terça-feira, 1 de novembro de 2016

PRETA E MÃE NA UNIVERSIDADE

“Eu sou mais velha, não tenho a mesma idade que vocês. É difícil estudar aqui. Já passou muito tempo desde o ensino médio... Aí vc chega na faculdade e bomba em você. Eu não consegui estudar antes. Aconteceram muitas coisas. Aí só deu agora. Eu tenho três filhos. Muita luta sempre, correria pra criar os três. Aí já sabe né... Mas eles cresceram, e consegui vir pra faculdade agora. Mas não não... eu preferia quando eram crianças, dava pra cuidar de tudo, criar adolescente é difícil. Não está mais em suas mãos. Enfim... Eu não sou o padrão pra estar aqui. Eu queria poder fazer como vocês, pesquisar, passar mais tempo estudando, mais tempo na faculdade. Aqui minhas notas são medianas. Eu sou mediana. Eu sei que isso não importa tanto de fato, lá fora você, mesmo que tenha tirado só 10 aqui, não quer dizer que vai se virar bem. Eu trabalhei em uma empresa que fazia pesquisas. Um dia no serviço apareceu um problema, ninguém sabia resolver... Eu me meti lá e no fim vi que era só mudar a temperatura de um equipamento. Pronto. Cê vê que coisa besta... Eu sempre tive curiosidade, vontade de pesquisar e entender. É isso que é diferente, é a experiência. Mas enfim, de novo (risos), eu não sou como um estudante padrão daqui. Mas eu tô aqui.”
Relato de estudante da UNIFESP. Porque o padrão é o privilégio do conforto. Nós todxs devíamos poder estudar de um jeito saudável, poder não se preocupar com a luta que é existir como mulher, como mãe, como periféricx, como pretx, como lgbt. Devíamos ter direito de escolher o que fazer nas nossas vidas sem que, para isso acontecer, tivéssemos que deixar algo de lado. Na maioria das vezes pra isso já não temos nem ao menos a opção. Por mais mulheres negras e por mais mulheres mães que queiram estar na universidade ocupando seu espaço dentro dela. “Mas eu tô aqui”, e isso é RESISTÊNCIA. Que seja mais que resistir, que seja o direito de existir. Pela Consciência Negra, pelas mulheres negras, e pela educação. O povo preto tá aqui, e quanto mais a gente se apropia do nosso espaço, menos conformação. Não aos avanços neoliberais e racistas que querem nos tirar a educação. Os ataques são aos direitos do POVO, a quem já conheceu algum e a quem só conhece a negação. União contra todo racismo, machismo, e qualquer corrente de pensamento que marginalize um grupo da população, antes da prioridade ao lucro tem que existir respeito, empatia e união.

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