ouvinte levou ainda menos tempo entre o instante de expressa confusão em seu rosto e a resposta: “Nossa! - e riu, um riso nervoso - Você não estava viajando???”, “Sim, estava!”, “Londres, não é mesmo?! Que riqueza hein, quem pode…”. A outra riu. Se abraçaram com uma força exagerada. E ela que havia se intrometido em meio aos dois agora se virava para ele. Voltou o rosto para a moça como quem pergunta “e ele, quem é?”. Rapidamente compreendendo, ela os apresenta. “Esse é o Mário”. Ela se adianta em um aperto de mão que ele levou tempo para corresponder, e diz “Eu sou Fe”. A primeira amiga agora se aproxima devagar. “Poxa, já que estamos aqui vamos conversar um pouco, tenho várias novidades para contar da viagem! E que grande chance o destino nos criou hein!”, termina com um sorriso de orelha a orelha. A moça imediatamente aceita, acenando com a cabeça, e correspondendo com um sorriso que não esconde a expressão de pedido de ajuda. Agora são três moças uma do lado da outra olhando para Mário, que se sente forçado a dizer algo, mas não sabe o quê. Arranca um “Eu vou indo então” dando uma última olhada para a pessoa que antes aborrecia, e começando a se afastar delas contra sua vontade. As três permanecem olhando enquanto ele vai embora, sem dizer palavra. Até que vira a esquina e some. Quem falou primeiro foi a amiga que mais observou a cena: “Você nunca foi a Londres”, “É verdade… Mas gostaria de ir” - respondeu a intrometida com um meio sorriso, e se virou para a desconhecida ainda assustada. “Você está bem?”. A moça começou a chorar. Após alguns minutos e soluços, falou que não aguentava mais as perseguições dele. “Ele estava me ameaçando agora, disse que não adianta tentar me afastar dele, que ele sempre vai me achar se eu não ficar com ele”. A segunda amiga agora remexia sua bolsa, procurava um cartão. Encontrou. Nele havia um número de telefone e um endereço. Entregou a que estava chorando: “Pode chegar a esse lugar hoje?”. Ela leu o cartão, reconheceu o nome do bairro. “Conheço a região. O que é isso?”, “É um lugar para ficar segura hoje. Ninguém vai te achar lá. Fique enquanto procura alguém em quem confie, e denuncie ele”. Ela olhou para o cartão, mas enxergou um caminho de esperança. Sabia que não podia mais tolerar nada daquilo. Sabia que tinha que falar com alguém. As duas se encararam. E foi como se tudo que precisasse ser dito já tivesse sido pronunciado. Sem falar mais nada começaram a caminhar juntas para um ponto de ônibus. A primeira amiga perguntou se a moça precisava de dinheiro para a passagem, e antes da resposta colocou algumas notas em seu bolso. Saíam agora da rua deserta de volta às luzes e todas as vozes na rua, como se tivessem atravessado uma fenda no espaço. Do ponto, viram o ônibus que havia parado no farol anterior. Como se fosse a última chance de sua vida, a moça segurou a mão de sua primeira protetora e indagou “Fe… é ’Fe’ de Fernanda?”. A outra sorriu, respondendo “É de Feminista”. E a interrogadora que agora havia deixado de ser a assustada para ser a confiante, tinha um brilho no olhar. “É a primeira vez que entendo o que é feminismo”. E para sua surpresa, ouviu como resposta “É a minha também!”. O ônibus avançou atendendo ao sinal verde, enquanto várias mãos já lhe acenavam. Nada mais precisava ser falado. A despedida das três foi um leve balançar de cabeças, e a menção de falar da que partia foi interrompida por um “Não há o que agradecer” em coro, pelas duas amigas. Ela subiu no ônibus. E apesar de ir embora só, alguma coisa havia mudado. Ela não estava mais sozinha. A primeira amiga que estava ansiosa por falar durante todo o tempo enquanto andavam, despejou à segunda: “É a primeira vez que entende o feminismo mocinha?! - e riu - “Você vive falando disso em todos os lugares”. “É verdade… - mais risos - Mas em um mundo machista, ninguém sabe bem o que é isso”.

“Vamos pra minha casa hoje? Filminho e pipoca?!”, “Certamente!”.

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