quarta-feira, 5 de agosto de 2015

HERMES DAMACENO (parte II)

Quando meu vô decidiu se casar, voltou pra Bahia pra passar um tempo com sua mãe na intenção de voltar de lá pra São Paulo já 'esposado'. Ele pedia pra deus que conseguisse esconder sua origem, pedia pra que a natureza de onde ele veio nunca fosse descoberta pela família que ia constituir. Seus tios, primos, e o próprio pai, eram todos insensíveis demais, geniosos demais, vingativos, individualistas, distantes uns dos outros. Meu vô sempre foi e é muito atencioso, sempre fez e faz por merecer a gratidão de terceiros. Não foi diferente no casamento. Ele e seu irmão Miguel sempre deram valor a união familiar, aos ensinamentos, e a observação das coisas, especialmente meu vô, um observador nato, desde que nasceu. Os dois são os mais distinguíveis do restante da família.  Pois é, ele pedia pra deus pra não ser como sua gente. E se uniu a um povo caloroso, que festeja, abraça e almoça junto: a família da minha vó deve ser a mais receptiva que conheço. Provavelmente é. Ele casou, trouxe ela pra cá e não deixou de garantir que ela voltasse todo ano pra passar uns tempos no meio das irmãs. Começaram a vida conjugal em São Paulo, morando na Cidade Ademar, zona sul.
Quando o calendário apontou o ano de 1969, meu vô já tinha rondado tudo enquanto é lugar do município buscando terreno. E fincou bandeira no lugar onde nasci, onde dei meus primeiros passos (ou quase primeiros, porque minha vó diz que comecei a andar pouco antes, em Itamira, numa viagem nossa). Ele já tinha montes de areia e pedras pra construção dar início, quando interrompeu os projetos por conta da morte de seu pai. O Velho, quanto mais velho, ficou um frequentador razoável da casa do meu avô, que já tinha aí sua primeira filha, batizada pelas avós materna e paterna numa das idas de minha vó pra sua terra. Religiosamente, meu vô embarcava a esposa de ano em ano pra Itamira, e assim sua mãe conheceu a neta. E naquele ano mesmo, sua mãe teve que vir pra São Paulo, fazer uns tratamentos. Teve complicações de saúde, algo no útero, ou qualquer coisa que tenha lhe dado um aumento no volume do seu abdômen, meio parecido com "barriga d'água". Pois foi assim que se cumpriu uma certa profecia, porque meu avô ainda jovem lá em Itamira em conversas com uma senhora de parentesco distante, cujo assunto era a separação de seus pais (ou abandono de seu pai), ouviu dessa mulher que seus pais ainda haviam de se encarar e apertariam as mãos, antes que deus chamasse um dos dois. E minha bisavó esteve aqui hospedada junto ao filho e a nora por cerca de um mês, enquanto passava por acompanhamento médico. Pois nesse aproximadamente um mês, o marido que foi embora pra São Paulo ia vê-la, perguntava como é que estavam as dores, se houve melhoras. E depois ia pra sua casa, onde tinha a mulher a esperá-lo. Minha bisavó esteve melhor, os tratamentos concluíram, e ela saiu daqui rumo à Bahia de novo num domingo. Na quinta-feira seguinte, meu bisavô faleceu. Meu avô escreveu pra ela uma carta, que levou como fecho do envelope duas tiras finas de fita isolante grudadas em formato de cruz. E em sua casa, minha bisavó recebeu aquela carta vinda de São Paulo, com uma cruz pregada, e meu vô sente e sabe que ela pensou "Pois saí de lá nesse instante, e deixei todos bem. O que é que sucedeu?". Falecido em 1969, o Tal, o progenitor, o distante, de coração raso, poucas palavras, uma ou outra dica de construção, e uma ou outra visita na parte da tarde, agora envelhecido, deixando  pro mundo três filhos, uma ex-esposa que segurou (e com toda firmeza) a criação desses filhos sozinha, e uma outra mulher no teto que aqui teve. O que quer que tenha passado com os compadres, os camaradas, as outras mulheres, com o que pensava das coisas do mundo e o que sentia, morreu também, junto a sua finitude. Mas à parte de eternidade que lhe cabia, essa é marca firme que vive e me conta história. É meu vô. E é também o meu sangue.

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