sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Retrospectiva 2016

Depois que a vida veio
A me dilacerar inteira
Estive eu em mudança
E da velha estrutura só
Resta-me um olhar à beira

Da margem do abismo
Que mergulha em quem
Não sou de longe, a primeira
Fui mesma já a me afastar
Construindo nova leira

De um lar de alicerce
Em amor, comida e besteira
Fui eu então amiga, renascida
Do recomeço d'um cavalo-marinho
Eu fui feliz e companheira

Já sabia da solidão e da paz
E da mudança primeira
Discorreu-me ainda a segunda
Em que me testei em adaptar
E em seleção natural, fui trepadeira

E das novas companhias
Plantei no coração o bem da aroeira
E quando em recanto novo
Me coloquei em busca pra me encontrar
A dor física me veio, traiçoeira

E o espaço de minha apropriação
Não me engana em alegre rasteira
Foi difícil construir com moeda, a suar
E não estive sozinha, tive amigos
Donde se seguiu a mudança terceira

Foram terra batida, firmeza
Meu chão fixado de abraçadeira
E os sentimentos de então
Já eram mais fortes e puros
Que o olhar da cardieira

E nesse ciclo de verão à verão
Do aprendizado, que é madeira
Me pus logo a esculpir com esforço
Pra em mais doze meses à estudar
Do conhecimento abrir a tronqueira

E o coração que ao começar
Esse ano, era livre grão de areia
Me guardava a esse findar
Pra me fazer sempre continuar
O segredo que sabe o canto da sereia.




segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Tredice de um homem


Era uma vez um homem que dizia que toda mulher que fez um aborto é uma vadia, piranha, vagabunda, criminosa. "Fecha essas pernas" ele dizia, toda vez que via uma reportagem falando sobre aborto, alguém defendendo a ideia, qualquer início do tema no assunto. Esse homem era incansável na sua argumentação. "Feche as pernas!". Se a mulher não quisesse não engravidaria. Coisa de gente irresponsável. Acha que pode brincar com a vida. Faz, sente gosto enquanto faz, e depois quer desfazer. Acha fácil, simples... É só ir lá e destruir um ser que deveria vir ao mundo. Depois se morrem viram coitadinhas.
Todos os dias, depois das atividades do trabalho, da rotina que o cansava, de todo esforço, todo suor que dava para o sustento da família, porque ele... ele era um bom homem, cuidava da família. Todos os dias ele chegava em casa, ia tomar seu banho, o corpo cansado e com fome. A esposa o esperava. Deixava a casa limpa, cuidava das crianças, e esperava-o chegar para jantarem todos juntos. Ela servia a comida de todos. Colocava o prato dele. Ele comia. Comia não... devorava, com a fome que tinha. Dava pouca atenção para as crianças, estava sempre muito cansado. Quando iam todos se deitar, dormir pra começar tudo de novo no outro dia, a luta diária... Ele se deitava, ficava esperando enquanto a mulher colocava cada filho em sua cama, dava-lhes um beijo e desejava bons sonhos a cada um. Então ela caminhava para seu quarto, devagar. Ia medindo os passos, contando... devagar. Chegava no quarto, apagava a luz, ia se deitar. E o homem tirava a bermuda que usava como pijama, ereto que ficava, encostava nela pra que sentisse. Ela já sabia que seria assim. Não queria fazer nada. Falava pra ele que não estava com vontade... Ele ignorava e seguia avançando em contato com o corpo dela, tirando sua camisola. Ela tentava dizer que estava cansada. Ele questionava, surpreso, "Cansada de quê? Ficou o dia todo em casa..." E subia nela, fazia força sobre suas pernas. Ela as fechava. Não queria deixá-lo penetrá-la, não queria aquele corpo no dela daquele jeito, não era sua vontade. Ele fazia força, empurrava uma das pernas dela pro lado. Ela fechava de novo, tentava sair de baixo dele... Fazia força... Não conseguia. E ele, com seu peso, sua força, sua noção de dono daquele corpo, falava pra ela "Você é minha mulher, se não vai fazer isso por mim quer que eu faça fora de casa, quer que busque isso com outra?" Ela segurava as lágrimas, ficava imóvel, quase petrificada. Nada dizia, nem ao menos conseguiria. E assim, ele a penetrava. Fazia seus movimentos iguais e repetitivos até que chegasse ao seu orgasmo, quando então parava. Saía de cima dela suado, o corpo mole de satisfeito. Virava pro lado sem dizer palavra. Mexia pra lá e pra cá, se acomodava. Pegava no sono. Roncava alto, de barriga pra cima. Às 5hs00 o despertador tocava. Ele acordava de súbito, pulava da cama. Se arrumava, vestia a roupa que a esposa havia passado no dia anterior. Mordia ou bebia alguma coisa, e saía pra trabalhar de novo. A vida seguia assim, e durante os dias, quando alguém falava perto dele sobre aborto ele dizia, "Essas mulheres vadias, piranhas, vagabundas... Fechem as pernas".

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Perspirada

e se já bastasse de mim mesma
o torpor do trabalho incansável
do movimento repetitivo em busca
da criação de nova ideia antagônica
que me possa então desvendar
a transliterar os sentidos em fala
Respira
e se já houvesse a cerimônia
a que preparo o coração num deleite
de se antes, emocionasse a mim
saber que o amor resiste ao tempo,
é de encher-me o peito dizer a beleza
e apreciar que o amor resiste a sociedade
Conspira
e se não há caminho a que me apegar
e não pudera saber quando hei de suceder
ou quando hei de me encher do desejo
é de se considerar que a amar estou sempre
e que de mim se faz o começo da ausência
de disposição pra de paixão eu me cansar
Inspira
e se recolher a mim mesma mulher
num recanto de paz que construo
e me redescobrir singela, de toda força
o vetor que me aponta, e é certeza
acolhi e carreguei durante esse tempo
que já não posso abdicar desse corpo
Expira
e se transbordo hoje a força e amor
que ao mesmo tempo em que me desfaleço
estou já a me entregar em profundo mergulho
não me sobra nem um tanto de conformidade
comigo sendo quieta e parada, impossível
estou antes disso a me alastrar repleta
Suspira
e se o laço no qual sem cautela me enlaço
das revelações a que me concedi em consentir
enquanto estive eu assim, no Pantanal
em viagem me apontasse a direção do meu lugar
encadeassem a mim toda verdade do meu existir
não consigo, iludida, me romantizar
Transpira
e se perdida me encontrava de repente
e antes funcionasse com tamanha volúpia
a gerar impressões ligeiras de clichês enraizados
já não me serve nem a trova nem o ditado
e desde de que me atinei me dei por conta
de que por minha causa sempre estive manifestada
Perspira
e se me pego sempre em flagrante
das notórias manias da minha convivência
e tendo estado em cada passo tão entretida
é de se supor que mesmo antes de assim me conhecer,
da minha companhia eu então já estava certa
e sem culpa por quem não quis comigo trazer
Aspira
e a quem mais poderia dever epifanias
se sempre que distraidamente me dou
por inteira, a nova exploração do que passou
estou a chegar em conclusões sempre díspares
sobre as leituras de minhas próprias posturas
e do prazer do que mais posso esperar de mim.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Pipinha


Ela sabe mais que eu
Das coisas de mim mesma
Não fica fazendo análises filosóficas
Isso é mania minha
Mas quando fala é observadora certeira
Me faz encher os olhos 
De ver como me conhece.
E que emoção é a de pensar 
Em mostrar um carinho sincero,
De cruzar um olhar daqueles
Que só nós entendemos.
E que desafio não é
Segurar uma risada nossa
Pelos nossos motivos secretos
Quando deixamos nossa mensagem
Uma pra outra, no ar...
Ela é a irmã com quem vou comer fora
Num acordo prévio de dividir a bebida
E ninguém precisa falar nada.
É meu diário vivo, sempre bem-vinda.
É minha companhia absoluta
De qualquer hora, é minha certeza
De continuidade e admiração.
É minha confidente, e sabe de mim
As coisas mais cruas, 
As hipocrisias e as verdades puras
Ela é motivo de eu transformar
A cada dia a minha ideia
Do significado de irmandade.
Ela é quem sabe e que sente
Com esse jeito majestoso,
De si mesma ser a rainha
E com tempo aprendeu
Tudo que eu quero dizer a ela
Quando a chamo de Pipinha.