Num dia desses meu vô comentou, numa conversa qualquer sobre música, que havia muito tempo em que ouvira um trecho de música do Roberto Carlos. Sabia que era dele, mas não conhecia a música. Gostou muito do que ouviu. Procurou discos e foi atrás de tentar ouvir a música de novo. Não conseguiu. Percebeu que se tratava de uma canção mais antiga. Eu não ouço o "rei", não podia contribuir muito, mas pedi pra ele me mostrar um trecho. Disse que ia procurar a música. Ele falou que gostou muito, que a música falava de um contexto que fazia-o se lembrar das festas de quando era mais novo. Ele queria me mostrar a parte da letra que lembrava, começava a cantar e se interrompia pra dizer que não tem "o tom". Eu ria e insistia pra ele continuar, dizia que tudo bem, era só pra eu achar a música. Estava com o celular na mão. Ele cantou algo como "quem chega fica no passo dessa dança, e quem não chegou quer vir dançar", algo assim. A música é "O Baile da Fazenda", de 1998. Meu vô disse que nunca mais tinha conseguido ouvir, estava passando em algum lugar do mundo e tocava a tal música. Digitei o trecho que ele me mostrou acompanhado do nome do rei. Play no Youtube. Começou a tocar. "É essa vô?" Ele ficou admirado com os avanços da tecnologia, com a nossa acessibilidade e a facilidade de pesquisar e encontrar. "Mas, olha, essa menina achou assim rápido". De outras conversas nossas já concluímos que é assustador o ritmo com que a humanidade desenvolve coisas, e estrutura preconceitos e desigualdades pra manter esse ritmo. A música traz as estrofes:
"O baile vai correndo solto a noite inteira
Começa cedo e não tem hora pra acabar
Gente dançando só pelo prazer da dança
E outra só pelo prazer de se abraçar
O povo todo se diverte nessa festa
Que vai até o outro dia clarear
Quem já chegou acerta o passo nessa dança
Quem não chegou aperta o passo pra chegar
Casais dão passos soltos no salão inteiro
E um casalzinho quase não sai do lugar
Que tal um baile? alguém pergunta,eles respondem
o baile é bom, mas bom mesmo é namorar"
Começa cedo e não tem hora pra acabar
Gente dançando só pelo prazer da dança
E outra só pelo prazer de se abraçar
O povo todo se diverte nessa festa
Que vai até o outro dia clarear
Quem já chegou acerta o passo nessa dança
Quem não chegou aperta o passo pra chegar
Casais dão passos soltos no salão inteiro
E um casalzinho quase não sai do lugar
Que tal um baile? alguém pergunta,eles respondem
o baile é bom, mas bom mesmo é namorar"
Vez ou outra meu vô pede pra minha vó colocar uma musiquinha. Ela mesma conta que "Hermes de vez em quando assim, quando tamo aqui, ele fala 'Ô Nega, põe uma musiquinha aí, eu gosto de ver você alegre, dançando, cantando' ". Ela inicia um CD e faz a casa se energizar toda, duma alegria, dum bom humor. E ele se diverte. Ficamos numa noite dessas assistindo o DVD do Antenor Nunes ao vivo em Lagarto, SE. Quando chega numa música chamada "Filotando" só faltamos rolar no chão de rir. O Antenor conta que um cabra só vai no forró onde a Filó tá. Se a Filó não estiver, ele não fica. Mas, "Filó tando no forró eu danço até o sol raiar". Meu avô dançava mais novo nos bailinhos. E me disse ainda antes de ontem que ia dançar. Era comemoração de seus 75 anos, recentemente completados em 28 de agosto, sendo véspera dessa data o dia dos meus 19 anos feitos.
Sobre poder assoprar as velinhas juntos, que conste: hoje eu só desejo ouvir mais uma infinidade de músicas desses artistas nascidos do sertão, como o poeta Antenor, e tantos outros de um espírito e uma musicalidade de raiz nos nossos ambientes de origem próxima, com meu avô, minha avó, uma tigela de amendoim sem sal, e nenhum relógio por perto, pra continuarmos rindo esquecendo de ir dormir.

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