Tínhamos decidido que hoje
Era o seu dia de lavar a louça
Lembra que já havia um tempo
E eu já sabia que ia ficar com você,
Quando nós achamos que ia dar
Pra ficar vivendo a vida num mergulho
Pra conviver sempre dentro
De uma lua de mel,
E você me fez a proposta.
Achei que pra dividir lembranças
E construir momentos
Tudo tivesse que ser a dois.
Foi você quem deu a entender
Que felicidade era só uma questão de interpretar.
E quando decidimos juntos
Que a casa devia ser maior
Pra caber todas as nossas extravagâncias,
Fomos aos poucos esquecendo
De continuar juntos, com tanto espaço pra se perder.
A cama é maior agora
Mas nunca a trocamos.
Tem mais espaços vazios.
Trocamos sim,
Os pratos, as cortinas, a mão que segura o controle remoto
O seu canal preferido. E o meu fogão!
Agora ele é seu.
A centrífuga e o ferro de passar também são.
Queria dar um recado, sobre a última noite
Que eu deixei de dormir direito pra te esperar chegar
E ter a casa arrumada
A filha num recanto bom
Sua roupa, sua comida, e o cheiro bom que vem sentir em mim
Faz tempo que planejei tantas coisas,
E já que não tenho plano nenhum agora
Depois de passar dias e dias da vida que escolhemos
Minha vontade de realizar meus sentimentos
Ainda é viva
Fortemente viva.
Deixe a louça pra lá
Estou te liberando desse contrato
Já não importa se é meu dia ou o seu
Dos acordos que esperei sem retorno
E das vezes todas que não tive resposta
Das inúmeras promessas eternamente efêmeras
Só guardo a culpa de não ter feito
Tudo o que tive vontade de fazer por mim
Porque desde que eu vi minha filha triste
E me dei conta de que sou capaz de dar a ela o melhor abraço do mundo
Fiquei feliz comigo mesma e me abracei
E não senti falta de todos os abraços que não tive
Tive sim a vontade, de abraçar-me mais!
E de abraçar o mundo grande.
Meus braços são maiores ainda
Eles podem dar duas voltas no globo.
Eu só demorei um pouco pra perceber
Que não adianta negar ao corpo
Aquilo que ele pede
E meu corpo quer mais.
Não quero dessa vida uma tampa de caneta perdida
Só minha palheta que caiu atrás do sofá há dois anos
Por que foi que eu nunca a peguei?
Não, não, vem cá minha cara
Que saudade de tocar.
Você é que devia ter varrido aquele canto
Eu a teria de volta logo... mas já passou.
E também deveria ter cozinhado todas as quintas
Porque chegava mais cedo
E feito qualquer coisa pra que eu não sentisse
Que a vida estava parada
Me recusei a sentir!
Não há estado mais móvel que esse,
Essa graça de poder estar viva
Sustenta a nossa força
De querer viver.
E eu me rendo à vida hoje.
Minha filha é uma jovem
E espero que ela goste da vida
Pra não se abandonar nunca.
E se esse casamento
Aumentou a nossa casa um dia
Que ela possa ver
Tudo que de mim não pude diminuir
Pra deixar de ser
Aquilo que jamais fui.