Eu me lembro bem de como já estava escuro, da minha pele
arrepiada e da felicidade que mal podia conter em mim. Tinha uma brisa muito
leve, dessas das noites de verão. Só fazia balançar de leve o cabelo que antes
caía na testa. Foram poucos passos até eu me despedir, e pensar que estava
dando mil passos na direção contrária a que eu tinha me dedicado nos últimos
meses, mil passos de distância entre estar ali caminhando naquele espaço e o pôr-do-sol do dia anterior. Uma vida inteira de
distância entre a vida que trilhava e a que fizera então questão de conhecer. “Eu
estou feliz agora”. E no fim daquele pequeno caminho eu sabia que tinha certeza
de que não queria ter certeza de que eu quereria você. Mas já tinha certeza, não
havia mais contra o quê me colocar. E então, eu quis. Inevitavelmente, sem
querer mesmo evitar. Quis. E enquanto eu me recompunha e acertava minha rota,
encontrava meu eixo, eu deixei de acreditar mais uma vez. Porque meu querer é
sutil. É um querer que se basta, se sustenta e não se aflige mais. Aos poucos
giro em torno da minha sina e vejo que não há saída a não ser, ser feliz. Não
adianta, não há coisa que mais me mova que o impulso de querer estar bem comigo
e com quem me é um bem também. E são nesses instantes que sei, nesses instantes
mais que inconstantes… Nesses instantes singelos e breves, que eu sei que prevalece
aqui de alguma forma minha alegria e satisfação em ter você, e provar um pouco
da sua graça. E a certeza que em algum momento não quis reconhecer, me deixa
hoje livre pra andar só, com a ideia clara de que continuo a te querer, sem
querer te manter de qualquer forma, como um troféu, como um ideal, como um
apego, como uma perspectiva que pode se frustrar no tempo. Eu só sei te querer
enquanto for um recanto bom, e um recanto é o lugar onde quero me aconchegar,
sem pressa e sem prece. Te reconhecer crescendo em mim me fez tão bem, que não
tive receio de não saber lidar com isso. Enquanto caminhava aquela noite eu
sabia que tinha algo de muito bom em alto potencial pra sentir, e que escolher
não viver era uma alternativa, ainda que distante, existente. Agora nem existe
mais. Tudo que for bom, que venha. Não preciso me preocupar em continuar te querendo, tampouco em não
continuar. Não faz mais diferença a forma com que vou te querer, nem se vou. Eu
já te amo com o máximo de mim que pode te amar. E depois que voltei, no escuro,
com a brisa, a pele arrepiada, sabia que teria um turbilhão de sensações até
que pudesse vomitar qualquer coisa que durasse alguns poucos dias na minha cabeça.
Foi o que aconteceu. Quando me livrei da prisão de guardar os pensamentos só
pra mim, me libertei também de qualquer possível peso sob o qual eu porventura
pudesse vir a me submeter, só por te querer. É por isso que te falo o que
penso. O nosso inferno nós é que criamos, mas hoje eu sou meu paraíso. Sentei
numa cadeira velha com uma xícara de chá, e enquanto ia bebericando aos poucos
o líquido fumegante, e com a mão esquerda eu fazia e desfazia alguns cachos, me
dei conta do quão prazeroso é reconhecer meu próprio querer sem querer mais
nada. Foi assim que eu descobri que te amo. Porque eu te quero, mas não preciso
de você comigo de um jeito ou de outro. Minha gratidão pelo que passou e pelas
vivências que partilhamos é tão cheia, tão forte. Só não digo que é o melhor
que tenho de nós porque existe o seu riso cru, espontâneo, puro: isso deve ser o
melhor! O chá tinha acabado. Levantei pra fazer mais, sem querer interromper
meus devaneios. Deve ser assim descobrir a beleza que é estar bem mesmo diante
de todas as dificuldades comuns da vida: é chegar no fim da xícara sabendo o gosto
que se quer e ir atrás de enchê-la de novo sem hesitar. Quando voltei pra minha
cadeira velha eu já tinha mais afeto e menos necessidade. E de
repente meu querer já não era precisão, era só conhecimento do meu novo velho
amor.

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