domingo, 30 de agosto de 2015

HERMES DAMACENO (parte III)

Num dia desses meu vô comentou, numa conversa qualquer sobre música, que havia muito tempo em que ouvira um trecho de música do Roberto Carlos. Sabia que era dele, mas não conhecia a música. Gostou muito do que ouviu. Procurou discos e foi atrás de tentar ouvir a música de novo. Não conseguiu. Percebeu que se tratava de uma canção mais antiga. Eu não ouço o "rei", não podia contribuir muito, mas pedi pra ele me mostrar um trecho. Disse que ia procurar a música. Ele falou que gostou muito, que a música falava de um contexto que fazia-o se lembrar das festas de quando era mais novo. Ele queria me mostrar a parte da letra que lembrava, começava a cantar e se interrompia pra dizer que não tem "o tom". Eu ria e insistia pra ele continuar, dizia que tudo bem, era só pra eu achar a música. Estava com o celular na mão. Ele cantou algo como "quem chega fica no passo dessa dança, e quem não chegou quer vir dançar", algo assim. A música é "O Baile da Fazenda", de 1998. Meu vô disse que nunca mais tinha conseguido ouvir, estava passando em algum lugar do mundo e tocava a tal música. Digitei o trecho que ele me mostrou acompanhado do nome do rei. Play no Youtube. Começou a tocar. "É essa vô?" Ele ficou admirado com os avanços da tecnologia, com a nossa acessibilidade e a facilidade de pesquisar e encontrar. "Mas, olha, essa menina achou assim rápido". De outras conversas nossas já concluímos que é assustador o ritmo com que a humanidade desenvolve coisas, e estrutura preconceitos e desigualdades pra manter esse ritmo. A música traz as estrofes:

"O baile vai correndo solto a noite inteira
Começa cedo e não tem hora pra acabar
Gente dançando só pelo prazer da dança
E outra só pelo prazer de se abraçar

O povo todo se diverte nessa festa
Que vai até o outro dia clarear
Quem já chegou acerta o passo nessa dança
Quem não chegou aperta o passo pra chegar

Casais dão passos soltos no salão inteiro
E um casalzinho quase não sai do lugar
Que tal um baile? alguém pergunta,eles respondem
baile é bom, mas bom mesmo é namorar"

Vez ou outra meu vô pede pra minha vó colocar uma musiquinha. Ela mesma conta que "Hermes de vez em quando assim, quando tamo aqui, ele fala 'Ô Nega, põe uma musiquinha aí, eu gosto de ver você alegre, dançando, cantando' ". Ela inicia um CD e faz a casa se energizar toda, duma alegria, dum bom humor. E ele se diverte. Ficamos numa noite dessas assistindo o DVD do Antenor Nunes ao vivo em Lagarto, SE. Quando chega numa música chamada "Filotando" só faltamos rolar no chão de rir. O Antenor conta que um cabra só vai no forró onde a Filó tá. Se a Filó não estiver, ele não fica. Mas, "Filó tando no forró eu danço até o sol raiar". Meu avô dançava mais novo nos bailinhos. E me disse ainda antes de ontem que ia dançar. Era comemoração de seus 75 anos, recentemente completados em 28 de agosto, sendo véspera dessa data o dia dos meus 19 anos feitos. 

Sobre poder assoprar as velinhas juntos, que conste: hoje eu só desejo ouvir mais uma infinidade de músicas desses artistas nascidos do sertão, como o poeta Antenor, e tantos outros de um espírito e uma musicalidade de raiz nos nossos ambientes de origem próxima, com meu avô, minha avó, uma tigela de amendoim sem sal, e nenhum relógio por perto, pra continuarmos rindo esquecendo de ir dormir.




sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Ano passado

Talvez hoje tenhamos entendido um pouco mais sobre o que somos e pretendemos fazer. Até que é plausível chegarmos a um acordo de paz. Essa não é uma paz vibrante. É concisa, quieta e tranquila. É comportada, nos moldes da boa convivência. É madura e eficaz. É assim que é. Contrária a qualquer beijo desesperado, a qualquer corpo suado, trêmulo de gozo, a qualquer carícia forte. Não sei onde é que se guarda o autocontrole, mas seja lá qual for o recanto de consciência que abrigue a repressão das nossas vontades mais íntimas, nós nunca as guardamos. Fizemos diferente por alguns anos. Nós as escondemos. Conseguimos fazer de conta que a ética e as normas de etiqueta eram filosofias alheias ao que vivíamos. Mas agora, arrumamos um espaço pra deixar nossa representação social visível mesmo em quatro paredes. Então, sobre a paz, serenidade. Sobre a viagem nova, uma mala grande. Sobre toda mudança... ora, expansão de si, por favor. Não contaremos com o acaso, como costumava ser. Agora nós escolhemos. E hoje escolhemos a nossa paz.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

É tiro

Atira.
É tiro!
Atira!!!
Eu atiro,
e tiro
Tira?
Tiro.
O que tira?
A tira.
Tira?
A tira de pano
Você rasgou toda
Quando me atirou.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

HERMES DAMACENO (parte II)

Quando meu vô decidiu se casar, voltou pra Bahia pra passar um tempo com sua mãe na intenção de voltar de lá pra São Paulo já 'esposado'. Ele pedia pra deus que conseguisse esconder sua origem, pedia pra que a natureza de onde ele veio nunca fosse descoberta pela família que ia constituir. Seus tios, primos, e o próprio pai, eram todos insensíveis demais, geniosos demais, vingativos, individualistas, distantes uns dos outros. Meu vô sempre foi e é muito atencioso, sempre fez e faz por merecer a gratidão de terceiros. Não foi diferente no casamento. Ele e seu irmão Miguel sempre deram valor a união familiar, aos ensinamentos, e a observação das coisas, especialmente meu vô, um observador nato, desde que nasceu. Os dois são os mais distinguíveis do restante da família.  Pois é, ele pedia pra deus pra não ser como sua gente. E se uniu a um povo caloroso, que festeja, abraça e almoça junto: a família da minha vó deve ser a mais receptiva que conheço. Provavelmente é. Ele casou, trouxe ela pra cá e não deixou de garantir que ela voltasse todo ano pra passar uns tempos no meio das irmãs. Começaram a vida conjugal em São Paulo, morando na Cidade Ademar, zona sul.
Quando o calendário apontou o ano de 1969, meu vô já tinha rondado tudo enquanto é lugar do município buscando terreno. E fincou bandeira no lugar onde nasci, onde dei meus primeiros passos (ou quase primeiros, porque minha vó diz que comecei a andar pouco antes, em Itamira, numa viagem nossa). Ele já tinha montes de areia e pedras pra construção dar início, quando interrompeu os projetos por conta da morte de seu pai. O Velho, quanto mais velho, ficou um frequentador razoável da casa do meu avô, que já tinha aí sua primeira filha, batizada pelas avós materna e paterna numa das idas de minha vó pra sua terra. Religiosamente, meu vô embarcava a esposa de ano em ano pra Itamira, e assim sua mãe conheceu a neta. E naquele ano mesmo, sua mãe teve que vir pra São Paulo, fazer uns tratamentos. Teve complicações de saúde, algo no útero, ou qualquer coisa que tenha lhe dado um aumento no volume do seu abdômen, meio parecido com "barriga d'água". Pois foi assim que se cumpriu uma certa profecia, porque meu avô ainda jovem lá em Itamira em conversas com uma senhora de parentesco distante, cujo assunto era a separação de seus pais (ou abandono de seu pai), ouviu dessa mulher que seus pais ainda haviam de se encarar e apertariam as mãos, antes que deus chamasse um dos dois. E minha bisavó esteve aqui hospedada junto ao filho e a nora por cerca de um mês, enquanto passava por acompanhamento médico. Pois nesse aproximadamente um mês, o marido que foi embora pra São Paulo ia vê-la, perguntava como é que estavam as dores, se houve melhoras. E depois ia pra sua casa, onde tinha a mulher a esperá-lo. Minha bisavó esteve melhor, os tratamentos concluíram, e ela saiu daqui rumo à Bahia de novo num domingo. Na quinta-feira seguinte, meu bisavô faleceu. Meu avô escreveu pra ela uma carta, que levou como fecho do envelope duas tiras finas de fita isolante grudadas em formato de cruz. E em sua casa, minha bisavó recebeu aquela carta vinda de São Paulo, com uma cruz pregada, e meu vô sente e sabe que ela pensou "Pois saí de lá nesse instante, e deixei todos bem. O que é que sucedeu?". Falecido em 1969, o Tal, o progenitor, o distante, de coração raso, poucas palavras, uma ou outra dica de construção, e uma ou outra visita na parte da tarde, agora envelhecido, deixando  pro mundo três filhos, uma ex-esposa que segurou (e com toda firmeza) a criação desses filhos sozinha, e uma outra mulher no teto que aqui teve. O que quer que tenha passado com os compadres, os camaradas, as outras mulheres, com o que pensava das coisas do mundo e o que sentia, morreu também, junto a sua finitude. Mas à parte de eternidade que lhe cabia, essa é marca firme que vive e me conta história. É meu vô. E é também o meu sangue.