domingo, 11 de outubro de 2015

Não me desabraça.

Por mais que pareça que nosso jeito de escolher viver não caiba nesse mundo, nada, absolutamente nada, deve parecer imutável. E se não fossem as pessoas que tem vontade de vida, que não se abandonam no mundo, que não recuam e caem sobre si mesmas, desacordando todos os dias e deixando de ser e de estar, essa história toda de haver humanidade na terra seria uma completa perda de tempo e energia. Mas evoluímos pra ser seres pensantes, passíveis de emoção, e deliberativos. O mundo só não é um lugar ideal porque, e ainda que salientar isso de forma tão resumida pareça uma afronta a complexidade da nossa existência, porque as pessoas se deixam, “se naufragam”. É preferível carregar o peso de tudo aquilo que deixamos de ser, do que ser de fato. Um autoabandono que não se “auto reconhece”. Se “auto ignora”, isso sim. Finge não se ver, não se perceber. E não só finge, se faz na mentira e se constrói numa verdade ilusória. E todos os dias não encaram o sentido de poder existir. Mas como nada deve parecer imutável, se desprender dessa cegueira e dessas correntes faz com que saibamos que somos tão grandes, mas tão grandes, que já não cabemos em nós. O corpo é pouco. O corpo é só o começo. O corpo é só um pedaço. Uma parte do espaço que podemos ocupar, porque ao escolhermos não nos abandonar, nós somos o universo inteiro. E conseguimos sustentar de um jeito mais simples toda a complexidade das relações que nos circundam e nos compõem, porque o universo é isso: é a soma das interações desde seu início até agora. E quando percebemos que somos também o universo, percebemos que podemos ser mais, atemporais, transcendentais de nós e do espaço. E nós somos então o nosso espaço, somos quem nos delimita, somos do tamanho que podemos escolher ser. E enquanto esse mundo continua estando como está, cada emancipação vai sofrer repressão, até que a emancipação seja o alicerce do novo mundo. Não desamparar, não se desabraçar. Não me desabraça. 

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