Era uma vez um homem que dizia que toda mulher que fez um aborto é uma vadia, piranha, vagabunda, criminosa. "Fecha essas pernas" ele dizia, toda vez que via uma reportagem falando sobre aborto, alguém defendendo a ideia, qualquer início do tema no assunto. Esse homem era incansável na sua argumentação. "Feche as pernas!". Se a mulher não quisesse não engravidaria. Coisa de gente irresponsável. Acha que pode brincar com a vida. Faz, sente gosto enquanto faz, e depois quer desfazer. Acha fácil, simples... É só ir lá e destruir um ser que deveria vir ao mundo. Depois se morrem viram coitadinhas.
Todos os dias, depois das atividades do trabalho, da rotina que o cansava, de todo esforço, todo suor que dava para o sustento da família, porque ele... ele era um bom homem, cuidava da família. Todos os dias ele chegava em casa, ia tomar seu banho, o corpo cansado e com fome. A esposa o esperava. Deixava a casa limpa, cuidava das crianças, e esperava-o chegar para jantarem todos juntos. Ela servia a comida de todos. Colocava o prato dele. Ele comia. Comia não... devorava, com a fome que tinha. Dava pouca atenção para as crianças, estava sempre muito cansado. Quando iam todos se deitar, dormir pra começar tudo de novo no outro dia, a luta diária... Ele se deitava, ficava esperando enquanto a mulher colocava cada filho em sua cama, dava-lhes um beijo e desejava bons sonhos a cada um. Então ela caminhava para seu quarto, devagar. Ia medindo os passos, contando... devagar. Chegava no quarto, apagava a luz, ia se deitar. E o homem tirava a bermuda que usava como pijama, ereto que ficava, encostava nela pra que sentisse. Ela já sabia que seria assim. Não queria fazer nada. Falava pra ele que não estava com vontade... Ele ignorava e seguia avançando em contato com o corpo dela, tirando sua camisola. Ela tentava dizer que estava cansada. Ele questionava, surpreso, "Cansada de quê? Ficou o dia todo em casa..." E subia nela, fazia força sobre suas pernas. Ela as fechava. Não queria deixá-lo penetrá-la, não queria aquele corpo no dela daquele jeito, não era sua vontade. Ele fazia força, empurrava uma das pernas dela pro lado. Ela fechava de novo, tentava sair de baixo dele... Fazia força... Não conseguia. E ele, com seu peso, sua força, sua noção de dono daquele corpo, falava pra ela "Você é minha mulher, se não vai fazer isso por mim quer que eu faça fora de casa, quer que busque isso com outra?" Ela segurava as lágrimas, ficava imóvel, quase petrificada. Nada dizia, nem ao menos conseguiria. E assim, ele a penetrava. Fazia seus movimentos iguais e repetitivos até que chegasse ao seu orgasmo, quando então parava. Saía de cima dela suado, o corpo mole de satisfeito. Virava pro lado sem dizer palavra. Mexia pra lá e pra cá, se acomodava. Pegava no sono. Roncava alto, de barriga pra cima. Às 5hs00 o despertador tocava. Ele acordava de súbito, pulava da cama. Se arrumava, vestia a roupa que a esposa havia passado no dia anterior. Mordia ou bebia alguma coisa, e saía pra trabalhar de novo. A vida seguia assim, e durante os dias, quando alguém falava perto dele sobre aborto ele dizia, "Essas mulheres vadias, piranhas, vagabundas... Fechem as pernas".
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