Uma
mulher que eu conheci dizia que jamais viveu pra dançar, mas que dançava pra
viver. Impressiona-me o fato de que ela foi a pessoa mais livre do mundo em um
palco, e uma das mais reprimidas nos bastidores. Ela me dizia que sentia
estar mais distante do chão quando dançava. Dizia que a dança é capaz de fazer
o corpo flutuar. E dizia que quando a dança acabava, esperavam que ela ficasse
presa, no chão. No colchão. Na cama. No limbo. Por baixo. Um dia ela me disse
que poderia dançar sem que esperassem nada, sem que dissessem o que ela tem que
fazer. Sem que tentassem deduzir quem ela era fora do palco. Me disse que não
era uma mulher da vida que dança: ela era a dança viva num corpo de mulher. Disse
que qualquer um pode dançar, pode fazer da dança seu jeito de manifestar-se no
mundo. Disse que o palco era seu espaço de militância. Disse que quando dançava
podia lutar pelo que acreditava. Disse que dançaria até seu último suspiro, pra
nos mostrar que podia flutuar a vida inteira. Pra mostrar que podia fazer o que
quiser... Que podia dançar pra sempre. Que podia escolher transfigurar seu
corpo em arte e zelar por ele. E doá-lo ao verbo dançar, pra que fosse sempre
uma mulher que dança num corpo que vive, ou um corpo de mulher que dançasse a
vida.
