Por mais que pareça que nosso jeito de escolher viver não
caiba nesse mundo, nada, absolutamente nada, deve parecer imutável. E se não
fossem as pessoas que tem vontade de vida, que não se abandonam no mundo, que
não recuam e caem sobre si mesmas, desacordando todos os dias e deixando de ser
e de estar, essa história toda de haver humanidade na terra seria uma completa
perda de tempo e energia. Mas evoluímos pra ser seres pensantes, passíveis de
emoção, e deliberativos. O mundo só não é um lugar ideal porque, e ainda que
salientar isso de forma tão resumida pareça uma afronta a complexidade da nossa
existência, porque as pessoas se deixam, “se naufragam”. É preferível carregar
o peso de tudo aquilo que deixamos de ser, do que ser de fato. Um autoabandono
que não se “auto reconhece”. Se “auto ignora”, isso sim. Finge não se ver, não
se perceber. E não só finge, se faz na mentira e se constrói numa verdade
ilusória. E todos os dias não encaram o sentido de poder existir. Mas como nada
deve parecer imutável, se desprender dessa cegueira e dessas correntes faz com
que saibamos que somos tão grandes, mas tão grandes, que já não cabemos em nós.
O corpo é pouco. O corpo é só o começo. O corpo é só um pedaço. Uma parte do
espaço que podemos ocupar, porque ao escolhermos não nos abandonar, nós somos o
universo inteiro. E conseguimos sustentar de um jeito mais simples toda a
complexidade das relações que nos circundam e nos compõem, porque o universo é
isso: é a soma das interações desde seu início até agora. E quando percebemos
que somos também o universo, percebemos que podemos ser mais, atemporais, transcendentais
de nós e do espaço. E nós somos então o nosso espaço, somos quem nos delimita,
somos do tamanho que podemos escolher ser. E enquanto esse mundo continua
estando como está, cada emancipação vai sofrer repressão, até que a emancipação
seja o alicerce do novo mundo. Não desamparar, não se desabraçar. Não me
desabraça.
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