domingo, 21 de agosto de 2016

Vem pra favela

Tem gente nova no barraco, só procurando
Um espaço de terra pra chamar de seu
Tem criança correndo, rodando, pulando
Atrás do muro da mãe se escondeu

Tem carro parando na esquina
Tem viela, travessa e escadão
Tem sino tocando, padre de batina
Tem terreiro, batucada, e gosto pra toda religião

Tem gente que descobre a educação fugindo da escola
Tem um moço aprendendo com um idoso
Colecionando livros que ganham da esmola
Junto dos seus sonhos e do saber popular e supersticioso

Tem juventude morrendo todo dia
Tem biqueira na ativa, os corres de hoje tão certo então
Tem a rota, a ronda, a PM genocida
Não tem lei nem justiça, mas tem as próprias mãos

Tem mãe solteira levantando às 4hs da madrugada
Tem mulher correndo, fugindo, tropeçou, caiu
Tem estupro no beco escuro, dignidade assaltada
Tem violação do corpo, da alma, e o grito que ninguém ouviu

Tem esgoto passando a céu aberto
Tem córrego circulando doença e sendo lazer de criança
Tem lixo queimando, tem acúmulo incerto
Tem gente crescendo no lodo, e onde tá a doce infância?

Tem moço atropelado, a batida de dois carros
Tem gente estendida no chão, passa perto pra ver se quiser
Tem moça sendo agredida pelo marido, o rosto em cacos
Até o jeito de morrer diz onde tá o homem e onde tá a mulher

Tem sentimento, tem manifestação cultural
Tem pagode, sambão, rock, black, funk, gente dançando
Tem churrasco na laje domingo, e a música é ritual
Tem baile sexta, o fluxo fechando a rua, é o povo ocupando

Tem a quebrada de baixo num ritmo, uma pegada
Tem o esquema e os corres que vem da união
Tem o alto do morro com outra ordem mandada
Pergunta, vai vendo: qual é a tua facção?

Tem muita juventude empoderada, 
Tem poesia, dança, teatro, e convite pra mais um sarau
Tem a semente da gente que é constantemente transformada
Tem iniciativa, tem arte, mas cadê o centro cultural?

Tem gente jogando bola na rua
Tem gente na fila duas horas esperando o busão
Tem gente na janela a  noite, só pra ver a lua
Tem gente que não sabe o que faz com o que tem no coração

Tem uma carência de perspectiva generalizada
Tem quem tente resolver depositando a fé na mandinga
Depois de um dia de trabalho, ônibus lotado, o trampo de casa
Tem encontro no bar, e a falta de oportunidade se liquefaz em pinga

Tem busca por acesso a lazer, mobilidade, informação 
Tem o rolê da galera, mulher dançando sofrendo assédio
Tem forró do buteco, aposta, sinuca, lojão do 10,00 pra distração
Tem gente procurando a cura da rotina, tomando remédio

Tem valores na compra, mercadinho do bairro, consumação
Tem a padaria na rua de cima, a farmácia, loja da moda
Tem as mais procuradas marcas e o alto falante anunciando liquidação
Tem a TV ligada que diz: quem não adquire tá por fora

Tem falta d'água, saneamento, o corpo não aguenta
Falta saúde, assistência, lota a fila da UBS, passa-se mais um dia
Volta pra casa sem a cura, reclamação aumenta, essa é a morte lenta
Tem muita queixa pra fazer, misturada com o cansaço que nos calaria

Tem gueto, povo preto, construção e puxadinho desenfreados
Tem a classe trabalhadora reunida, de todo gênero e idade
Tem luta, resistência, afirmação de identidade e de espaço
Tem diálogo, e a maior vivência pro estudo da ancestralidade

Tem moeda faltando pro pão e pra condução
Tem caixa eletrônico, fila na lotérica, jogo do bicho
Tem uma esperança partilhada em propagação
De que o ingresso pra felicidade e pro sucesso é ser rico

Tem recepção de sonhos, segredados entre os amantes
Tem família antiga e nova, moradora que nem sempre quis
Tem sobrevivência, um ato de afronta ao capital e avante!
Tem o povo que existe com a ideia de que pode um dia ser feliz.

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