segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Diálogo de uma consciência

- E você que tem duas mãos, se tivesse uma delas segurando todas as vidas do mundo, e a outra, a vida de um amor seu, diante de conflituosa chance de salvar todas as vidas, que é que faria? Se salvar todas as vidas significasse mudar a vida pra melhor, a vida de todas as pessoas do mundo pra melhor, de um jeito que nem sabemos qual é, mas que fosse o melhor em cada canto do mundo, em cada contexto, que é que faria com o dilema de escolher entre o mundo e um amor seu?
- Se só pudesse escolher entre as duas coisas, mataria meu amor.
- E viveria o resto da vida em um mundo melhor para todas as pessoas sem seu amor?
- Não, teria morrido. (Risos).
- Nossa... Pára com isso! Eu já sei que você é seu amor. Mas e se fosse outra pessoa que ama? Não tentaria negociar as alternativas? Não proporia morrer em lugar de deixar vivo seu amor e todas as pessoas, em um mundo melhor?
- Tentaria. Proporia. Mas se não conseguisse, se não pudesse negociar, mataria uma só pessoa ao invés de não usar da chance de melhorar a vida no mundo. Não poderia porém eu viver em um mundo melhor depois de tal escolha. Não quereria continuar a viver em um mundo melhor, mas me serviria de descanso e paz saber dessa transformação.
- Você parece tentar manter a ideia de justiça que acredita. Não acha justo morrer seu amor, nem continuar o mundo como está. Mas se tivesse que fazer opção entre essas coisas, morreria tentando zelar pelas duas. Por que seria então, ainda justo com você se morresse pelo amor e pelo mundo? Esse é o preço da sua vida?
- Jamais o disse. Eu amo a vida. Quero viver. Mas seria minha escolha, e é só sobre mim que posso escolher. Se pudesse negociar, trataria de escolher sobre mim, não sobre meu amor, nem meu mundo.
- E morrer suaviza a responsabilidade de decidir o destino de alguém? Não é você um alguém? É mais pesado decidir o destino de quem não é você? Parece que foge é da ideia de decidir a morte de seu amor ou a continuidade desse mundo como é.
- Não se trata de mais pesado ou mais leve. Trata-se de fazer uma escolha e, repito, é sobre mim que posso escolher. Escolher matar um amor meu é também deixar de viver. Já disse que escolheria a mudança do mundo pra melhor, mas não iria conseguir continuar vivendo.
- E por que não continuar a viver, depois de tamanho sacrifício?
- Porque teria sacrificado um amor meu por um mundo que acredito e desejo para esse amor. A continuidade do mundo perderia o sentido pra mim, mas não para o próprio mundo.
- E se não fosse um amor seu no lugar, em uma de suas mãos? E se fosse alguém cuja existência você desconhece?
- Está a me provocar inutilmente (Risos). Se fosse um amor meu, tentaria isso. E se fosse uma indiferença minha, tentaria o mesmo. Se fosse um agressor meu, tentaria o mesmo. Se fosse alguém responsável por mais me causar sofrimento, dos meus mais sofridos, tentaria o mesmo.
- Só pode ter enlouquecido! Se fosse um assassino... um... um... um estuprador... imagine algo de pior, de muito ruim pra você, reagiria da mesma forma?!!
- Se fosse um assassino não seria eu melhor pessoa ao fazer qualquer escolha. E se fosse, nesse caso, um estuprador, também posso dizer que faria o mesmo, porque eu conheço a dor de um estupro e sei o que decido fazer com ela. Se fosse meu maior mal, faria o mesmo. Já disse, tentaria lançar mão da minha vida. Não sei é com quem faria tal negócio! Seu questionamento é algo impossível. Não existe situação que me faria passar por tal dilema. De ninguém partirá a proposta de matar a mim ou a alguém que amo à troco da garantia de um mundo melhor.
- Mas você sente isso... Tem um perdão pronto para todas as pessoas? Até as causadoras dos piores males, no mundo e na sua vida?
- Perdão... Sim, essa seria minha escolha com qualquer que fosse a pessoa em uma de minhas mãos, estando o mundo inteiro na outra, mesmo se fosse aquelas por quem não sinto nada, aquelas com quem nem quero viver.
- Você acha que a vida de alguém que é a pior pessoa pra você vale mais que a sua? Você diz que ama a vida, que quer viver. Tem certeza disso? Qual a sua disposição para a vida?
- Nunca falei de valores. Minha disposição é para que a vida seja melhor. Amo sim, mas não só a minha. Seria um desperdício morrer. Mas uma dádiva imensurável melhorar todas as vidas. Que capricho meu não seria decidir que vida pode melhorar ou não pelo que afetou na minha. E que egoísmo meu seria tentar proteger um amor meu a troco de todas as pessoas do mundo. Minha disposição é para que a vida aconteça da melhor forma.
- Você acha que é uma pessoa heroína?
- Não, sou uma pessoa viva (Risos).
- E por quem à segurar em uma das mãos seria mais difícil morrer, salvando o mundo? Sabe isso, até quem você perdoaria? Querer deixar um amor seu viver é mais fácil de compreender. E quanto ao seu maior desafio a encarar? Até quem você não suporta...  Até por quem você, não só tem raiva, mas não aceita, não entende. Talvez intolerância e incompreensão sejam piores que ódio, não é mesmo? Afinal das primeiras se originam o segundo. Quem você deixaria vivendo? Quem é mais difícil de perdoar?Até mesmo... Até... Quem?


- Até Deus.



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