Moça, eu te desvendo aos poucos. Olha demais, me guarda. Fala de menos, mas só comigo. Ri loucamente. Eu percebo a sua desvontade, sua não disposição para mais do mesmo, de tantos velhos relacionamentos, um tanto cansativos, outro tanto... Deixa isso pra lá. Nisso muito nos reconhecemos. Muito me identifico. E ao mesmo tempo tem um sinal de busca que eu vejo mas não quero responder. Como se ainda porventura achasse que de repente lhe pareceria encontrar o que sempre procurou. Parece que assim nascem dois desafios: pra você o de me ler, e vice versa.
Mas agora já nem é mais procura. As necessidades mudam. Não permanecemos imutáveis e nossas formas de ler a mesma cena mudam. A gente não esqueceu ainda como é bom provar as vidas, nem como é que se faz pra descobrir as capacidades que se ampliam quando as pessoas estão juntas. Na verdade, nós bem sabemos isso. Será falta ou excesso de conhecimento que faz com que hoje já não queiramos as mesmas coisas? Se já nos bastássemos nas companhias que fazemos pra nós mesmas, não seríamos mais humanas. Ser inteiras. Somos. Nos libertamos pra nos preencher e a composição além vem de fora de todas as interações que vivemos. Moça inteira é capaz de construir para além de si.
Eu sinto a tua e a minha suspeita na ideia de construir juntas quando nos olhamos. E ao mesmo tempo a convicção de que queremos estar exatamente onde já estamos. Que nós fiquemos ainda mais felizes. Traz teu livro favorito e me mostra, só me deixa te ouvir falar pra eu te perceber melhor. E já estamos ganhando por escolher ter umas horas de boa conversa e uns dias de boa lembrança. Será que fazer de conta por muito tempo que algo de novo aconteceu ainda funciona pra nos fazer achar que estamos sentindo a emoção que queríamos? Às vezes a gente se engana pra não ter que encarar o fato de que estávamos nos enganando. Deixar estar, deixa a sensação passar... Depois de muitos momentos a sós é que entendemos o estado de emocionar quando estamos em companhia. Traz teu livro Moça, que é emocionante poder te ler enquanto lê pra mim.
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