quinta-feira, 4 de junho de 2015

HERMES DAMACENO (parte I)

Meu avô veio pra São Paulo pela primeira vez em 1958. A esperança era a mesma que é comum à maioria: "Vim fazer meu destino". A terra seca e o calor de Itamira nunca lhe deram uma perspectiva de futuro agradável. Aliás, "agradável" é um termo suave. Acho que ele não via vida no lugar onde nasceu. A ideia inicial era ficar alguns meses, trabalhando e fazendo dinheiro do seu suor. Chegou aqui, se instalou em um bairro nas proximidades do Jabaquara. O pai dele havia vindo pra cá antes. Ele nem o conhecia direito. Quando saiu da Bahia disse a sua mãe que ia pra São Paulo conhecer 'O Tal'. Quando o encontrou aqui, conversaram uma conversa de brucutus. Meu avô já me disse que o pai dele e nada eram a mesma coisa. Mas, o tal progenitor lhe ofereceu um lugar pra ficar. A casa era na beira de um córrego, e meu avô dormia com os ratos, literalmente. O pai dele chegou a oferecer um quarto onde ele morava, mas meu avô preferiu ficar só, em um canto pra ele apenas. Esse meu bisavô era pedreiro. Meu avô não tinha profissão. "Se você quiser eu posso te ensinar, não é fácil não, mas eu posso te ensinar e você pega o jeito". Foi assim que meu avô começou a suar pra ter o que comer, sozinho. Ele com ele, ele por ele, ele e deus. Levou uns cinco meses pra ele começar a fazer o serviço sem supervisão nem auxílio de ninguém. E daí em diante, passaram-se mais três anos pra fazer o dinheiro que precisava. Quando já tinham se somado uns dois anos e meio de labuta em São Paulo, seu irmão Alfredo também veio pra cá. Eles trabalharam juntos por um tempo. Mas o Alfredo era cabeça dura, mais "eu faço do meu jeito". Um dia meu avô acompanhava um trabalho dele. Ficou observando ele fazer um negócio meio torto (eles trabalhavam revestindo parede com pedras, fazendo aqueles desenhos naturais bonitos). Em um dado momento não se conteve e falou com o cabra. Sugeriu, aconselhou... O Alfredo ficou meio esquentado. E tocavam as coisas assim. Foram morando juntos aqui e moldando uma convivência de harmonia, na medida do possível, só que como homens feitos. Não eram mais crianças. O irmão mais novo, Miguel (que se parece um bocado com meu vô, só é uns três tons mais claro na cor, mas as feições são quase as mesmas), também veio pra cá. Se envolveu com as práticas da mercearia. Hoje esse meu tio avô vive lá na Bahia sem machucar uma madeira com um prego sequer. Passou tudo que aprendeu aos filhos e aos netos, e a rapaziada toda faz tudo quanto é móvel. Ele também teve que crescer suando só, do zero, vendendo seu trabalho nas feiras. E cresceu. Era o único marceneiro das redondezas lá em Itamira. Aprendeu em São Paulo, e voltou. Comprou terrenos e construiu casa para todos os filhos em seus casamentos. Moram todos na mesma rua. É praticamente a Rua dos Damaceno. O Alfredo, que era irmão do meio, faleceu antes que eu pudesse me lembrar dele. Só lembro do bigodão dele porque vi em foto.
Meu vô, quando recebeu o Alfredo aqui, já conseguia sustentar a ele próprio mais o irmão. O Miguel, no tempo que esteve aqui, morava em um bairro muito longe, eles quase não se viam. O Alfredo bebia bastante, saia com muitas mulheres. Sobre a bebida, na palavras do meu vô "Eles eram duma farra, o Alfredo e um primo nosso, que trabalhava junto de nós. Já eu, nunca fiz esse uso". Meu vô sempre foi muito sossegado com essas coisas e, talvez, um dos motivos que contribuíram pra isso tenha sido a posição de chefia que teve que assumir. Quando ele chegou aqui suas pretensões eram "fazer a vida". Ele ia trabalhar todos os dias, e na hora do almoço comia distante da peonada, pra não apresentar a marmita aos outros, com sua comida seca. Ficava quieto em seu canto. Várias vezes via o pai dele circular com uma moça daqui, e nunca entendeu o porquê de ele ter abandonado sua mãe, "uma mulher de muita fibra, de força, de garra", nas falas dele mesmo. Criou os filhos juntos, íntegra, firme, jamais estremeceu as estruturas da família. Acreditava nos valores que aprendeu, e fossem qual fossem, não os abandonou. Nunca abandonou nada.
Com três anos e meio de estadia em São Paulo, comprou passagem, deixou o Alfredo e o primo deles morando em sua casa aqui, e voltou pra Bahia. Encontrou e encarou a mãe dizendo "Sai pra voltar em cinco meses. Estou voltando com três anos e cinco".  Ele passou uns 30 dias lá e voltou pra cá mais uma vez. Não queria mais ficar em Itamira. Trabalhou nas roças que eles tinham, pegou na inchada de novo. A terra seca e vermelha continuava a mesma, o calor continuava o mesmo. Ele já preferia a garoa de São Paulo. Voltou. Ficou aqui mais um tempo, vivendo da sua arte, sim, sua arte, porque esse arranjo com pedras (rochas para os geólogos) decorativas nas paredes é um trabalho muito artístico pra nós. E daí a pouco, encasquetou com a ideia de arranjar a sua nega. Mais um tempo passado de trabalho em São Paulo, e tirou uma nova resolução. Disse ao Alfredo que ia pra Bahia pra voltar 'ajeitado com uma moça'.
A minha vó estava brincando de boneca com as irmãs sempre que meu vô chegava na casa dela pra namorar (relato dela mesma). Tinha 16 quando casou. O pai dela gostava muito do meu vô. E meu vô já era conhecido da família dela por uma série de qualidades, de bons valores pra um rapaz de Itamira. Tudo foi acertado dentro de três meses. Ele disse que ia 'esposar' (ele fala assim as vezes) e que levaria ela pra morar com ele em São Paulo. E a despedida da minha vó foi terrivelmente difícil, como era de se esperar.
Casaram. E meu vô retornou à São Paulo muito bem esposado.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Meu Primeiro Junho

Apaguei a luz. 
Pupilas dilatadas.
Pr'onde foi o medo? Passou!
Dilatei mais as pupilas, e a alma.
Dilatei para não ser de lata.
Não vou enferrujar.
Amei-me.
Pela primeira vez: Amei-me.
Rasguei meus velhos calendários
Empurrei a verdade pra mim
Eis-me! 
E aqui jaz quem já não sou.
Sou um instante de breu
De olhos fechados
Peito leve
Eu vou.