quinta-feira, 17 de março de 2016

Sossego

Eu me lembro bem de como já estava escuro, da minha pele arrepiada e da felicidade que mal podia conter em mim. Tinha uma brisa muito leve, dessas das noites de verão. Só fazia balançar de leve o cabelo que antes caía na testa. Foram poucos passos até eu me despedir, e pensar que estava dando mil passos na direção contrária a que eu tinha me dedicado nos últimos meses, mil passos de distância entre estar ali caminhando naquele espaço e o pôr-do-sol do dia anterior. Uma vida inteira de distância entre a vida que trilhava e a que fizera então questão de conhecer. “Eu estou feliz agora”. E no fim daquele pequeno caminho eu sabia que tinha certeza de que não queria ter certeza de que eu quereria você. Mas já tinha certeza, não havia mais contra o quê me colocar. E então, eu quis. Inevitavelmente, sem querer mesmo evitar. Quis. E enquanto eu me recompunha e acertava minha rota, encontrava meu eixo, eu deixei de acreditar mais uma vez. Porque meu querer é sutil. É um querer que se basta, se sustenta e não se aflige mais. Aos poucos giro em torno da minha sina e vejo que não há saída a não ser, ser feliz. Não adianta, não há coisa que mais me mova que o impulso de querer estar bem comigo e com quem me é um bem também. E são nesses instantes que sei, nesses instantes mais que inconstantes… Nesses instantes singelos e breves, que eu sei que prevalece aqui de alguma forma minha alegria e satisfação em ter você, e provar um pouco da sua graça. E a certeza que em algum momento não quis reconhecer, me deixa hoje livre pra andar só, com a ideia clara de que continuo a te querer, sem querer te manter de qualquer forma, como um troféu, como um ideal, como um apego, como uma perspectiva que pode se frustrar no tempo. Eu só sei te querer enquanto for um recanto bom, e um recanto é o lugar onde quero me aconchegar, sem pressa e sem prece. Te reconhecer crescendo em mim me fez tão bem, que não tive receio de não saber lidar com isso. Enquanto caminhava aquela noite eu sabia que tinha algo de muito bom em alto potencial pra sentir, e que escolher não viver era uma alternativa, ainda que distante, existente. Agora nem existe mais. Tudo que for bom, que venha. Não preciso me preocupar em continuar te querendo, tampouco em não continuar. Não faz mais diferença a forma com que vou te querer, nem se vou. Eu já te amo com o máximo de mim que pode te amar. E depois que voltei, no escuro, com a brisa, a pele arrepiada, sabia que teria um turbilhão de sensações até que pudesse vomitar qualquer coisa que durasse alguns poucos dias na minha cabeça. Foi o que aconteceu. Quando me livrei da prisão de guardar os pensamentos só pra mim, me libertei também de qualquer possível peso sob o qual eu porventura pudesse vir a me submeter, só por te querer. É por isso que te falo o que penso. O nosso inferno nós é que criamos, mas hoje eu sou meu paraíso. Sentei numa cadeira velha com uma xícara de chá, e enquanto ia bebericando aos poucos o líquido fumegante, e com a mão esquerda eu fazia e desfazia alguns cachos, me dei conta do quão prazeroso é reconhecer meu próprio querer sem querer mais nada. Foi assim que eu descobri que te amo. Porque eu te quero, mas não preciso de você comigo de um jeito ou de outro. Minha gratidão pelo que passou e pelas vivências que partilhamos é tão cheia, tão forte. Só não digo que é o melhor que tenho de nós porque existe o seu riso cru, espontâneo, puro: isso deve ser o melhor! O chá tinha acabado. Levantei pra fazer mais, sem querer interromper meus devaneios. Deve ser assim descobrir a beleza que é estar bem mesmo diante de todas as dificuldades comuns da vida: é chegar no fim da xícara sabendo o gosto que se quer e ir atrás de enchê-la de novo sem hesitar. Quando voltei pra minha cadeira velha eu já tinha mais afeto e menos necessidade. E de repente meu querer já não era precisão, era só conhecimento do meu novo velho amor.  



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