Depois que a vida veio
A me dilacerar inteira
Estive eu em mudança
E da velha estrutura só
Resta-me um olhar à beira
Da margem do abismo
Que mergulha em quem
Não sou de longe, a primeira
Fui mesma já a me afastar
Construindo nova leira
De um lar de alicerce
Em amor, comida e besteira
Fui eu então amiga, renascida
Do recomeço d'um cavalo-marinho
Eu fui feliz e companheira
Já sabia da solidão e da paz
E da mudança primeira
Discorreu-me ainda a segunda
Em que me testei em adaptar
E em seleção natural, fui trepadeira
E das novas companhias
Plantei no coração o bem da aroeira
E quando em recanto novo
Me coloquei em busca pra me encontrar
A dor física me veio, traiçoeira
E o espaço de minha apropriação
Não me engana em alegre rasteira
Foi difícil construir com moeda, a suar
E não estive sozinha, tive amigos
Donde se seguiu a mudança terceira
Foram terra batida, firmeza
Meu chão fixado de abraçadeira
E os sentimentos de então
Já eram mais fortes e puros
Que o olhar da cardieira
E nesse ciclo de verão à verão
Do aprendizado, que é madeira
Me pus logo a esculpir com esforço
Pra em mais doze meses à estudar
Do conhecimento abrir a tronqueira
E o coração que ao começar
Esse ano, era livre grão de areia
Me guardava a esse findar
Pra me fazer sempre continuar
O segredo que sabe o canto da sereia.
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