Depois que a vida veio
A me dilacerar inteira
Estive eu em mudança
E da velha estrutura só
Resta-me um olhar à beira
Da margem do abismo
Que mergulha em quem
Não sou de longe, a primeira
Fui mesma já a me afastar
Construindo nova leira
De um lar de alicerce
Em amor, comida e besteira
Fui eu então amiga, renascida
Do recomeço d'um cavalo-marinho
Eu fui feliz e companheira
Já sabia da solidão e da paz
E da mudança primeira
Discorreu-me ainda a segunda
Em que me testei em adaptar
E em seleção natural, fui trepadeira
E das novas companhias
Plantei no coração o bem da aroeira
E quando em recanto novo
Me coloquei em busca pra me encontrar
A dor física me veio, traiçoeira
E o espaço de minha apropriação
Não me engana em alegre rasteira
Foi difícil construir com moeda, a suar
E não estive sozinha, tive amigos
Donde se seguiu a mudança terceira
Foram terra batida, firmeza
Meu chão fixado de abraçadeira
E os sentimentos de então
Já eram mais fortes e puros
Que o olhar da cardieira
E nesse ciclo de verão à verão
Do aprendizado, que é madeira
Me pus logo a esculpir com esforço
Pra em mais doze meses à estudar
Do conhecimento abrir a tronqueira
E o coração que ao começar
Esse ano, era livre grão de areia
Me guardava a esse findar
Pra me fazer sempre continuar
O segredo que sabe o canto da sereia.
A Poesia Dama Nômade
sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
Tredice de um homem
Era uma vez um homem que dizia que toda mulher que fez um aborto é uma vadia, piranha, vagabunda, criminosa. "Fecha essas pernas" ele dizia, toda vez que via uma reportagem falando sobre aborto, alguém defendendo a ideia, qualquer início do tema no assunto. Esse homem era incansável na sua argumentação. "Feche as pernas!". Se a mulher não quisesse não engravidaria. Coisa de gente irresponsável. Acha que pode brincar com a vida. Faz, sente gosto enquanto faz, e depois quer desfazer. Acha fácil, simples... É só ir lá e destruir um ser que deveria vir ao mundo. Depois se morrem viram coitadinhas.
Todos os dias, depois das atividades do trabalho, da rotina que o cansava, de todo esforço, todo suor que dava para o sustento da família, porque ele... ele era um bom homem, cuidava da família. Todos os dias ele chegava em casa, ia tomar seu banho, o corpo cansado e com fome. A esposa o esperava. Deixava a casa limpa, cuidava das crianças, e esperava-o chegar para jantarem todos juntos. Ela servia a comida de todos. Colocava o prato dele. Ele comia. Comia não... devorava, com a fome que tinha. Dava pouca atenção para as crianças, estava sempre muito cansado. Quando iam todos se deitar, dormir pra começar tudo de novo no outro dia, a luta diária... Ele se deitava, ficava esperando enquanto a mulher colocava cada filho em sua cama, dava-lhes um beijo e desejava bons sonhos a cada um. Então ela caminhava para seu quarto, devagar. Ia medindo os passos, contando... devagar. Chegava no quarto, apagava a luz, ia se deitar. E o homem tirava a bermuda que usava como pijama, ereto que ficava, encostava nela pra que sentisse. Ela já sabia que seria assim. Não queria fazer nada. Falava pra ele que não estava com vontade... Ele ignorava e seguia avançando em contato com o corpo dela, tirando sua camisola. Ela tentava dizer que estava cansada. Ele questionava, surpreso, "Cansada de quê? Ficou o dia todo em casa..." E subia nela, fazia força sobre suas pernas. Ela as fechava. Não queria deixá-lo penetrá-la, não queria aquele corpo no dela daquele jeito, não era sua vontade. Ele fazia força, empurrava uma das pernas dela pro lado. Ela fechava de novo, tentava sair de baixo dele... Fazia força... Não conseguia. E ele, com seu peso, sua força, sua noção de dono daquele corpo, falava pra ela "Você é minha mulher, se não vai fazer isso por mim quer que eu faça fora de casa, quer que busque isso com outra?" Ela segurava as lágrimas, ficava imóvel, quase petrificada. Nada dizia, nem ao menos conseguiria. E assim, ele a penetrava. Fazia seus movimentos iguais e repetitivos até que chegasse ao seu orgasmo, quando então parava. Saía de cima dela suado, o corpo mole de satisfeito. Virava pro lado sem dizer palavra. Mexia pra lá e pra cá, se acomodava. Pegava no sono. Roncava alto, de barriga pra cima. Às 5hs00 o despertador tocava. Ele acordava de súbito, pulava da cama. Se arrumava, vestia a roupa que a esposa havia passado no dia anterior. Mordia ou bebia alguma coisa, e saía pra trabalhar de novo. A vida seguia assim, e durante os dias, quando alguém falava perto dele sobre aborto ele dizia, "Essas mulheres vadias, piranhas, vagabundas... Fechem as pernas".
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
Perspirada
e se já bastasse de mim mesma
o torpor do trabalho incansável
do movimento repetitivo em busca
da criação de nova ideia antagônica
que me possa então desvendar
a transliterar os sentidos em fala
Respira
e se já houvesse a cerimônia
a que preparo o coração num deleite
de se antes, emocionasse a mim
saber que o amor resiste ao tempo,
é de encher-me o peito dizer a beleza
e apreciar que o amor resiste a sociedade
Conspira
e se não há caminho a que me apegar
e não pudera saber quando hei de suceder
ou quando hei de me encher do desejo
é de se considerar que a amar estou sempre
e que de mim se faz o começo da ausência
de disposição pra de paixão eu me cansar
Inspira
e se recolher a mim mesma mulher
num recanto de paz que construo
e me redescobrir singela, de toda força
o vetor que me aponta, e é certeza
acolhi e carreguei durante esse tempo
que já não posso abdicar desse corpo
Expira
e se transbordo hoje a força e amor
que ao mesmo tempo em que me desfaleço
estou já a me entregar em profundo mergulho
não me sobra nem um tanto de conformidade
comigo sendo quieta e parada, impossível
estou antes disso a me alastrar repleta
Suspira
e se o laço no qual sem cautela me enlaço
das revelações a que me concedi em consentir
enquanto estive eu assim, no Pantanal
em viagem me apontasse a direção do meu lugar
encadeassem a mim toda verdade do meu existir
não consigo, iludida, me romantizar
Transpira
e se perdida me encontrava de repente
e antes funcionasse com tamanha volúpia
a gerar impressões ligeiras de clichês enraizados
já não me serve nem a trova nem o ditado
e desde de que me atinei me dei por conta
de que por minha causa sempre estive manifestada
Perspira
e se me pego sempre em flagrante
das notórias manias da minha convivência
e tendo estado em cada passo tão entretida
é de se supor que mesmo antes de assim me conhecer,
da minha companhia eu então já estava certa
e sem culpa por quem não quis comigo trazer
Aspira
e a quem mais poderia dever epifanias
se sempre que distraidamente me dou
por inteira, a nova exploração do que passou
estou a chegar em conclusões sempre díspares
sobre as leituras de minhas próprias posturas
e do prazer do que mais posso esperar de mim.
o torpor do trabalho incansável
do movimento repetitivo em busca
da criação de nova ideia antagônica
que me possa então desvendar
a transliterar os sentidos em fala
Respira
e se já houvesse a cerimônia
a que preparo o coração num deleite
de se antes, emocionasse a mim
saber que o amor resiste ao tempo,
é de encher-me o peito dizer a beleza
e apreciar que o amor resiste a sociedade
Conspira
e se não há caminho a que me apegar
e não pudera saber quando hei de suceder
ou quando hei de me encher do desejo
é de se considerar que a amar estou sempre
e que de mim se faz o começo da ausência
de disposição pra de paixão eu me cansar
Inspira
e se recolher a mim mesma mulher
num recanto de paz que construo
e me redescobrir singela, de toda força
o vetor que me aponta, e é certeza
acolhi e carreguei durante esse tempo
que já não posso abdicar desse corpo
Expira
e se transbordo hoje a força e amor
que ao mesmo tempo em que me desfaleço
estou já a me entregar em profundo mergulho
não me sobra nem um tanto de conformidade
comigo sendo quieta e parada, impossível
estou antes disso a me alastrar repleta
Suspira
e se o laço no qual sem cautela me enlaço
das revelações a que me concedi em consentir
enquanto estive eu assim, no Pantanal
em viagem me apontasse a direção do meu lugar
encadeassem a mim toda verdade do meu existir
não consigo, iludida, me romantizar
Transpira
e se perdida me encontrava de repente
e antes funcionasse com tamanha volúpia
a gerar impressões ligeiras de clichês enraizados
já não me serve nem a trova nem o ditado
e desde de que me atinei me dei por conta
de que por minha causa sempre estive manifestada
Perspira
e se me pego sempre em flagrante
das notórias manias da minha convivência
e tendo estado em cada passo tão entretida
é de se supor que mesmo antes de assim me conhecer,
da minha companhia eu então já estava certa
e sem culpa por quem não quis comigo trazer
Aspira
e a quem mais poderia dever epifanias
se sempre que distraidamente me dou
por inteira, a nova exploração do que passou
estou a chegar em conclusões sempre díspares
sobre as leituras de minhas próprias posturas
e do prazer do que mais posso esperar de mim.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
Pipinha
Ela sabe mais que eu
Das coisas de mim mesma
Não fica fazendo análises filosóficas
Isso é mania minha
Mas quando fala é observadora certeira
Me faz encher os olhos
De ver como me conhece.
E que emoção é a de pensar
Em mostrar um carinho sincero,
De cruzar um olhar daqueles
Que só nós entendemos.
E que desafio não é
Segurar uma risada nossa
Pelos nossos motivos secretos
Quando deixamos nossa mensagem
Uma pra outra, no ar...
Ela é a irmã com quem vou comer fora
Num acordo prévio de dividir a bebida
E ninguém precisa falar nada.
É meu diário vivo, sempre bem-vinda.
É minha companhia absoluta
De qualquer hora, é minha certeza
De continuidade e admiração.
É minha confidente, e sabe de mim
As coisas mais cruas,
As hipocrisias e as verdades puras
Ela é motivo de eu transformar
A cada dia a minha ideia
Do significado de irmandade.
Ela é quem sabe e que sente
Com esse jeito majestoso,
De si mesma ser a rainha
E com tempo aprendeu
Tudo que eu quero dizer a ela
Quando a chamo de Pipinha.
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
Ginga
E que protege o corpo com o corpo
Que movimenta a alma e resiste
Que a aquilombar-se insiste
Mais uma noite esconde no escuro
O canto e o som d'um berimbau
Perdeu-se dentro da extensão do canavial
Do trabalho árduo, do suor doído
E abrigou em segredo a tua força em exercício
Do escorrer da vida, escoa embora a liberdade
Fez dança, luta, defesa, fez a arte
E a filosofia de pensar seus membros
Os movimentos, os animais, e a natureza
Traz pra nós a harmonia e a defesa
Na minha terra que a cultura origina
A mãe, a filha e toda a Bahia
Pra bailar o combate que nos deram pra vida.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016
Germinada
Às vezes cacto,
às vezes rosa.
É de germinar,
é de espinhos,
de pétalas dias sim
dias não.
E quando floresce
É cultivo que resplandece.
É cultivo que resplandece.
Zé
Eu te olhei
Te vi falar
Vi a mim mesma
Me vi chorar
Eu te olhei
Passei a lembrar
Me vi levantar
Eu te olhei
Me vi a sonhar
Me vi acreditar
Eu te olhei
Me vi realizar
Eu te olhei e vi de novo
Vi como se faz
Pra acreditar
Eu te olhei
Me vi a batalhar
Te olhei e vi
Como nossa essência
É amar.
Eu te olhei
E recordei de onde vem
A segurança de ser
E de estar
Eu te olhei
Me vi continuar
Eu te olhei
Me vi a espalhar
Toda certeza
Que é da natureza
Ser conforto te abraçar
Eu te olhei
Pude te ouvir
Eu te aprendi
Eu me reconstruí
Você eterno, inteiro
Pleno, a se colocar
Fez à nosso mundo
Um convite pra ficar
E te vi a dizer
Quem é você.
Eu chorei, eu sorri
Eu te olhei
E em você
Eu me vi.
Te vi falar
Vi a mim mesma
Me vi chorar
Eu te olhei
Passei a lembrar
Me vi levantar
Eu te olhei
Me vi a sonhar
Me vi acreditar
Eu te olhei
Me vi realizar
Eu te olhei e vi de novo
Vi como se faz
Pra acreditar
Eu te olhei
Me vi a batalhar
Te olhei e vi
Como nossa essência
É amar.
Eu te olhei
E recordei de onde vem
A segurança de ser
E de estar
Eu te olhei
Me vi continuar
Eu te olhei
Me vi a espalhar
Toda certeza
Que é da natureza
Ser conforto te abraçar
Eu te olhei
Pude te ouvir
Eu te aprendi
Eu me reconstruí
Você eterno, inteiro
Pleno, a se colocar
Fez à nosso mundo
Um convite pra ficar
E te vi a dizer
Quem é você.
Eu chorei, eu sorri
Eu te olhei
E em você
Eu me vi.
terça-feira, 1 de novembro de 2016
PRETA E MÃE NA UNIVERSIDADE
“Eu sou mais velha, não tenho a mesma idade que vocês. É difícil estudar aqui. Já passou muito tempo desde o ensino médio... Aí vc chega na faculdade e bomba em você. Eu não consegui estudar antes. Aconteceram muitas coisas. Aí só deu agora. Eu tenho três filhos. Muita luta sempre, correria pra criar os três. Aí já sabe né... Mas eles cresceram, e consegui vir pra faculdade agora. Mas não não... eu preferia quando eram crianças, dava pra cuidar de tudo, criar adolescente é difícil. Não está mais em suas mãos. Enfim... Eu não sou o padrão pra estar aqui. Eu queria poder fazer como vocês, pesquisar, passar mais tempo estudando, mais tempo na faculdade. Aqui minhas notas são medianas. Eu sou mediana. Eu sei que isso não importa tanto de fato, lá fora você, mesmo que tenha tirado só 10 aqui, não quer dizer que vai se virar bem. Eu trabalhei em uma empresa que fazia pesquisas. Um dia no serviço apareceu um problema, ninguém sabia resolver... Eu me meti lá e no fim vi que era só mudar a temperatura de um equipamento. Pronto. Cê vê que coisa besta... Eu sempre tive curiosidade, vontade de pesquisar e entender. É isso que é diferente, é a experiência. Mas enfim, de novo (risos), eu não sou como um estudante padrão daqui. Mas eu tô aqui.”
Relato de estudante da UNIFESP. Porque o padrão é o privilégio do conforto. Nós todxs devíamos poder estudar de um jeito saudável, poder não se preocupar com a luta que é existir como mulher, como mãe, como periféricx, como pretx, como lgbt. Devíamos ter direito de escolher o que fazer nas nossas vidas sem que, para isso acontecer, tivéssemos que deixar algo de lado. Na maioria das vezes pra isso já não temos nem ao menos a opção. Por mais mulheres negras e por mais mulheres mães que queiram estar na universidade ocupando seu espaço dentro dela. “Mas eu tô aqui”, e isso é RESISTÊNCIA. Que seja mais que resistir, que seja o direito de existir. Pela Consciência Negra, pelas mulheres negras, e pela educação. O povo preto tá aqui, e quanto mais a gente se apropia do nosso espaço, menos conformação. Não aos avanços neoliberais e racistas que querem nos tirar a educação. Os ataques são aos direitos do POVO, a quem já conheceu algum e a quem só conhece a negação. União contra todo racismo, machismo, e qualquer corrente de pensamento que marginalize um grupo da população, antes da prioridade ao lucro tem que existir respeito, empatia e união.
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
Próximo passo
Estar juntos, estamos
Já faz algum tempo
É coisa dessas vidas
Vão passando rápidas
Mas cada uma, devagar.
De que adianta me vir
Com essa ânsia no peito
Se saudade não é partida?
Se de repente pensamos
E pedimos pra juntos ficar
É natural que me coloque
A pensar em nos desenhar
Te abraçando em seguida
Querido. isso é coisa que
A gente é, e também já está.
Só pode esse ser um convite
Então, pra fazer materializar
Estados de alma interagindo
De tamanha partilha na vida
Que nem sei mais se isso
É você quem me diria, ou
Se estou eu de fato a falar.
De todo jeito, esse é um
Dos nossos laços consentidos.
E esse afloramento sincero
Do saber mais que empírico
Nos faz ver com calma aquilo
Que nós fazemos funcionar.
Se desde sempre estava você
Em cada linha crua de amor
Que eu tentava a mais escrever
Em cada caminho e gesto novos
Há sempre mais um pouco
Da nossa essência a dilatar.
Já faz algum tempo
É coisa dessas vidas
Vão passando rápidas
Mas cada uma, devagar.
De que adianta me vir
Com essa ânsia no peito
Se saudade não é partida?
Se de repente pensamos
E pedimos pra juntos ficar
É natural que me coloque
A pensar em nos desenhar
Te abraçando em seguida
Querido. isso é coisa que
A gente é, e também já está.
Só pode esse ser um convite
Então, pra fazer materializar
Estados de alma interagindo
De tamanha partilha na vida
Que nem sei mais se isso
É você quem me diria, ou
Se estou eu de fato a falar.
De todo jeito, esse é um
Dos nossos laços consentidos.
E esse afloramento sincero
Do saber mais que empírico
Nos faz ver com calma aquilo
Que nós fazemos funcionar.
Se desde sempre estava você
Em cada linha crua de amor
Que eu tentava a mais escrever
Em cada caminho e gesto novos
Há sempre mais um pouco
Da nossa essência a dilatar.
sábado, 15 de outubro de 2016
Pedra preciosa
Guarda tua timidez Moça
Que enquanto você faz
Esquecer que existiu
Teu instante de vergonha
Me distrai no teu beijo
E torna mais bonito
Teu significado de ser
Sensível e preciosa.
Se coloca diante de mim
Porque assim você mostra
Como carrega no nome
A tua raridade de essência
Dessas que tem brilho
No jeito de olhar certeiro,
Mesmo no escuro em que nos perdemos.
É que no calor e no som
Eu ainda te vejo.
Me enche da tua atitude
De guardar uma vontade em segredo
Pra eu tentar entender
Como é que se faz pra ser paciente
E escolher ter em silêncio
A sensação de alguém desejar.
Se existir novo beijo, mudará
Qualquer resquício da ideia
De que pode ser melhor
Sua vontade não expressar.
E se me deixar saber
Já é um ato de coragem,
Imagine o significado
Do teu corpo vir o meu guiar.
Direciona tuas retinas
Se aproxima, dilata as pupilas
E eu vou saber te encontrar.
Pra fazer confundir de uma vez
Teu movimento com o meu
E em um embalo de uma dança
Deixar a vontade de estarmos
Assim em sintonia, e em lembrança.
Que enquanto você faz
Esquecer que existiu
Teu instante de vergonha
Me distrai no teu beijo
E torna mais bonito
Teu significado de ser
Sensível e preciosa.
Se coloca diante de mim
Porque assim você mostra
Como carrega no nome
A tua raridade de essência
Dessas que tem brilho
No jeito de olhar certeiro,
Mesmo no escuro em que nos perdemos.
É que no calor e no som
Eu ainda te vejo.
Me enche da tua atitude
De guardar uma vontade em segredo
Pra eu tentar entender
Como é que se faz pra ser paciente
E escolher ter em silêncio
A sensação de alguém desejar.
Se existir novo beijo, mudará
Qualquer resquício da ideia
De que pode ser melhor
Sua vontade não expressar.
E se me deixar saber
Já é um ato de coragem,
Imagine o significado
Do teu corpo vir o meu guiar.
Direciona tuas retinas
Se aproxima, dilata as pupilas
E eu vou saber te encontrar.
Pra fazer confundir de uma vez
Teu movimento com o meu
E em um embalo de uma dança
Deixar a vontade de estarmos
Assim em sintonia, e em lembrança.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
O que não é o amor
Quando a noção de cuidado se confunde com a de propriedade.
Quando responder a um capricho é uma necessidade maior que um combinado.
Quando é preciso repetir várias vezes que ainda existe um sentimento.
Quando a maior parte do tempo serve pra se machucar.
Quando a vontade de abraçar é pequena nos momentos que parecem bons.
Quando pensar estar em proteção maquiar a verdade de estar sendo controladx.
Quando a primeira vista não mais causar a certeza de que está bem e onde queria.
Quando o contato não for capaz de fazer sentir segurança e confiabilidade.
Quando as expectativas não conseguem mais espaço pra vontade de trocar ao menos um sorriso.
Quando o egoísmo pode superar qualquer atitude impedindo a entrega.
Quando o tempo gasto em reavaliações é maior que o tempo em que se deseja a companhia.
Quando as descobertas sobre si mesmx não incluem disposição pra partilhar o novo.
Quando o carinho e a admiração são substituídos por vazios emocionais.
Quando as coisas não são mais aconchegantes, e sim, verdadeiros desencaixes.
Quando as ideias perdem tanto da afinidade que descobrem a intolerância.
Quando fazer questão de continuar implicar um esforço pra acreditar na ideia de união.
Quando a perseverança se desintegra e prosseguir se resume a teimosia não admitida.
Quando fazer qualquer plano exclui o significado da alegria em cruzar o olhar.
Quando para continuar seguindo, guardar um zelo seja mais pesado que esquecer de lembrar.
Quando o receio de falar é maior que a coragem de agir.
Quando não houver a confiança de que arriscar um vínculo para o seu bem pode ser o melhor.
Quando o sentir não for mais uma das coisas que compõem a sua abstração.
sábado, 8 de outubro de 2016
Com um pincel na mão
Eu vi tuas cores pra aprender
Vi no espelho meu corpo a posar
Eu vi teus pincéis perdidos a ir
Buscando outra tela pra se esbanjar
Observa a gratidão a falar
É obra que nem um deus
Pintaria fácil, mas você pinta
E na tua excitante mudança,
Essas mãos já não querem pintar.
Não faz mal, que é possível
Pra sempre essa captura admirar
De todo olhar que já desprendeu
Você doou pr'um quadro começar
Faz cativar toda a incerteza
Que existe em cada caminho a trilhar
E pode esse peito inflar
Por se abrir, se metamorfosear.
E se fica de novo enlouquecido
Guarda a coleção de tintas novas
Rabisca num papel achado
O que mais pode te assustar
Que na vida é perda de tempo
Não usar um medo pra se encorajar
Deixa rescender a solidão
Porque é nela que vai se segurar
E com prazer fazer emanar
Tudo que é tão seu que já não precisa
E se entrega ao novo que vai criar.
Se um dia, de tanta, te sobrar alegria
Mira alto, joga toda arte pro ar
Faz do mundo tua obra prima
Vê? Está tudo diante de ti a esperar.
Vai distante, pra só voltar
Quando teu último pincel for tão grande
Que uma vida inteira será seu pintar.
Vi no espelho meu corpo a posar
Eu vi teus pincéis perdidos a ir
Buscando outra tela pra se esbanjar
Observa a gratidão a falar
É obra que nem um deus
Pintaria fácil, mas você pinta
E na tua excitante mudança,
Essas mãos já não querem pintar.
Não faz mal, que é possível
Pra sempre essa captura admirar
De todo olhar que já desprendeu
Você doou pr'um quadro começar
Faz cativar toda a incerteza
Que existe em cada caminho a trilhar
E pode esse peito inflar
Por se abrir, se metamorfosear.
E se fica de novo enlouquecido
Guarda a coleção de tintas novas
Rabisca num papel achado
O que mais pode te assustar
Que na vida é perda de tempo
Não usar um medo pra se encorajar
Deixa rescender a solidão
Porque é nela que vai se segurar
E com prazer fazer emanar
Tudo que é tão seu que já não precisa
E se entrega ao novo que vai criar.
Se um dia, de tanta, te sobrar alegria
Mira alto, joga toda arte pro ar
Faz do mundo tua obra prima
Vê? Está tudo diante de ti a esperar.
Vai distante, pra só voltar
Quando teu último pincel for tão grande
Que uma vida inteira será seu pintar.
terça-feira, 20 de setembro de 2016
Humanizar
Porque somos ainda esse conjunto machucado de mesmices doentes, das doenças que criamos pra fazer questão de tentar sem admitir, uma ressignificação da nossa não vida, da nossa não apropriação, das nossas não escolhas. E se tentar justificar o porque de não fazermos ao invés de fazer, e o porque de calarmos ao invés de falar, e o porque de recuarmos ao invés de avançar, for predominar nossos passos, nossos pensamentos sempre, que desistamos desse mundo e que façamos um outro, onde a possibilidade de vida seja maior em vontade, do que a a acumulação de amarguras diante do espelho à lamentar o quanto escolhemos abdicar sem querer. E se existir de um jeito que façam os anos passarem só pra mostrar o quanto nos deixamos pra trás for o único modelo, que o destruamos enquanto ainda há alguma vida. Porque se adoentar com o que nós mesmos criamos, e fazer questão de estar submetidxs as mesmas dores do mundo que erguemos em torno de nós, não chega a ser nem mesmo subexistir. Que não carreguemos mais as negatividades que nós mesmos cultivamos ao recuar na nossa história com a mudança do protagonismo que pode ser nosso, com o papel de ditar como as coisas funcionam, e com potencial de ir muito além do que ponderar sobre aquilo que não está ao nosso alcance, ou sobre os sofrimentos que não dependem de nós e que não poderiam ser evitados só pelas nossas ações. Que o sentimento de impotência não seja maior que o de amor. Que sejamos mais!
Porque enquanto forem esses motivos, os que geram as maiores dores que todos nós podemos provar,
de uma forma ao mesmo tempo que exclusiva, também semelhante e capaz de gerar mais empatia, de pessoas sabendo bem o que outras pessoas estão falando, enquanto forem esses motivos aparentemente maiores
que os bens que nos proporcionamos, a peregrinação continua, ilusória, com a ideia de que felicidade se transforma todo dia em algo novo e que nunca poderemos nos contentar. Ela fica distante de nós enquanto alimentamos a ideia de que é mais fácil pensá-la como uma busca incansável e constante, do que enfrentar o medo que parecemos ter em não saber o que fazer depois de achá-la. Como se ao alcançarmos um bem muito maior não pudéssemos viver algo bom demais, porque o sentido de quem se acostuma tanto em sempre buscar se perde quando enfim o encontro acontece. É marca que temos em viver desse jeito desigual, sofrido. Deve haver um universo desconhecido e pouco habitado de seres bem preenchidos que não temem se esclarecer por parecer que encarar os dias, as cores, os cheiros, os sons, que cada coisa tem de fato, em suas realidades, suas verdades, só podem trazer mais dor. Deve haver sim, em algum ponto no tempo, mas ainda não chegamos lá. Das mil e uma conclusões que podem existir e se apresentar diante de nós, se perpetua a ideia de que ir mais a fundo nas questões, relações, interações que criamos, só pode piorar os fatos. Mas não é tão intensamente assustador se acalentar com uma forma de poder fazer de conta que estamos vivendo bem? Dos mil e um relatos que todxs nós temos, de todos os problemas sociais com toda sua complexidade ainda pouco compreendida, conseguir explicar um sofrimento, conseguir reconhecê-lo, deixa-nos sem saída, imersos em um abismo de justificativas e de mais que rejeição social, mais que exclusão, um auto abandono. Individualmente esse processo não tem tempo definido. Mas socialmente, até quando ele não poderá ter uma proposta diferente do que um aglomerado de vidas que nascem e que morrem todos os dias, sem viver acorrentadas pelas próprias angústias? Escrevemos nossas próprias sentenças, damos a nós nossas penas, mesmo não querendo isso, mas assim fazemos e optamos por nem pensar no porque. É um auto abandono pouco racionalizado. Essa passividade com a vida permite que se desenrolem cenários absurdos desde as nossas particularidades até a conjuntura do nosso país. E não queremos nos aproximar da ideia de responsabilidade por muitas das nossas frustrações. Quando se tem condições de observar o próprio sofrimento, de conseguir pensar sobre ele, e mais, quando se tem condições de escolher sair dele, a acomodação ainda existe como alternativa. Essa doença é o conformismo da imobilidade. Nenhum sofrimento pode ser diminuído, mas é preciso aumentar o que combate à sua ocorrência sem desconsiderar a parcela da contribuição que temos sobre o nosso próprio. Não o da sociedade inteira, mas dos nossos. Se podemos pensar a vida como nossos movimentos, abrir mão de acreditar em si é não viver. Porque acreditar em si gera as causas para o movimento próprio. É mais fácil continuar se cobrando, do que afirmar o que já existe de bem em nós mesmos. E parece ser mais fácil se agarrar ao que te mantém ocupado, mesmo quando essa ocupação não faz bem, como se se libertar fosse uma alternativa de risco. É melhor se deteriorar em algo no qual nos desgastamos, porque não sabemos o que sobra de nós se não forem os nossos problemas e as responsabilidades que assumimos arbitrariamente ou não. Se segurar em uma infelicidade ainda é segurança, e parece não haver preços para tentar garantir a sensação de estar caminhando para algum lugar, mesmo sem ter perspectivas positivas. Isso é contraditório demais. Ainda coleciono relatos de mergulhos adoecidos, além dos meus, os das pessoas presas aos seus males. Mas já não sinto essa rede com o mesmo poder que antes sobre mim. E ainda tenho o que falar. Como poderia eu deixar de acreditar nas pessoas, se tenho fé em mim? Sei que podemos ser bem melhor.
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
Deixa Crescer
É que as vezes o amor é tanto
Que tem que se distanciar um pouco
Pra observar de longe
Enquanto a gente cresce
E aprende a viver.
O amor é tão verdade
Que se distancia pra libertar
Porque em proximidade
Não deixaria a gente ver
Como é real esse nosso amar.
E se de longe pode ser
Nosso melhor motivo pra acreditar
Que esse longe continue a mostrar
Como é ilusão achar que vamos distanciar.
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
Dama Nômade
E se de repente
Não fosse eu mais vista como sou
Porque sou quem eu quiser
Do jeito que for, na pele, na cor
E muito mais que a minha têz.
E se eu de repente
Sentisse de mim metade
Daquilo que sei que sou
E daquilo que de mim vierem a dizer
Por causa do que fiz, e faço
Do crespo, do liso, da trança, do cacho.
Não me abrevie não!
Se a mim restasse
A armadilha cruel dada a meu povo
De ter sido tão acorrentado
Que em mim não se reconheça
Apareça!
Venha, porque nós sabemos
Quanto do mesmo
De tudo que é nosso na história
Carrego comigo por ser quem sou.
Venha!
E veja bem de perto
Que escolher sobre meu corpo
Não é nem errado nem certo
É antes de tudo, não negar a mulher
A afirmação de que tem direito
De nascer do jeito que vier
De crescer da forma que quiser
De ser a expressão da consciência que for.
E se minha pele for mais clara
Não sou menos eu por isso
E se meu cabelo for feito mais liso,
Ou se ele for mais de fazer cacho,
Não sou menos eu por isso
Lembra que o povo é um.
A história é que é diferente.
Se nos prendem em correntes
Achando que não podemos revidar
Eis o selamento que nos fortalece
Porque de mãos dadas sabemos ficar.
Existirmos afirma o que acontece,
Pra gente, que vive, que sabe
Que sente!
Mas a nossa dor vem da ideia
Que brota na cabeça de quem
Ao longo do tempo a construiu
Não deixa a causa do sofrimento
Apagar também o que nos uniu.
Minha humanidade não será negada
Só não pode perceber
Quem humano se esqueceu de ser
Pela memória de todos nós roubada.
Mas ainda posso me unir
Por saber quem eu sou.
E por onde eu for, quando me olharem
Com a pele ou cabelo que eu tiver
Se me virem no meio dos meus
Ou no meio dos que ainda
Não sabem de onde são
Vão chamar a mim da mesma forma
Que pra nós sempre se designou
- “Negra!”
E eu hei de dizer:
- "Atendo sim por Negra,
Porque Negra eu sou."
![]() |
| Obra "Negralá", de Wadson Silva Art |
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
Vagante
E você se adoenta
Tentando infinitamente.
Não para de procurar
Se machuca pra se
Reencontrar
Será que pode ver
Como tanto se acorrenta
Em não saber seu lugar?
Vai viajar, solta esses pés
Não se prenda.
A fluidez das idas e vindas
Não te tornam menos
No seu lar.
Se descubra enquanto
Descobre mais lugares pra amar
Não faz mal se aqui não se aguenta,
Se não se enraizar.
Seu lugar de origem
Sempre vai ser e estar
Ame quem é em cada mundo
E se puder saber
Mais de todos os outros
De você mesmo em cada lugar
Vá, experimenta!
Essa busca toda
Não precisa te deteriorar
É comum a gente se perceber
Essencialmente de onde somos
Quando já não estamos mais lá.
Tentando infinitamente.
Não para de procurar
Se machuca pra se
Reencontrar
Será que pode ver
Como tanto se acorrenta
Em não saber seu lugar?
Vai viajar, solta esses pés
Não se prenda.
A fluidez das idas e vindas
Não te tornam menos
No seu lar.
Se descubra enquanto
Descobre mais lugares pra amar
Não faz mal se aqui não se aguenta,
Se não se enraizar.
Seu lugar de origem
Sempre vai ser e estar
Ame quem é em cada mundo
E se puder saber
Mais de todos os outros
De você mesmo em cada lugar
Vá, experimenta!
Essa busca toda
Não precisa te deteriorar
É comum a gente se perceber
Essencialmente de onde somos
Quando já não estamos mais lá.
domingo, 21 de agosto de 2016
Vem pra favela
Tem gente nova no barraco, só procurando
Um espaço de terra pra chamar de seu
Tem criança correndo, rodando, pulando
Atrás do muro da mãe se escondeu
Tem carro parando na esquina
Tem viela, travessa e escadão
Tem sino tocando, padre de batina
Tem terreiro, batucada, e gosto pra toda religião
Tem gente que descobre a educação fugindo da escola
Tem um moço aprendendo com um idoso
Colecionando livros que ganham da esmola
Junto dos seus sonhos e do saber popular e supersticioso
Tem juventude morrendo todo dia
Tem biqueira na ativa, os corres de hoje tão certo então
Tem a rota, a ronda, a PM genocida
Não tem lei nem justiça, mas tem as próprias mãos
Tem mãe solteira levantando às 4hs da madrugada
Tem mulher correndo, fugindo, tropeçou, caiu
Tem estupro no beco escuro, dignidade assaltada
Tem violação do corpo, da alma, e o grito que ninguém ouviu
Tem esgoto passando a céu aberto
Tem córrego circulando doença e sendo lazer de criança
Tem lixo queimando, tem acúmulo incerto
Tem gente crescendo no lodo, e onde tá a doce infância?
Tem moço atropelado, a batida de dois carros
Tem gente estendida no chão, passa perto pra ver se quiser
Tem moça sendo agredida pelo marido, o rosto em cacos
Até o jeito de morrer diz onde tá o homem e onde tá a mulher
Tem sentimento, tem manifestação cultural
Tem pagode, sambão, rock, black, funk, gente dançando
Tem churrasco na laje domingo, e a música é ritual
Tem baile sexta, o fluxo fechando a rua, é o povo ocupando
Tem a quebrada de baixo num ritmo, uma pegada
Tem o esquema e os corres que vem da união
Tem o alto do morro com outra ordem mandada
Pergunta, vai vendo: qual é a tua facção?
Tem muita juventude empoderada,
Tem poesia, dança, teatro, e convite pra mais um sarau
Tem a semente da gente que é constantemente transformada
Tem iniciativa, tem arte, mas cadê o centro cultural?
Tem gente jogando bola na rua
Tem gente na fila duas horas esperando o busão
Tem gente na janela a noite, só pra ver a lua
Tem gente que não sabe o que faz com o que tem no coração
Tem uma carência de perspectiva generalizada
Tem quem tente resolver depositando a fé na mandinga
Depois de um dia de trabalho, ônibus lotado, o trampo de casa
Tem encontro no bar, e a falta de oportunidade se liquefaz em pinga
Tem busca por acesso a lazer, mobilidade, informação
Tem o rolê da galera, mulher dançando sofrendo assédio
Tem forró do buteco, aposta, sinuca, lojão do 10,00 pra distração
Tem gente procurando a cura da rotina, tomando remédio
Tem valores na compra, mercadinho do bairro, consumação
Tem a padaria na rua de cima, a farmácia, loja da moda
Tem as mais procuradas marcas e o alto falante anunciando liquidação
Tem a TV ligada que diz: quem não adquire tá por fora
Tem falta d'água, saneamento, o corpo não aguenta
Falta saúde, assistência, lota a fila da UBS, passa-se mais um dia
Volta pra casa sem a cura, reclamação aumenta, essa é a morte lenta
Tem muita queixa pra fazer, misturada com o cansaço que nos calaria
Tem gueto, povo preto, construção e puxadinho desenfreados
Tem a classe trabalhadora reunida, de todo gênero e idade
Tem luta, resistência, afirmação de identidade e de espaço
Tem diálogo, e a maior vivência pro estudo da ancestralidade
Tem moeda faltando pro pão e pra condução
Tem caixa eletrônico, fila na lotérica, jogo do bicho
Tem uma esperança partilhada em propagação
De que o ingresso pra felicidade e pro sucesso é ser rico
Tem recepção de sonhos, segredados entre os amantes
Tem família antiga e nova, moradora que nem sempre quis
Tem sobrevivência, um ato de afronta ao capital e avante!
Tem o povo que existe com a ideia de que pode um dia ser feliz.
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Leitura
Moça, eu te desvendo aos poucos. Olha demais, me guarda. Fala de menos, mas só comigo. Ri loucamente. Eu percebo a sua desvontade, sua não disposição para mais do mesmo, de tantos velhos relacionamentos, um tanto cansativos, outro tanto... Deixa isso pra lá. Nisso muito nos reconhecemos. Muito me identifico. E ao mesmo tempo tem um sinal de busca que eu vejo mas não quero responder. Como se ainda porventura achasse que de repente lhe pareceria encontrar o que sempre procurou. Parece que assim nascem dois desafios: pra você o de me ler, e vice versa.
Mas agora já nem é mais procura. As necessidades mudam. Não permanecemos imutáveis e nossas formas de ler a mesma cena mudam. A gente não esqueceu ainda como é bom provar as vidas, nem como é que se faz pra descobrir as capacidades que se ampliam quando as pessoas estão juntas. Na verdade, nós bem sabemos isso. Será falta ou excesso de conhecimento que faz com que hoje já não queiramos as mesmas coisas? Se já nos bastássemos nas companhias que fazemos pra nós mesmas, não seríamos mais humanas. Ser inteiras. Somos. Nos libertamos pra nos preencher e a composição além vem de fora de todas as interações que vivemos. Moça inteira é capaz de construir para além de si.
Eu sinto a tua e a minha suspeita na ideia de construir juntas quando nos olhamos. E ao mesmo tempo a convicção de que queremos estar exatamente onde já estamos. Que nós fiquemos ainda mais felizes. Traz teu livro favorito e me mostra, só me deixa te ouvir falar pra eu te perceber melhor. E já estamos ganhando por escolher ter umas horas de boa conversa e uns dias de boa lembrança. Será que fazer de conta por muito tempo que algo de novo aconteceu ainda funciona pra nos fazer achar que estamos sentindo a emoção que queríamos? Às vezes a gente se engana pra não ter que encarar o fato de que estávamos nos enganando. Deixar estar, deixa a sensação passar... Depois de muitos momentos a sós é que entendemos o estado de emocionar quando estamos em companhia. Traz teu livro Moça, que é emocionante poder te ler enquanto lê pra mim.
terça-feira, 9 de agosto de 2016
A palavra amor se diz em Adélia
Esse é o primeiro texto que faço pra falar de um amor em que o conteúdo todo de inspiração não é uma mistura de fatos com devaneios soltos, expectativas, ilusões, ou qualquer outra coisa que cabe apenas ao campo das ideias e que são muito particulares ao olhar de quem imagina. Não há o que não seja muito real. Essa é a primeira vez na vida que eu escrevo por amor, para um amor que eu conheço a fundo. Eu não tenho que me desprender da realidade, nem lembrar que me permito inventar, esquecer, transformar qualquer coisa, qualquer verdade, qualquer mentira, para criar um conjunto de sentenças que registram a força de uma expressão escrita, para a mágica que existe na sensibilidade de escrever. Porque essa é a primeira vez que toda elaboração para passar uma mensagem não precisa de muita figuração: esse é o amor mais literal. Há algum tempo eu descobri que a vida parece exercer séries de reações em cadeia, e que as pessoas que nos compõem, de um jeito ou de outro, no momento que devem estar conosco, estão. E eu conheci a Adélia em 2014. Nosso primeiro contato foi uma conversa que durou uma caminhada de uns... uns quinze minutos talvez. E esse contato bastou. Falamos de qualquer coisa, de signos, de sexualidade, de ser mulher nessa sociedade, de besteiras aleatórias, de relacionamentos. E falamos de empatia, mesmo que essa palavra não tenha aparecido. No ano seguinte eu acordei no dia do meu aniversário na casa dela, tínhamos obrigações nos eventos da faculdade e dormir lá deixava as coisas mais práticas. Nessa altura já tinha ela no meu coração, com convicção. Antes de dormirmos falamos uma para a outra que nos amávamos. Senti com certeza a verdade que há nisso e o potencial da nossa amizade. Quem falou foi ela, porque é isso que ela faz desde sempre, espalha amor. E então, em 3 de janeiro desse ano estava indo morar com ela, e com mais amigxs. Nossas rotinas e dinâmicas de estudantes universitárias e mais outros motivos principais da minha vida modelaram isso. Nossos seis meses de convivência, quase exatos (nossa república acabava em 4 de julho) mudaram em mim a noção de convicção que eu a amo, a noção de certeza. Na verdade eu sinto que jamais terei uma visão assim, porque saber com certeza disso torna estático o meu sentir. E esse sentir não é estagnado. Todos os dias da vida eu sabia que era como uma nova flor brotando, e eu chego ao fim do dia sendo uma pessoa maior, que viveu mais, e que sentia que amava uma companheira de novo. Dormia. E quando acordava eu não tinha certeza de nada, nem de mim mesma, tinha que lembrar meu nome, lembrar como se faz pra mover o corpo, como se luta contra a vontade de continuar dormindo. E aí ela me acordava, rsrs. Ela até desenvolveu técnicas de como garantir que eu acordasse, despertasse de fato. E começávamos de novo o amor naquele dia. Eu aprendi a construir nossa amizade todos os dias novamente. Quando as pessoas acham o nome dela parecido com o de uma flor, e ela responde "É... tem a Camélia né", eu sorrio comigo porque Adélia pra mim já é nome de flor faz tempo, de uma espécie que emana tantas razões para acreditar, tantos motivos para fazer o que se quer. Junto da nossa convivência vieram tantas horas de conhecimento, de trocas, de epifanias conjuntas, de madrugadas em que se escolhia trocar o sono por uma boa prosa. A partilha e o companheirismo cotidiano, as resoluções das coisas. As descobertas dos motivos que se somam pra explicar até porque existimos, para o que, e porque uma na vida da outra. Nós somos amigas e somos nossos corações abertos a ouvir, e somos nossas palavras pra dizer também.
![]() |
| "Novo velho amor" |
E a verdade sobre nossas reflexões é que a maior parte dos males que se arranca pela raiz, daquilo que é praticamente intrínseco a um valor ou tradição embutida em nós, da nossa formação e educação, nós pudemos transformar. Anuncio sem temor que foi uma mulher branca que me permitiu ser a preta que eu sou nesse mundo. E mais: de tudo em que hoje posso ter minhas referências, toda a identidade e o espaço de reconhecimento que se ampliou pra mim como negra, percebi não só no meu corpo, na minha tez, nos meus traços, mas no que tinha de diferente socialmente com uma mulher branca, que pela primeira vez fez dessa diferença o caminho pra nossa união e não o contrário. Independente de qualquer reflexão nossa, eu sou preta e ela é branca para a sociedade. É assim que nascemos. Mas com certeza, depois de nós sermos nós uma pra outra, eu ser preta e ela branca é algo que tem outros significados, muito além e muito maiores que a mera e restrita condição miseravelmente resumida e imposta por uma sociedade racista. Nascemos assim. Mas certamente já não somos só isso. E daqui em diante, vivemos pra ser mais.
Está em nossos rostos, quando nos olhamos, o que precisamos. As ideias, as atitudes, as escolhas. Uma avaliação rápida sobre a melhor escolha, onde devemos estar, o que precisamos evitar. A gente até sabe o que nos faria mal, e por amor logo uma trata de proporcionar o melhor pra outra. A gente tem cuidado. Carinho. Compreensão. E é assim que é amar, simples e forte. Isso se reflete em mim pra escrever de um jeito bem literal, e ainda que o amor que eu vivo me inspire e se espalhe pelas poesias, transborde nas prosas que invento, se "apalavrie" (sim, inventei) nos versos que fiz, faço e ainda farei sobre como o amor é maior que o indivíduo, aqui não há figura de linguagem nem outro recurso muito necessário, se não a própria realidade que há em dizer que eu literalmente posso falar o que é amor dizendo "Adélia".
quinta-feira, 14 de julho de 2016
Semblante
Você tem uma expressão habitual pros momentos que vai ouvir alguém falar. Tem um desenho que assume no rosto um segundo antes de começar a falar também, que me faz achar graça. E quando você faz cara de dúvida, ou se exalta... Perde o controle e começa a gaguejar muito até conseguir falar uma palavra inteira, e iniciar a construção de uma ideia. Eu acompanho sua ideia, mas não deixo de me divertir. Também tem uma expressão que você faz quando não pode evitar não reparar em como estou bonita, seu rosto diz que está me achando linda. E alguns segundos antes de eu te beijar, no intervalo de tempo entre suspeitar e ter certeza de que vou mesmo te beijar, você faz a melhor de todas as expressões, a mais bonita. Faz parecer que as retinas tentam esconder um segredo que já não podem mais guardar. E a sua resposta quando interpreta no meu rosto uma expressão de encanto, ao contrário do que a princípio pareceria ser um rosto que transmite satisfação em parecer ser desejado e que viria então a se realizar e gozar da beleza que é saber que é querido, me mostra a face que é por alguns segundos a tradução do altruísmo em feições. Nem você deve saber que já é capaz de ser mais que uma mera e incansável busca por conforto e pela sensação de preenchimento, que pode enlouquecer pessoas e desesperá-las, levando-as a fazer coisas quase insanas. E essas coisas nem são sempre tão absurdas, são detalhes singelos também, que corroem. Mas você tem um rosto além disso. O rosto é a primeira coisa que olhamos. E pra saber se continuaremos olhar, o rosto tem que se atrever. Se virar pra se encontrar. Foi assim, nos encontros dessas faces que eu vi... Você tem uma expressão quando observa, especialmente quando observa distâncias, quando volta a atenção pra um ponto longe, uma expressão que revela que tudo que precisamos está na verdade muito perto. Você vê alheio ao teu corpo, envolto nas figuras do mundo, que seu caminho já está no seu olhar pra dentro de você.
quarta-feira, 29 de junho de 2016
Hiato
Pr’onde é que foi
Aquele bocado de coisa
Que nós não fizemos ontem?
Oxente hômi, cadê tu?
Te acho logo.
Reencontro.
E essa alegria boa…
Chegue pra mim nesse abraço
Faz assim que eu te enlaço
Vem com esse teu sorriso
Que a gente vira nosso ninho.
É bom te rever.
Esqueci de onde havíamos parado
Cê é um hiato na lembrança
E é também uma pausa
Na saudade.
terça-feira, 7 de junho de 2016
De prosa em prosa
Uma façanha!
Um gesto inquieto
Sorri.
Espera um tanto a mais
Impaciente que vai ficando
Faz outras mil escolhas.
Tudo era pra ser feliz
Se nada fosse sólido
Pensa.
Se tudo que é sólido
Desmancha no ar
Não há com que atentar.
Uma ideia que te aponta
Um recanto, moradia
Reconhece.
Já está sabendo quem é
Admite que descobre estar
Segue adiante à partilhar.
Espaço oportuno!
Vê as possibilidades
Suspira.
Essa luta que faz da vida
É a que te anuncia, a libertar
Aprende todo dia o que é amar.
Um gesto inquieto
Sorri.
Espera um tanto a mais
Impaciente que vai ficando
Faz outras mil escolhas.
Tudo era pra ser feliz
Se nada fosse sólido
Pensa.
Se tudo que é sólido
Desmancha no ar
Não há com que atentar.
Uma ideia que te aponta
Um recanto, moradia
Reconhece.
Já está sabendo quem é
Admite que descobre estar
Segue adiante à partilhar.
Espaço oportuno!
Vê as possibilidades
Suspira.
Essa luta que faz da vida
É a que te anuncia, a libertar
Aprende todo dia o que é amar.
sábado, 26 de março de 2016
Carícia de pirilampos
Um toque de leve. Dois toques de leve. Luz!
A mão passeia devagar. Divaga junto ao devaneio
O toque, o cheiro, ninguém fala
E a boca calada permanece
A cabeça inclinada à observar
E os olhos é que dizem tudo
Às nossas mãos
E as mãos aos pulsos, e os pulsos
Aos cotovelos
Luz! E os olhos no ombro,
a boca prevalece quieta
Os braços se afastam, e um toque tímido
Da ponta dos dedos
Nas costas da mão
Começa tudo outra vez.
Palma na palma, dedos nos dedos
Aperto. Soltura.
Um braço percorre outro
Dois braços caminham em dois braços
Entrelaçam-se.
Vê-se o desenho das veias.
Vê-se o desenho das veias.
Os dedos roçam de leve
Prosseguem braços ao pescoço
passando pelo ombro,
chegando a cabeça.
Rosto nas mãos, carinho nas bochechas
Sorriso. Respiro. Luz!
A cabeça se reclina,
as mãos voltam de onde vieram.
E se vão.
E as palmas estendidas esperam mais uma vez
Mais um encontro da ponta dos dedos
Um toque de leve. Dois toques de leve. Luz!
quinta-feira, 17 de março de 2016
Sossego
Eu me lembro bem de como já estava escuro, da minha pele
arrepiada e da felicidade que mal podia conter em mim. Tinha uma brisa muito
leve, dessas das noites de verão. Só fazia balançar de leve o cabelo que antes
caía na testa. Foram poucos passos até eu me despedir, e pensar que estava
dando mil passos na direção contrária a que eu tinha me dedicado nos últimos
meses, mil passos de distância entre estar ali caminhando naquele espaço e o pôr-do-sol do dia anterior. Uma vida inteira de
distância entre a vida que trilhava e a que fizera então questão de conhecer. “Eu
estou feliz agora”. E no fim daquele pequeno caminho eu sabia que tinha certeza
de que não queria ter certeza de que eu quereria você. Mas já tinha certeza, não
havia mais contra o quê me colocar. E então, eu quis. Inevitavelmente, sem
querer mesmo evitar. Quis. E enquanto eu me recompunha e acertava minha rota,
encontrava meu eixo, eu deixei de acreditar mais uma vez. Porque meu querer é
sutil. É um querer que se basta, se sustenta e não se aflige mais. Aos poucos
giro em torno da minha sina e vejo que não há saída a não ser, ser feliz. Não
adianta, não há coisa que mais me mova que o impulso de querer estar bem comigo
e com quem me é um bem também. E são nesses instantes que sei, nesses instantes
mais que inconstantes… Nesses instantes singelos e breves, que eu sei que prevalece
aqui de alguma forma minha alegria e satisfação em ter você, e provar um pouco
da sua graça. E a certeza que em algum momento não quis reconhecer, me deixa
hoje livre pra andar só, com a ideia clara de que continuo a te querer, sem
querer te manter de qualquer forma, como um troféu, como um ideal, como um
apego, como uma perspectiva que pode se frustrar no tempo. Eu só sei te querer
enquanto for um recanto bom, e um recanto é o lugar onde quero me aconchegar,
sem pressa e sem prece. Te reconhecer crescendo em mim me fez tão bem, que não
tive receio de não saber lidar com isso. Enquanto caminhava aquela noite eu
sabia que tinha algo de muito bom em alto potencial pra sentir, e que escolher
não viver era uma alternativa, ainda que distante, existente. Agora nem existe
mais. Tudo que for bom, que venha. Não preciso me preocupar em continuar te querendo, tampouco em não
continuar. Não faz mais diferença a forma com que vou te querer, nem se vou. Eu
já te amo com o máximo de mim que pode te amar. E depois que voltei, no escuro,
com a brisa, a pele arrepiada, sabia que teria um turbilhão de sensações até
que pudesse vomitar qualquer coisa que durasse alguns poucos dias na minha cabeça.
Foi o que aconteceu. Quando me livrei da prisão de guardar os pensamentos só
pra mim, me libertei também de qualquer possível peso sob o qual eu porventura
pudesse vir a me submeter, só por te querer. É por isso que te falo o que
penso. O nosso inferno nós é que criamos, mas hoje eu sou meu paraíso. Sentei
numa cadeira velha com uma xícara de chá, e enquanto ia bebericando aos poucos
o líquido fumegante, e com a mão esquerda eu fazia e desfazia alguns cachos, me
dei conta do quão prazeroso é reconhecer meu próprio querer sem querer mais
nada. Foi assim que eu descobri que te amo. Porque eu te quero, mas não preciso
de você comigo de um jeito ou de outro. Minha gratidão pelo que passou e pelas
vivências que partilhamos é tão cheia, tão forte. Só não digo que é o melhor
que tenho de nós porque existe o seu riso cru, espontâneo, puro: isso deve ser o
melhor! O chá tinha acabado. Levantei pra fazer mais, sem querer interromper
meus devaneios. Deve ser assim descobrir a beleza que é estar bem mesmo diante
de todas as dificuldades comuns da vida: é chegar no fim da xícara sabendo o gosto
que se quer e ir atrás de enchê-la de novo sem hesitar. Quando voltei pra minha
cadeira velha eu já tinha mais afeto e menos necessidade. E de
repente meu querer já não era precisão, era só conhecimento do meu novo velho
amor.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Reticências
É assombroso
desesperador,
desequilibrante,
que eu sempre pudesse escrever
que eu sempre pudesse sentir
que eu sempre pudesse dizer
e que eu me perceba agora
imersa nessa incapacidade
e antes mesmo de porventura não poder falar
o que já não posso agora é mesmo escrever
nem descrever.
O que é que vou fazer?
Parece que me acabei.
Me desmoronei.
Sem chão sob os pés: eu sem palavras
me desestabilizei
que porra é essa?
Eu odeio não escrever
tentei e não consegui
será que vou conseguir?
Nunca antes duvidei tanto
que descrédito meu
não acho uma vírgula que expresse isso
talvez não haja mesmo vírgula.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
Quer saber d’uma coisa Sá?
Quer saber d’uma coisa
Sá? Hoje eu poderia realmente escrever sobre como é bom poder ser um copo
cheio, ser inteiro, ser repleto de si, e poder assim ter a chance de se unir a
alguém que nos faça transbordar. Poderia escrever sobre sentimentos partilhados
que nos compõem e nos constroem. Poderia até dar mil voltas na ideia concreta
de agir, na escolha do tipo de decisão que se leva adiante, na parceria e no
companheirismo que objetivamos e que julgamos ser do caráter que queremos. Mas
se quer saber Sá, o que me inspira de verdade é esse aprendizado constante de
que nossa evolução não é uma linha reta. Nossa evolução é uma teia. Mudamos em
grau e nível a cada novo ponto de descoberta de nós mesmos no outro, e se há
algo que queira saber Sá, hoje eu me vi em você e você se viu em mim. Pois
fique sabendo Sá, que o maior dos motivos que me levam a crer na certeza de que
podemos ser bem preenchidos não é uma coincidência do tempo, de um momento em
que nos pareça que estamos perto de estar onde queremos estar. Até porque,
estar é um verbo tão passível de mudança. O mesmo “estamos” de hoje não é
válido para amanhã. Mas sabe Sá, daquilo que somos essencialmente, que é de
onde podemos nos reconhecer, eu sinto e sei que não caminho só jamais, porque é
na sutileza de um encontro nosso que eu consigo buscar em mim a paz que tenho e
que você me prova que realmente tenho. Descobrimos que já sabemos andar, mas é em união que nos damos conta de quais são os passos.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
Pede bis
Me entreguei. Ainda bem que cê existe.
Me ergue num abraço e quando sinto os pés saindo do chão, é quando sei como quero me sentir com você.
Cê chega mais perto, faz o convite que eu já ia fazer.
Bota a música que vira a minha preferida enquanto toca.
E enquanto toca a gente esquece de ficar com nossas roupas.
Tem partes disso que as vezes tomam conta dos meus pensamentos.
O que será exatamente que me mantém te guardando não é mistério
É vontade.
Me ergue num abraço e quando sinto os pés saindo do chão, é quando sei como quero me sentir com você.
Cê chega mais perto, faz o convite que eu já ia fazer.
Bota a música que vira a minha preferida enquanto toca.
E enquanto toca a gente esquece de ficar com nossas roupas.
Tem partes disso que as vezes tomam conta dos meus pensamentos.
O que será exatamente que me mantém te guardando não é mistério
É vontade.
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