sábado, 28 de fevereiro de 2015

Bailarina

Uma mulher que eu conheci dizia que jamais viveu pra dançar, mas que dançava pra viver. Impressiona-me o fato de que ela foi a pessoa mais livre do mundo em um palco, e uma das mais reprimidas nos bastidores. Ela me dizia que sentia estar mais distante do chão quando dançava. Dizia que a dança é capaz de fazer o corpo flutuar. E dizia que quando a dança acabava, esperavam que ela ficasse presa, no chão. No colchão. Na cama. No limbo. Por baixo. Um dia ela me disse que poderia dançar sem que esperassem nada, sem que dissessem o que ela tem que fazer. Sem que tentassem deduzir quem ela era fora do palco. Me disse que não era uma mulher da vida que dança: ela era a dança viva num corpo de mulher. Disse que qualquer um pode dançar, pode fazer da dança seu jeito de manifestar-se no mundo. Disse que o palco era seu espaço de militância. Disse que quando dançava podia lutar pelo que acreditava. Disse que dançaria até seu último suspiro, pra nos mostrar que podia flutuar a vida inteira. Pra mostrar que podia fazer o que quiser... Que podia dançar pra sempre. Que podia escolher transfigurar seu corpo em arte e zelar por ele. E doá-lo ao verbo dançar, pra que fosse sempre uma mulher que dança num corpo que vive, ou um corpo de mulher que dançasse a vida.