sábado, 18 de novembro de 2017

As vontades mudam

Demorou para encontrar as chaves certas. Abrir a porta finalmente foi como respirar fundo e soltar o ar bem devagar, em um alívio momentâneo. Dentro de casa ainda no escuro, tirou os saltos pelo caminho à cozinha. Encontrou a geladeira, como se visse um velha amiga, levantando o braço para abri-la, ou seria para abraçá-la? Demorou um tempo para se acostumar com a luz e o ar frio. Seu corpo estava quente apesar da chuva que tomou no caminho. Só uma cerveja bastava. Precisava gelar os pensamentos que estavam em fervura. Dali, o corpo só se arrastou, sem carecer de levar a mão a qualquer interruptor, acostumado com o mesmo caminho e os mesmos desvios no escuro até o quarto, pelas inúmeras madrugadas que assim o fazia. No quarto, a cadeira velha a esperava. Antes de tirar a roupa, antes de pensar em banho, antes de querer dormir, só tinha que ficar ali, até que de gole em gole secava a garrafa de cerveja e a vontade de chorar. Todas as noites eram, de diferir apenas em detalhes, um bocado de semelhanças das noites passadas. E aquelas repetições da ilusão do que era ser feliz já a cansavam. Quando foi que aquela vida que havia escolhido deixou de fazê-la feliz? "As pessoas mudam", pensou. E o que é que isso significava? Será que mudavam mesmo? Devia ter alguma parte de nós que era sempre a mesma, que continuava ali, vivendo mudanças de não mais que nossos desejos. E se fôssemos as mesmas pessoas só com vontades diferentes conforme o tempo passa? Não seria mais fácil compreender porque nada daquilo que queria era o que queria agora? Sentia como se fosse um esforço imenso manter os vínculos, a vida social, e um tempo só seu. Era como mostrar que queria estar em algum lugar quando, na verdade, não queria. Mais uma vez chegava de outra noite combinada entre amigos, amigos que queriam se divertir, em um combinado do qual fazia parte. Então porque ficava infeliz? Tinha alguma coisa tornando difícil o que antes era simples de ver, de quando sabia se tinha ou não vontade de fazer algo, de quando nada que não quisesse chegasse a ser assunto. Agora tudo era um peso. Pouco a pouco, perdia aquelas vontades como quem perde a essência. E aquilo era só mais uma mudança? Não sabia. Porque mudar significava chegar a um novo estado, enquanto sentia não querer ir a lugar nenhum. Aquele sentar na velha cadeira por minutos, por horas, por noites inteiras, era um profundo embalo na imensidão triste da perca de todas as vontades. Não queria mais aquela casa, não queria mais aquelas saídas, não queria mais aquelas noites. Não queria. Antes queria tudo aquilo que chamava de conforto, para agora sufocar no aconchego das possibilidades rotineiras que havia criado. Não queria mais nada daquilo. O último gole da cerveja foi acompanhado de um abandono do corpo sobre a cadeira que o suportava. E agora? Um banho? Uma roupa limpa e cheirosa? Uma boa noite de sono, sem ter hora pra acordar? Sim, tudo isso. E a esperança de em algum momento poder se encontrar de novo, como quando essas noites a preenchiam bem e não precisava de mais. Como quando em cada dia sabia estar fazendo o que queria fazer. "Agora sequer sei... se quero". É assim que acontece quando mudamos? Precisa ficar tão ruim até percebermos que queremos que fique bem? Talvez não fosse necessário ficar cheio de vazio para se dar conta de que são outras escolhas que nos alimentariam bem de novo, não fosse a nossa insistência em achar que sabemos o que nos faz feliz sempre. Aquelas noites não seriam problema, as pessoas não seriam problema. Só não deveriam ser mais o mesmo compromisso. O banho que sempre era iniciado com a espera pela água morna, dessa vez foi gelado. Precisava de mais que a cerveja para se esfriar. As roupas úmidas havia deixado em um canto qualquer do quarto, junto com o pensamento de lembrar delas amanhã. E já que o banho era finalmente diferente, porque o resto não poderia? As coisas todas continuavam iguais. E já não eram nenhuma de suas vontades. A vida desse jeito faz os dias passarem como se as horas se arrastassem, pedindo ajuda para que alguém as empurrem. Então se nada daquilo era vontade, havia pelo menos a vontade de que não fosse mais assim. Que fosse então por esse não querer, se mais nada queria, que pudesse não continuar vivendo sob velhas escolhas, cujas únicas funções agora só podiam ser de manter a felicidade como lembrança. Foi um banho demorado aquele. Mas quando foi se deitar já sabia que as próximas noites deviam ser diferentes.


domingo, 17 de setembro de 2017

Vivaz

Faz tanto tempo que não te amo,
que esqueci como foi bom te amar.
Como cresci enquanto te amava
E como tudo foi maior que seu rancor,
Acredito eu, um peso passageiro
Porque você é força, é evolução
Você se lia e se aprendia, e agia
Ah como você era pura ação
O motor das próprias vontades.

Agradeço por ter te amado
E por ao refazer um caminho
Lembrar de como foi verdade
E mais: também lealdade foi.
Eu que sou besta e pouco sabia
De todas as suas demandas
E a razão delas, fui pequena
Mas fui o que podia ser pra nós.
E que bom que assim fomos.

Já não há em mim mais
Um segundo da indiferença
Fruto da raiva que alimentou
Porque por mim já não conseguia
Guardar qualquer gota de carinho.
Me faltou compreensão contigo
E a empatia de enxergar mais
Que um instante de transbordo apenas.
É de todo direito poder colocar
Como se fica machucado.

Mas hoje eu sei que você é mais
E nem se quer precisava daquilo.
Pode ter toda a confusão do mundo
Mas você tem potencial pra ser cura.
Então sou grata por tudo que fiz
E fizemos. E só desejo agora
Que cada passo dado não nos venha
A insensibilizar nossas almas
Pra que possamos seguir sempre
Aprendendo e nos aproximando
Da capacidade de ser solidário.

Vou te guardar comigo sim
E por vezes esquecer também.
Mas quando distraidamente lembrar
Que seja a melhor memória
De parceria, compartilhamento
E ainda antes disso, do amor que foi.
Tudo que aprendi com você
Além de nunca me abandonar,
É poder lembrar das coisas boas
Que recebemos de quem nos ama.

E se em qualquer coisa lhe sobrar
A sensação de alguma dívida
Como a minha consciência  me trazia
Eu já me perdoei e até naquilo que
Só depois eu percebi ter sido comigo
Uma afronta injusta sua, te perdoei junto.
Mesmo que nunca mais os use com você,
Vou lhe deixar os braços abertos sempre.






segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Três estações

Ela se demorou tanto pra dizer
Diante do espelho, doa a quem doer
Que era dona si e da imagem que via
Que teu corpo era a silhueta da folia
De quem ri com inocência ao que vê
Como ela, que era ela (!), a se perceber
Poderia antes ter mesmo não visto
Como é toda linda, toda graça, toda

E foi assim caminhar de beleza assumida
Ela que então já andava toda sabida
De quando um tecido novo lhe caia
E se moldava à tua forma desenhada
Se era bela assim vestida, imagine nua
Ela pensava isso de si depois ria
Quem é que define isso de ser bonita?

E tudo que é belo existe e faz bem
Ao passo que faz mal a tudo que não é.
Então ela que era linda pra si, pra outros
Era também feia pra outros, e pra si
De onde é que vem o peso carregado
Por ser ou não bonita, isso não sabia
Mas sabia isso sim, quem é que carrega.

Ela que já se dizia em seu melhor elogio
De tão imersa na própria beleza
Cansou de ser bela toda dia, e foi toda dia ela.
E agora ela podia sentir de novo seu peso
Por que é que ao ser só ela a dizer "me vejo"
Lhe faltava ainda outro tipo de alegria?
E ela que já era sua aceitação natural
Via que alimentar o ego não é de todo mal.

Sua imagem servia, antes de ser feia ou bonita
Pra se reconhecer sempre que perdida
E se há dias em que ela mesma se elogia
Que hajam muito mais pra ela ouvir
Que ser completa na imagem de si é passo
Sobre o andar de quem se vê na imagem alheia
E ela que era bonita, já nem tinha espelho.





quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Prolongando-se

O mesmo cabelo embaraçado
A cama ainda bagunçada
A preguiça vencida, o cansaço
A velha estrada disfarçada

O novo caminho que é o mesmo
A máscara da inovação quista
A beleza da mentira antiga
O mesmo coração solitário à vista

A continuidade rotineira
A mesma gama de atitudes
A espera de outros resultados
Com ações de mesma inquietude

O medo constante da mudança
O desejo de que algo mude
A necessidade de contar pra si
Que mudar é sua maior solicitude.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Final Alternativo

Duas amigas saindo de um dos bares do centro de São Paulo à noite. Saindo de mais que um bar: voltando à realidade depois de conversar por horas sobre suas utopias. Viram em uma esquina, no caminho pro metrô. Param de caminhar ao avistarem duas pessoas. Está escuro. A lâmpada do poste mais próximo está queimada aparentemente. O deserto dessa rua destoa de toda a movimentação dos entornos. A noite está agitada, mas ali… O que há ali? Quem são aquelas pessoas? Uma delas contra a parede, a outra gesticulando muito. As amigas se olham, desconfiadas. Uma delas avança um passo na direção da cena que veem. Poucos segundos a mais se fazem necessários para compreender: há uma moça assustada e um homem bravo. Quando a primeira amiga que observava parada se deu por conta, a segunda já estava próxima dos dois. Como foi que chegou ali? Nem percebeu que havia se mexido. Se viu diante deles, e o homem agora fazia um ímpeto silêncio enquanto a olhava. Os dois a encararam. Estou aqui, o que eu faço? Em uma fração de segundos entre estar ali e esboçar reação ao movimento de si mesma, logo cumprimentou a moça. “Ah, Não acredito! Você! Quanto tempo… Como você está? Como assim trombo você no meio da rua?! Esse mundo é tão pequeno!”. A ouvinte levou ainda menos tempo entre o instante de expressa confusão em seu rosto e a resposta: “Nossa! - e riu, um riso nervoso - Você não estava viajando???”, “Sim, estava!”, “Londres, não é mesmo?! Que riqueza hein, quem pode…”. A outra riu. Se abraçaram com uma força exagerada. E ela que havia se intrometido em meio aos dois agora se virava para ele. Voltou o rosto para a moça como quem pergunta “e ele, quem é?”. Rapidamente compreendendo, ela os apresenta. “Esse é o Mário”. Ela se adianta em um aperto de mão que ele levou tempo para corresponder, e diz “Eu sou Fe”. A primeira amiga agora se aproxima devagar. “Poxa, já que estamos aqui vamos conversar um pouco, tenho várias novidades para contar da viagem! E que grande chance o destino nos criou hein!”, termina com um sorriso de orelha a orelha. A moça imediatamente aceita, acenando com a cabeça, e correspondendo com um sorriso que não esconde a expressão de pedido de ajuda. Agora são três moças uma do lado da outra olhando para Mário, que se sente forçado a dizer algo, mas não sabe o quê. Arranca um “Eu vou indo então” dando uma última olhada para a pessoa que antes aborrecia, e começando a se afastar delas contra sua vontade. As três permanecem olhando enquanto ele vai embora, sem dizer palavra. Até que vira a esquina e some. Quem falou primeiro foi a amiga que mais observou a cena: “Você nunca foi a Londres”, “É verdade… Mas gostaria de ir” - respondeu a intrometida com um meio sorriso, e se virou para a desconhecida ainda assustada. “Você está bem?”. A moça começou a chorar. Após alguns minutos e soluços, falou que não aguentava mais as perseguições dele. “Ele estava me ameaçando agora, disse que não adianta tentar me afastar dele, que ele sempre vai me achar se eu não ficar com ele”. A segunda amiga agora remexia sua bolsa, procurava um cartão. Encontrou. Nele havia um número de telefone e um endereço. Entregou a que estava chorando: “Pode chegar a esse lugar hoje?”. Ela leu o cartão, reconheceu o nome do bairro. “Conheço a região. O que é isso?”, “É um lugar para ficar segura hoje. Ninguém vai te achar lá. Fique enquanto procura alguém em quem confie, e denuncie ele”. Ela olhou para o cartão, mas enxergou um caminho de esperança. Sabia que não podia mais tolerar nada daquilo. Sabia que tinha que falar com alguém. As duas se encararam. E foi como se tudo que precisasse ser dito já tivesse sido pronunciado. Sem falar mais nada começaram a caminhar juntas para um ponto de ônibus. A primeira amiga perguntou se a moça precisava de dinheiro para a passagem, e antes da resposta colocou algumas notas em seu bolso. Saíam agora da rua deserta de volta às luzes e todas as vozes na rua, como se tivessem atravessado uma fenda no espaço. Do ponto, viram o ônibus que havia parado no farol anterior. Como se fosse a última chance de sua vida, a moça segurou a mão de sua primeira protetora e indagou “Fe… é ’Fe’ de Fernanda?”. A outra sorriu, respondendo “É de Feminista”. E a interrogadora que agora havia deixado de ser a assustada para ser a confiante, tinha um brilho no olhar. “É a primeira vez que entendo o que é feminismo”. E para sua surpresa, ouviu como resposta “É a minha também!”. O ônibus avançou atendendo ao sinal verde, enquanto várias mãos já lhe acenavam. Nada mais precisava ser falado. A despedida das três foi um leve balançar de cabeças, e a menção de falar da que partia foi interrompida por um “Não há o que agradecer” em coro, pelas duas amigas. Ela subiu no ônibus. E apesar de ir embora só, alguma coisa havia mudado. Ela não estava mais sozinha. A primeira amiga que estava ansiosa por falar durante todo o tempo enquanto andavam, despejou à segunda: “É a primeira vez que entende o feminismo mocinha?! - e riu - “Você vive falando disso em todos os lugares”. “É verdade… - mais risos - Mas em um mundo machista, ninguém sabe bem o que é isso”.

“Vamos pra minha casa hoje? Filminho e pipoca?!”, “Certamente!”.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Divisor de Águas

Já pela manhã estive além de mim
Antes que houvesse desesperança,
Imersa discutindo, em sintonia de ideias
Na certeza do quanto há que se construa.


É do coletivo que se faz a empatia
Que cada indivíduo pode carregar.
Se desenvolver entre amigos em assunto
É privilégio que a alma logo se habitua.

Vou levar um tanto de coisas
De cada encontro aprendido
E se já não sou a mesma, sozinha
Imagine então todos nós transformados (!)

Caminhei pra segunda parte do dia,
E da coleção de frustrações em um lugar
Eu pude redescobrir desde o fim da manhã
Que acreditar é o começo do resistir

Fui perdida em novas pessoas velhas
Meu coração fazer realçar seu tudo
Ao ver que em meio há tanto caos
Ainda existem mil possibilidades (sim!)

E se tenho sorte por ter comigo fantasias,
Mal posso esperar por depois desse dia
Ansiosa conhecer a pessoa que serei
Ao acordar com minhas renovadas utopias.


terça-feira, 9 de maio de 2017

Dama Nômade II

Viaje sim mulher
Só não te esqueça de voltar
Abriga teu coração
Que há nele o teu caminhar



Quando partes leva embora
A dúvida entre ir ou ficar
Mas quando volta e faz história
Traz certeza de que pode lutar



Pra tirar da tua estrada
Toda voz que ao vento ecoar
Tentando barrar a coragem
Das tuas escolhas sustentar

  
Não faz mal saber que dói
A matéria do teu pensamento a pesar
Faz é bem que siga ainda
Ora tranquila, ora a se abalar


Mas, mesmo com tudo, que siga
Sabendo que vais sempre recomeçar
A tua sina por buscas você trilha
E tua felicidade está mesmo em trilhar


Já que segue tão ciente
De que vais sorrir e vais chorar
Que seja a tua lágrima o prefácio
Dos risos teus que vem esse mundo embelezar


E tudo bem ao que lhe vier
Seja como erro, ou como vais acertar
Que na tua caminhada, tudo há de se relativizar
Porque és ao mesmo tempo a causa
E a consequência de como vais andar.






sexta-feira, 21 de abril de 2017

Iáia, mulher

Você, maravilhosamente mulher
Na sombra, inteiramente luz
Em guerra, força buscando paz
Tem sempre exalando, certeira,
Que a raridade de instantes felizes
Se antes foi tão bela e admirável,
Agora é sempre mais assustadora.





E você mulher, continua à milhão
Quando convicta, avança e sabe
Que ser feliz não é convicção
Flutua sobre bons e maus juízos
Que outros guardam na tal razão
E você mulher, na plenitude de si
Escolheu viver com o coração.

sábado, 4 de março de 2017

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Com Tato

Vou contar em um conto
Cada vez que me encanto
Contando quem você é

Pra contar quantas vezes
Já contei nossa história
E te cantei com cafuné

Cantarolando verdades
Das mais hilárias cantadas
De quando um de nós quer

Ser canteiro e ser cantiga
Da cor do cultivo no canto
De aconchego, paz e axé

Pra voltar no fim do dia
E encontrar nesse recanto
O gosto do nosso café.






domingo, 5 de fevereiro de 2017

Refletes

Eu me sobressaí dessa ideia
Da zona de conforto que é
Buscar sempre felicidade 
Como se pudesse essa ser um estado
Pleno, de mais que constante almejo,
Sempre que quero seu beijo.
E nesse desejar inquieto
Que só traz conformidade
Ao achar que por ser feliz, 
Já se provou do melhor,
Até parece que todos os dias
Deveriam ser dias de bem.
Não podem, porque fazem
Parte de boa vida também,
Os dias ruins em que trazemos
Aquilo que não queremos.
De que forma romperíamos
O conforto que é esquecer
De quando somos instáveis,
Irreconhecíveis de nós pra nós.
Felicidade é mais que certeza
É ao mesmo tempo escura, na clareza
Não é de prover molde perfeito
Pra da bondade, se romper frieza
Pra do apego, se combater avareza
Pra de amor, se desfazer dureza
Pra além do concreto, resgatar natureza.
Felicidade tem parcela de alegria e tristeza
Na chegada e também na despedida
E envolve já a dor das escolhas,
Faz crescer em nós, a nossa pessoa.
Assim compõe o que vem a se chamar
De conquista, dessa nossa busca em ser
Mais feliz que ontem. 
E acaba por me traduzir
Mais pessoa, mais de mim
Quando me encontro ainda
Pra fora de tudo que sou
Na sinceridade do teu sorrir
E já posso assim ver
Como sou ainda mais 
Que o que eu esperava de mim.




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Diálogo de uma consciência

- E você que tem duas mãos, se tivesse uma delas segurando todas as vidas do mundo, e a outra, a vida de um amor seu, diante de conflituosa chance de salvar todas as vidas, que é que faria? Se salvar todas as vidas significasse mudar a vida pra melhor, a vida de todas as pessoas do mundo pra melhor, de um jeito que nem sabemos qual é, mas que fosse o melhor em cada canto do mundo, em cada contexto, que é que faria com o dilema de escolher entre o mundo e um amor seu?
- Se só pudesse escolher entre as duas coisas, mataria meu amor.
- E viveria o resto da vida em um mundo melhor para todas as pessoas sem seu amor?
- Não, teria morrido. (Risos).
- Nossa... Pára com isso! Eu já sei que você é seu amor. Mas e se fosse outra pessoa que ama? Não tentaria negociar as alternativas? Não proporia morrer em lugar de deixar vivo seu amor e todas as pessoas, em um mundo melhor?
- Tentaria. Proporia. Mas se não conseguisse, se não pudesse negociar, mataria uma só pessoa ao invés de não usar da chance de melhorar a vida no mundo. Não poderia porém eu viver em um mundo melhor depois de tal escolha. Não quereria continuar a viver em um mundo melhor, mas me serviria de descanso e paz saber dessa transformação.
- Você parece tentar manter a ideia de justiça que acredita. Não acha justo morrer seu amor, nem continuar o mundo como está. Mas se tivesse que fazer opção entre essas coisas, morreria tentando zelar pelas duas. Por que seria então, ainda justo com você se morresse pelo amor e pelo mundo? Esse é o preço da sua vida?
- Jamais o disse. Eu amo a vida. Quero viver. Mas seria minha escolha, e é só sobre mim que posso escolher. Se pudesse negociar, trataria de escolher sobre mim, não sobre meu amor, nem meu mundo.
- E morrer suaviza a responsabilidade de decidir o destino de alguém? Não é você um alguém? É mais pesado decidir o destino de quem não é você? Parece que foge é da ideia de decidir a morte de seu amor ou a continuidade desse mundo como é.
- Não se trata de mais pesado ou mais leve. Trata-se de fazer uma escolha e, repito, é sobre mim que posso escolher. Escolher matar um amor meu é também deixar de viver. Já disse que escolheria a mudança do mundo pra melhor, mas não iria conseguir continuar vivendo.
- E por que não continuar a viver, depois de tamanho sacrifício?
- Porque teria sacrificado um amor meu por um mundo que acredito e desejo para esse amor. A continuidade do mundo perderia o sentido pra mim, mas não para o próprio mundo.
- E se não fosse um amor seu no lugar, em uma de suas mãos? E se fosse alguém cuja existência você desconhece?
- Está a me provocar inutilmente (Risos). Se fosse um amor meu, tentaria isso. E se fosse uma indiferença minha, tentaria o mesmo. Se fosse um agressor meu, tentaria o mesmo. Se fosse alguém responsável por mais me causar sofrimento, dos meus mais sofridos, tentaria o mesmo.
- Só pode ter enlouquecido! Se fosse um assassino... um... um... um estuprador... imagine algo de pior, de muito ruim pra você, reagiria da mesma forma?!!
- Se fosse um assassino não seria eu melhor pessoa ao fazer qualquer escolha. E se fosse, nesse caso, um estuprador, também posso dizer que faria o mesmo, porque eu conheço a dor de um estupro e sei o que decido fazer com ela. Se fosse meu maior mal, faria o mesmo. Já disse, tentaria lançar mão da minha vida. Não sei é com quem faria tal negócio! Seu questionamento é algo impossível. Não existe situação que me faria passar por tal dilema. De ninguém partirá a proposta de matar a mim ou a alguém que amo à troco da garantia de um mundo melhor.
- Mas você sente isso... Tem um perdão pronto para todas as pessoas? Até as causadoras dos piores males, no mundo e na sua vida?
- Perdão... Sim, essa seria minha escolha com qualquer que fosse a pessoa em uma de minhas mãos, estando o mundo inteiro na outra, mesmo se fosse aquelas por quem não sinto nada, aquelas com quem nem quero viver.
- Você acha que a vida de alguém que é a pior pessoa pra você vale mais que a sua? Você diz que ama a vida, que quer viver. Tem certeza disso? Qual a sua disposição para a vida?
- Nunca falei de valores. Minha disposição é para que a vida seja melhor. Amo sim, mas não só a minha. Seria um desperdício morrer. Mas uma dádiva imensurável melhorar todas as vidas. Que capricho meu não seria decidir que vida pode melhorar ou não pelo que afetou na minha. E que egoísmo meu seria tentar proteger um amor meu a troco de todas as pessoas do mundo. Minha disposição é para que a vida aconteça da melhor forma.
- Você acha que é uma pessoa heroína?
- Não, sou uma pessoa viva (Risos).
- E por quem à segurar em uma das mãos seria mais difícil morrer, salvando o mundo? Sabe isso, até quem você perdoaria? Querer deixar um amor seu viver é mais fácil de compreender. E quanto ao seu maior desafio a encarar? Até quem você não suporta...  Até por quem você, não só tem raiva, mas não aceita, não entende. Talvez intolerância e incompreensão sejam piores que ódio, não é mesmo? Afinal das primeiras se originam o segundo. Quem você deixaria vivendo? Quem é mais difícil de perdoar?Até mesmo... Até... Quem?


- Até Deus.



segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Iluminura

Ela sabe e não carrega
Qualquer rancor da vida
Faz bem-vinda e preferida
A companhia da paz
Da autossuficiência
Do tratado da ciência
Encara os casos de antemão
E ela revê o passado
Traz lembrança do acaso
Daquilo que já nem imaginava
Um dia ainda aproveitar
Chance nova de reler
As posturas que ela mesma
Tinha até então a desenvolver
E ela apropriada de seus contextos
Ela que se falava em textos
Correu já pra tua solução
E sabia do punhado de coisas
A que a culpa não lhe cabia
E se refez em nova leitura
De tudo que antes dizia
E ela que não sabia
Que amar lhe faria de novo
Reencontrar teus capítulos
Remexeu nas sombras passadas
De todas sobras mal consumidas
Assombrou a garganta falida
E nela se refez a voz forte
Nascida desde que se descobriu
Pra se dizer as verdades
Que ninguém jamais ouviu
E é ela quem guarda em lembrança
A mágoa que nunca lhe partiu
É ela que escolhe serena
Que sorri e estende a mão
Pra toda tua memória plena
E a todos entregou seu coração
Cortou as correntes de si
Acreditou que iria então voar
Percebeu logo que lhe bastava
Os pés no chão e saber caminhar
E na viagem a que se permitiu
Não lhe coube à mala história
De que um dia alguém lhe feriu
Era estrada da própria cura
Ela, cheia de cores, sua iluminura.




sábado, 14 de janeiro de 2017

À conceber

Deita no canto e observa
Desvenda minha história
Esquece de ir embora
Faz teu carinho e dorme
Deixa tua marca inteira
Fala com certeza que me vê
Visita todo o meu ser
Traz desejo de acontecer
Bebe do meu café
Conhece minha fervura
Esquenta minha ternura
Aumenta meu querer
Expande minhas ideias
Atiça meu prazer
Abraça meu abraço
Tateia à liberdade
Cresce no meu saber
Liberta seu sentimento
Aprende a nos aprender
Cria à amar a verdade
Da vontade corresponder
Conhece nossa saudade
Pra eu também conhecer
Tem o mesmo juízo meu
De ficar e nos escolher.