terça-feira, 20 de setembro de 2016

Humanizar

Porque somos ainda esse conjunto machucado de mesmices doentes, das doenças que criamos pra fazer questão de tentar sem admitir, uma ressignificação da nossa não vida, da nossa não apropriação, das nossas não escolhas. E se tentar justificar o porque de não fazermos ao invés de fazer, e o porque de calarmos ao invés de falar, e o porque de recuarmos ao invés de avançar, for predominar nossos passos, nossos pensamentos sempre, que desistamos desse mundo e que façamos um outro, onde a possibilidade de vida seja maior em vontade, do que a a acumulação de amarguras diante do espelho à lamentar o quanto escolhemos abdicar sem querer. E se existir de um jeito que façam os anos passarem só pra mostrar o quanto nos deixamos pra trás for o único modelo, que o destruamos enquanto ainda há alguma vida. Porque se adoentar com o que nós mesmos criamos, e fazer questão de estar submetidxs as mesmas dores do mundo que erguemos em torno de nós, não chega a ser nem mesmo subexistir. Que não carreguemos mais as negatividades que nós mesmos cultivamos ao recuar na nossa história com a mudança do protagonismo que pode ser nosso, com o papel de ditar como as coisas funcionam, e com potencial de ir muito além do que ponderar sobre aquilo que não está ao nosso alcance, ou sobre os sofrimentos que não dependem de nós e que não poderiam ser evitados só pelas nossas ações. Que o sentimento de impotência não seja maior que o de amor. Que sejamos mais!
Porque enquanto forem esses motivos, os que geram as maiores dores que todos nós podemos provar,
de uma forma ao mesmo tempo que exclusiva, também semelhante e capaz de gerar mais empatia, de pessoas sabendo bem o que outras pessoas estão falando, enquanto forem esses motivos aparentemente maiores que os bens que nos proporcionamos, a peregrinação continua, ilusória, com a ideia de que felicidade se transforma todo dia em algo novo e que nunca poderemos nos contentar. Ela fica distante de nós enquanto alimentamos a ideia de que é mais fácil pensá-la como uma busca incansável e constante, do que enfrentar o medo que parecemos ter em não saber o que fazer depois de achá-la. Como se ao alcançarmos um bem muito maior não pudéssemos viver algo bom demais, porque o sentido de quem se acostuma tanto em sempre buscar se perde quando enfim o encontro acontece. É marca que temos em viver desse jeito desigual, sofrido. Deve haver um universo desconhecido e pouco habitado de seres bem preenchidos que não temem se esclarecer por parecer que encarar os dias, as cores, os cheiros, os sons, que cada coisa tem de fato, em suas realidades, suas verdades, só podem trazer mais dor. Deve haver sim, em algum ponto no tempo, mas ainda não chegamos lá. Das mil e uma conclusões que podem existir e se apresentar diante de nós, se perpetua a ideia de que ir mais a fundo nas questões, relações, interações que criamos, só pode piorar os fatos. Mas não é tão intensamente assustador se acalentar com uma forma de poder fazer de conta que estamos vivendo bem? Dos mil e um relatos que todxs nós temos, de todos os problemas sociais com toda sua complexidade ainda pouco compreendida, conseguir explicar um sofrimento, conseguir reconhecê-lo, deixa-nos sem saída, imersos em um abismo de justificativas e de mais que rejeição social, mais que exclusão, um auto abandono. Individualmente esse processo não tem tempo definido. Mas socialmente, até quando ele não poderá ter uma proposta diferente do que um aglomerado de vidas que nascem e que morrem todos os dias, sem viver acorrentadas pelas próprias angústias? Escrevemos nossas próprias sentenças, damos a nós nossas penas, mesmo não querendo isso, mas assim fazemos e optamos por nem pensar no porque. É um auto abandono pouco racionalizado. Essa passividade com a vida permite que se desenrolem cenários absurdos desde as nossas particularidades até a conjuntura do nosso país. E não queremos nos aproximar da ideia de responsabilidade por muitas das nossas frustrações. Quando se tem condições de observar o próprio sofrimento, de conseguir pensar sobre ele, e mais, quando se tem condições de escolher sair dele, a acomodação ainda existe como alternativa. Essa doença é o conformismo da imobilidade. Nenhum sofrimento pode ser diminuído, mas é preciso aumentar o que combate à sua ocorrência sem desconsiderar a parcela da contribuição que temos sobre o nosso próprio. Não o da sociedade inteira, mas dos nossos. Se podemos pensar a vida como nossos movimentos, abrir mão de acreditar em si é não viver. Porque acreditar em si gera as causas para o movimento próprio. É mais fácil continuar se cobrando, do que afirmar o que já existe de bem em nós mesmos. E parece ser mais fácil se agarrar ao que te mantém ocupado, mesmo quando essa ocupação não faz bem, como se se libertar fosse uma alternativa de risco. É melhor se deteriorar em algo no qual nos desgastamos, porque não sabemos o que sobra de nós se não forem os nossos problemas e as responsabilidades que assumimos arbitrariamente ou não. Se segurar em uma infelicidade ainda é segurança, e parece não haver preços para tentar garantir a sensação de estar caminhando para algum lugar, mesmo sem ter perspectivas positivas. Isso é contraditório demais. Ainda coleciono relatos de mergulhos adoecidos, além dos meus, os das pessoas presas aos seus males. Mas já não sinto essa rede com o mesmo poder que antes sobre mim. E ainda tenho o que falar. Como poderia eu deixar de acreditar nas pessoas, se tenho fé em mim? Sei que podemos ser bem melhor. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário