"Não ia nem pedir pra que houvesse um lanchinho mais gostoso, pra que houvesse um cheirinho melhor. Era só a sede mesmo. Eita, que essas mulheres não entenderam nada no que eu queria dizer, e fui expulso sem motivo, meu Sinhô. Crê nisso? Mas eu entendo. Na verdade, se eu fosse mulher teria medo de ficar perto de homem como eu. Uns colegas meus disseram há tempos que essa coisa de ficar tentando imaginar o que é que se passa na cabeça dos outros é uma babaquice, mas eu ainda acho fascinante. Houveram tantos doutores... tantos doutores, que ficavam tentando imaginar o que é que passava na minha, que tomei gosto, oras! A verdade é que apesar de não deixar de ser uma tentativa interessante, é irreal. Eu escondi meus motivos em um lugar de mim que nem eu mesmo tenho acesso. Já não posso explorar minha clemência, e não me importo não. Não mais. Aquelas conversas sobre minha infância, ou sobre minhas impressões vendo uma série de imagens abstratas num papel, de nada adiantaram. Eu sei porque quiseram me... me... me castrar! Minha mãe me dizia que eu ia ser único. E eu sou. E vou continuar sendo. Eu sei que caí em desuso. A inutilidade incomoda sim. Mas eu fui brilhante de um jeito que ninguém... que ninguém... que ninguém será! A genialidade é uma ideia relativa, e eu sei que fui um gênio dentro das minhas perspectivas. Eu nasci pra arquitetar planos. Sim, sim... Eu me afastaria de mim. Mas agora só o que tenho a abraçar é o meu próprio tórax. Tiraram de mim minha própria gravata. Essa coisa de arrependimento é muito cristã pro meu gosto. Não acredito nessa coisa que dizem, que é possível mudar um modo de vida a qualquer momento. Acredito que é possível mudar em algum momento, sim. Mas não em qualquer um, e não agora. Só que mulher vai continuar sendo mulher. E eu... eu não sou mais um homem".
A Poesia Dama Nômade
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Depoimento de um Bagual
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