Esse é o primeiro texto que faço pra falar de um amor em que o conteúdo todo de inspiração não é uma mistura de fatos com devaneios soltos, expectativas, ilusões, ou qualquer outra coisa que cabe apenas ao campo das ideias e que são muito particulares ao olhar de quem imagina. Não há o que não seja muito real. Essa é a primeira vez na vida que eu escrevo por amor, para um amor que eu conheço a fundo. Eu não tenho que me desprender da realidade, nem lembrar que me permito inventar, esquecer, transformar qualquer coisa, qualquer verdade, qualquer mentira, para criar um conjunto de sentenças que registram a força de uma expressão escrita, para a mágica que existe na sensibilidade de escrever. Porque essa é a primeira vez que toda elaboração para passar uma mensagem não precisa de muita figuração: esse é o amor mais literal. Há algum tempo eu descobri que a vida parece exercer séries de reações em cadeia, e que as pessoas que nos compõem, de um jeito ou de outro, no momento que devem estar conosco, estão. E eu conheci a Adélia em 2014. Nosso primeiro contato foi uma conversa que durou uma caminhada de uns... uns quinze minutos talvez. E esse contato bastou. Falamos de qualquer coisa, de signos, de sexualidade, de ser mulher nessa sociedade, de besteiras aleatórias, de relacionamentos. E falamos de empatia, mesmo que essa palavra não tenha aparecido. No ano seguinte eu acordei no dia do meu aniversário na casa dela, tínhamos obrigações nos eventos da faculdade e dormir lá deixava as coisas mais práticas. Nessa altura já tinha ela no meu coração, com convicção. Antes de dormirmos falamos uma para a outra que nos amávamos. Senti com certeza a verdade que há nisso e o potencial da nossa amizade. Quem falou foi ela, porque é isso que ela faz desde sempre, espalha amor. E então, em 3 de janeiro desse ano estava indo morar com ela, e com mais amigxs. Nossas rotinas e dinâmicas de estudantes universitárias e mais outros motivos principais da minha vida modelaram isso. Nossos seis meses de convivência, quase exatos (nossa república acabava em 4 de julho) mudaram em mim a noção de convicção que eu a amo, a noção de certeza. Na verdade eu sinto que jamais terei uma visão assim, porque saber com certeza disso torna estático o meu sentir. E esse sentir não é estagnado. Todos os dias da vida eu sabia que era como uma nova flor brotando, e eu chego ao fim do dia sendo uma pessoa maior, que viveu mais, e que sentia que amava uma companheira de novo. Dormia. E quando acordava eu não tinha certeza de nada, nem de mim mesma, tinha que lembrar meu nome, lembrar como se faz pra mover o corpo, como se luta contra a vontade de continuar dormindo. E aí ela me acordava, rsrs. Ela até desenvolveu técnicas de como garantir que eu acordasse, despertasse de fato. E começávamos de novo o amor naquele dia. Eu aprendi a construir nossa amizade todos os dias novamente. Quando as pessoas acham o nome dela parecido com o de uma flor, e ela responde "É... tem a Camélia né", eu sorrio comigo porque Adélia pra mim já é nome de flor faz tempo, de uma espécie que emana tantas razões para acreditar, tantos motivos para fazer o que se quer. Junto da nossa convivência vieram tantas horas de conhecimento, de trocas, de epifanias conjuntas, de madrugadas em que se escolhia trocar o sono por uma boa prosa. A partilha e o companheirismo cotidiano, as resoluções das coisas. As descobertas dos motivos que se somam pra explicar até porque existimos, para o que, e porque uma na vida da outra. Nós somos amigas e somos nossos corações abertos a ouvir, e somos nossas palavras pra dizer também.
![]() |
| "Novo velho amor" |
E a verdade sobre nossas reflexões é que a maior parte dos males que se arranca pela raiz, daquilo que é praticamente intrínseco a um valor ou tradição embutida em nós, da nossa formação e educação, nós pudemos transformar. Anuncio sem temor que foi uma mulher branca que me permitiu ser a preta que eu sou nesse mundo. E mais: de tudo em que hoje posso ter minhas referências, toda a identidade e o espaço de reconhecimento que se ampliou pra mim como negra, percebi não só no meu corpo, na minha tez, nos meus traços, mas no que tinha de diferente socialmente com uma mulher branca, que pela primeira vez fez dessa diferença o caminho pra nossa união e não o contrário. Independente de qualquer reflexão nossa, eu sou preta e ela é branca para a sociedade. É assim que nascemos. Mas com certeza, depois de nós sermos nós uma pra outra, eu ser preta e ela branca é algo que tem outros significados, muito além e muito maiores que a mera e restrita condição miseravelmente resumida e imposta por uma sociedade racista. Nascemos assim. Mas certamente já não somos só isso. E daqui em diante, vivemos pra ser mais.
Está em nossos rostos, quando nos olhamos, o que precisamos. As ideias, as atitudes, as escolhas. Uma avaliação rápida sobre a melhor escolha, onde devemos estar, o que precisamos evitar. A gente até sabe o que nos faria mal, e por amor logo uma trata de proporcionar o melhor pra outra. A gente tem cuidado. Carinho. Compreensão. E é assim que é amar, simples e forte. Isso se reflete em mim pra escrever de um jeito bem literal, e ainda que o amor que eu vivo me inspire e se espalhe pelas poesias, transborde nas prosas que invento, se "apalavrie" (sim, inventei) nos versos que fiz, faço e ainda farei sobre como o amor é maior que o indivíduo, aqui não há figura de linguagem nem outro recurso muito necessário, se não a própria realidade que há em dizer que eu literalmente posso falar o que é amor dizendo "Adélia".


Nenhum comentário:
Postar um comentário