segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Ginga

E que protege o corpo com o corpo
Que movimenta a alma e resiste

Que a aquilombar-se insiste

Mais uma noite esconde no escuro

O canto e o som d'um berimbau

Perdeu-se dentro da extensão do canavial

Do trabalho árduo, do suor doído

E abrigou em segredo a tua força em exercício
Do escorrer da vida, escoa embora a liberdade

Fez dança, luta, defesa, fez a arte
E a filosofia de pensar seus membros
Os movimentos, os animais, e a natureza
Traz pra nós a harmonia e a defesa
Na minha terra que a cultura origina
A mãe, a filha e toda a Bahia 
Pra bailar o combate que nos deram pra vida.


                                       

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Germinada

Às vezes cacto, 
às vezes rosa.
É de germinar,
é de espinhos,
de pétalas dias sim
dias não.


E quando floresce
É cultivo que resplandece.



Eu te olhei
Te vi falar
Vi a mim mesma
Me vi chorar
Eu te olhei
Passei a lembrar
Me vi levantar
Eu te olhei
Me vi a sonhar
Me vi acreditar
Eu te olhei
Me vi realizar
Eu te olhei e vi de novo
Vi como se faz
Pra acreditar
Eu te olhei
Me vi a batalhar
Te olhei e vi
Como nossa essência
É amar.
Eu te olhei
E recordei de onde vem
A segurança de ser
E de estar
Eu te olhei
Me vi continuar
Eu te olhei
Me vi a espalhar
Toda certeza
Que é da natureza
Ser conforto te abraçar
Eu te olhei
Pude te ouvir
Eu te aprendi
Eu me reconstruí
Você eterno, inteiro
Pleno, a se colocar
Fez à nosso mundo
Um convite pra ficar
E te vi a dizer
Quem é você.
Eu chorei, eu sorri
Eu te olhei
E em você
Eu me vi.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

PRETA E MÃE NA UNIVERSIDADE

“Eu sou mais velha, não tenho a mesma idade que vocês. É difícil estudar aqui. Já passou muito tempo desde o ensino médio... Aí vc chega na faculdade e bomba em você. Eu não consegui estudar antes. Aconteceram muitas coisas. Aí só deu agora. Eu tenho três filhos. Muita luta sempre, correria pra criar os três. Aí já sabe né... Mas eles cresceram, e consegui vir pra faculdade agora. Mas não não... eu preferia quando eram crianças, dava pra cuidar de tudo, criar adolescente é difícil. Não está mais em suas mãos. Enfim... Eu não sou o padrão pra estar aqui. Eu queria poder fazer como vocês, pesquisar, passar mais tempo estudando, mais tempo na faculdade. Aqui minhas notas são medianas. Eu sou mediana. Eu sei que isso não importa tanto de fato, lá fora você, mesmo que tenha tirado só 10 aqui, não quer dizer que vai se virar bem. Eu trabalhei em uma empresa que fazia pesquisas. Um dia no serviço apareceu um problema, ninguém sabia resolver... Eu me meti lá e no fim vi que era só mudar a temperatura de um equipamento. Pronto. Cê vê que coisa besta... Eu sempre tive curiosidade, vontade de pesquisar e entender. É isso que é diferente, é a experiência. Mas enfim, de novo (risos), eu não sou como um estudante padrão daqui. Mas eu tô aqui.”
Relato de estudante da UNIFESP. Porque o padrão é o privilégio do conforto. Nós todxs devíamos poder estudar de um jeito saudável, poder não se preocupar com a luta que é existir como mulher, como mãe, como periféricx, como pretx, como lgbt. Devíamos ter direito de escolher o que fazer nas nossas vidas sem que, para isso acontecer, tivéssemos que deixar algo de lado. Na maioria das vezes pra isso já não temos nem ao menos a opção. Por mais mulheres negras e por mais mulheres mães que queiram estar na universidade ocupando seu espaço dentro dela. “Mas eu tô aqui”, e isso é RESISTÊNCIA. Que seja mais que resistir, que seja o direito de existir. Pela Consciência Negra, pelas mulheres negras, e pela educação. O povo preto tá aqui, e quanto mais a gente se apropia do nosso espaço, menos conformação. Não aos avanços neoliberais e racistas que querem nos tirar a educação. Os ataques são aos direitos do POVO, a quem já conheceu algum e a quem só conhece a negação. União contra todo racismo, machismo, e qualquer corrente de pensamento que marginalize um grupo da população, antes da prioridade ao lucro tem que existir respeito, empatia e união.