terça-feira, 24 de novembro de 2015

Rumo

Fica no alto
Eu gosto de ver daqui
E da sensação
De estar cada vez mais perto
Gosto de chegar
Mais perto

E que sorriso é esse?
Que coisa mais linda
Vi da primeira vez
Nem podia falar
Ia parecer maníaca demais
Mas vi

E guardei comigo a verdade
Por trás dessa imensidão
Que você tem nas retinas
Foi num dia qualquer
E as minhas pupilas
Dilataram
Quando eu te olhei

E esse castanho profundo
Fica do lado
Que na dúvida
Eu me guio em você
Até ficar no alto também
E ver castanho de frente

Fica no rosto
Que é no seu rosto
O lugar onde me confundo
E vira meu Norte
Poder te olhar
Sem qualquer bússola por perto

Fica aí, no alto
E sem direção
Porque não teve muito sentido
Mais um dia comum
Em que estava tudo
Tão mais lindo
Que o cotidiano

É daí mesmo
Foi essa mesma imagem
Que refletiu nessa tua íris
A figura da descoberta
De estarmos dentro de nós
O tempo todo
Te abriguei dentro do olhar

Me reconheci nos teus olhos
Eu cabia em você!
Me aponta esses dois enigmas
Que eu me sinto num desafio
De saber a direção
Foi você de novo

Os passos já eram nossos
Antes de sabermos
Fica aí no alto
Que é assim que eu dito
O nosso caminho
Deve ser esse o tal do rumo


domingo, 8 de novembro de 2015

Constantemente


E a gente apertou o botão de reinício, revoltados com os 3,50, olhando pro céu da janela apreciando a chuva... A gente fica cansado sim, muito cansado. Mas o ritmo desse modelo continua, e nós também continuamos, imersos, sendo engolidos ao mesmo tempo que tentamos naufragar numa ilha qualquer em que tudo seja diferente do que já nos saturou. Basta por hoje! Eles fecham escolas, e nós temos que continuar. A galera pede intervenção militar, e nós temos que continuar por nós e por eles. A gente vai pra rua pagando os tais 3,50 no mesmo inconforto diário, e grita, e caminha, e se dedica. Tiramos um tempo pra dedicar à indignação com a redução da maioridade penal, e não paramos, continuamos. A gente até percebe o quanto podemos estar errados no fim sobre as nossas próprias convicções, mas concordar em sermos desumanos, isso não queremos. Queremos um gole d'água pra nos preparar pra próxima. Só que água não tem não! Tem gestão, e isso não significou água até agora.
Vão fechar a escola que eu estudei também... Isso aperta muito, é de desesperançar.
O noticiário nos trouxe a nova: Rompimento das barragens em Mariana, a lama deixa a gente literalmente onde por vezes já estamos. E em seguida, só pra nos banhar de mais doses de ironia, atenta para o fato da necessidade de mais policiamento no Morumbi, dizendo que os condomínios são praticamente obrigados a ter piscina porque os moradores não tem direito de ir e vir, não tem segurança pra ir se quer ao clube.
Não é maluquice buscar rotas alternativas, a falta de sanidade está em continuar onde já estamos. E as coisas que são boas são, se não proporcionalmente, até mais intensas que as angustiantes. Nosso jeito de encarar tudo deve ter um papel muito mais significativo do que o que achamos. O jeito de lidar faz diferença sim, e a gente ainda consegue ser feliz no mundo como está. Imagine se a história fosse outra.. Outra qualquer que fosse, só menos agressiva a nós mesmos. A gente transbordaria luz!
E continua o assédio, mas continua o respeito. E continuam as torturas socialmente construídas, mas continua o desprendimento de preconceito. E continua a vida e suas formas, evoluindo em ritmos diferentes. E se temos a violência e também a opção de paz, a justificativa é completamente válida e suficiente pra optar pela paz a medida que afirmamos "porque eu escolhi".
A evolução das questões sociais também tem tempos de adaptação distintos, será que vai dar tempo de sobreviver? E de finalmente fazer mais que isso e viver?
E se a gente começasse a negar abraços em um tempo como esse? Não, não, que os abraços continuem, que as nossas trocas continuem, que pessoas que amam momentos continuem, e que a luta continue.
Que a gente se compreenda e se perceba numa rede só.
Que a vida possa ser um dia, mais!

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O casal "casaumentou", e o casório diminuiu.

Tínhamos decidido que hoje
Era o seu dia de lavar a louça
Lembra que já havia um tempo
E eu já sabia que ia ficar com você,
Quando nós achamos que ia dar
Pra ficar vivendo a vida num mergulho
Pra conviver sempre dentro
De uma lua de mel,
E você me fez a proposta.
Achei que pra dividir lembranças
E construir momentos
Tudo tivesse que ser a dois.
Foi você quem deu a entender
Que felicidade era só uma questão de interpretar.
E quando decidimos juntos
Que a casa devia ser maior
Pra caber todas as nossas extravagâncias,
Fomos aos poucos esquecendo
De continuar juntos, com tanto espaço pra se perder.
A cama é maior agora
Mas nunca a trocamos.
Tem mais espaços vazios.
Trocamos sim,
Os pratos, as cortinas, a mão que segura o controle remoto
O seu canal preferido. E o meu fogão!
Agora ele é seu.
A centrífuga e o ferro de passar também são.
Queria dar um recado, sobre a última noite
Que eu deixei de dormir direito pra te esperar chegar
E ter a casa arrumada
A filha num recanto bom
Sua roupa, sua comida, e o cheiro bom que vem sentir em mim
Faz tempo que planejei tantas coisas,
E já que não tenho plano nenhum agora
Depois de passar dias e dias da vida que escolhemos
Minha vontade de realizar meus sentimentos
Ainda é viva
Fortemente viva.
Deixe a louça pra lá
Estou te liberando desse contrato
Já não importa se é meu dia ou o seu
Dos acordos que esperei sem retorno
E das vezes todas que não tive resposta
Das inúmeras promessas eternamente efêmeras
Só guardo a culpa de não ter feito
Tudo o que tive vontade de fazer por mim
Porque desde que eu vi minha filha triste
E me dei conta de que sou capaz de dar a ela o melhor abraço do mundo
Fiquei feliz comigo mesma e me abracei
E não senti falta de todos os abraços que não tive
Tive sim a vontade, de abraçar-me mais!
E de abraçar o mundo grande.
Meus braços são maiores ainda
Eles podem dar duas voltas no globo.
Eu só demorei um pouco pra perceber
Que não adianta negar ao corpo
Aquilo que ele pede
E meu corpo quer mais.
Não quero dessa vida uma tampa de caneta perdida
Só minha palheta que caiu atrás do sofá há dois anos
Por que foi que eu nunca a peguei?
Não, não, vem cá minha cara
Que saudade de tocar.
Você é que devia ter varrido aquele canto
Eu a teria de volta logo... mas já passou.
E também deveria ter cozinhado todas as quintas
Porque chegava mais cedo
E feito qualquer coisa pra que eu não sentisse
Que a vida estava parada
Me recusei a sentir!
Não há estado mais móvel que esse,
Essa graça de poder estar viva
Sustenta a nossa força
De querer viver.
E eu me rendo à vida hoje.
Minha filha é uma jovem
E espero que ela goste da vida
Pra não se abandonar nunca.
E se esse casamento
Aumentou a nossa casa um dia
Que ela possa ver
Tudo que de mim não pude diminuir
Pra deixar de ser
Aquilo que jamais fui.