sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Dama Nômade


E se de repente
Não fosse eu mais vista como sou
Porque sou quem eu quiser
Do jeito que for, na pele, na cor
E muito mais que a minha têz.
E se eu de repente
Sentisse de mim metade
Daquilo que sei que sou
E daquilo que de mim vierem a dizer
Por causa do que fiz, e faço
Do crespo, do liso, da trança, do cacho.
Não me abrevie não!
Se a mim restasse
A armadilha cruel dada a meu povo
De ter sido tão acorrentado
Que em mim não se reconheça
Apareça!
Venha, porque nós sabemos
Quanto do mesmo
De tudo que é nosso na história
Carrego comigo por ser quem sou.
Venha!
E veja bem de perto
Que escolher sobre meu corpo
Não é nem errado nem certo
É antes de tudo, não negar a mulher
A afirmação de que tem direito
De nascer do jeito que vier
De crescer da forma que quiser
De ser a expressão da consciência que for.
E se minha pele for mais clara
Não sou menos eu por isso
E se meu cabelo for feito mais liso,
Ou se ele for mais de fazer cacho,
Não sou menos eu por isso
Lembra que o povo é um.
A história é que é diferente.
Se nos prendem em correntes
Achando que não podemos revidar
Eis o selamento que nos fortalece
Porque de mãos dadas sabemos ficar.
Existirmos afirma o que acontece,
Pra gente, que vive, que sabe
Que sente!
Mas a nossa dor vem da ideia
Que brota na cabeça de quem
Ao longo do tempo a construiu
Não deixa a causa do sofrimento
Apagar também o que nos uniu.
Minha humanidade não será negada
Só não pode perceber
Quem humano se esqueceu de ser
Pela memória de todos nós roubada.
Mas ainda posso me unir
Por saber quem eu sou.
E por onde eu for, quando me olharem
Com a pele ou cabelo que eu tiver
Se me virem no meio dos meus
Ou no meio dos que ainda
Não sabem de onde são
Vão chamar a mim da mesma forma
Que pra nós sempre se designou
- “Negra!”
E eu hei de dizer:
- "Atendo sim por Negra,
Porque Negra eu sou."


Obra "Negralá", de Wadson Silva Art


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