sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Depoimento de um Bagual

"Não ia nem pedir pra que houvesse um lanchinho mais gostoso, pra que houvesse um cheirinho melhor. Era só a sede mesmo. Eita, que essas mulheres não entenderam nada no que eu queria dizer, e fui expulso sem motivo, meu Sinhô. Crê nisso? Mas eu entendo. Na verdade, se eu fosse mulher teria medo de ficar perto de homem como eu. Uns colegas meus disseram há tempos que essa coisa de ficar tentando imaginar o que é que se passa na cabeça dos outros é uma babaquice, mas eu ainda acho fascinante. Houveram tantos doutores... tantos doutores, que ficavam tentando imaginar o que é que passava na minha, que tomei gosto, oras! A verdade é que apesar de não deixar de ser uma tentativa interessante, é irreal. Eu escondi meus motivos em um lugar de mim que nem eu mesmo tenho acesso. Já não posso explorar minha clemência, e não me importo não. Não mais. Aquelas conversas sobre minha infância, ou sobre minhas impressões vendo uma série de imagens abstratas num papel, de nada adiantaram. Eu sei porque quiseram me... me... me castrar! Minha mãe me dizia que eu ia ser único. E eu sou. E vou continuar sendo. Eu sei que caí em desuso. A inutilidade incomoda sim. Mas eu fui brilhante de um jeito que ninguém... que ninguém... que ninguém será! A genialidade é uma ideia relativa, e eu sei que fui um gênio dentro das minhas perspectivas. Eu nasci pra arquitetar planos. Sim, sim... Eu me afastaria de mim. Mas agora só o que tenho a abraçar é o meu próprio tórax. Tiraram de mim minha própria gravata. Essa coisa de arrependimento é muito cristã pro meu gosto. Não acredito nessa coisa que dizem, que é possível mudar um modo de vida a qualquer momento. Acredito que é possível mudar em algum momento, sim. Mas não em qualquer um, e não agora. Só que mulher vai continuar sendo mulher. E eu... eu não sou mais um homem". 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Assenta a poeira

Não se preocupe com isso
Você não vai nem saber o que é
Vou tirar você daqui
Vou te por pra fora do meu universo
Não vou te dar nenhum verso
Vou fingir que não te vi
Não se envolva, deixe de abalos
Não grite, não chore.
Silêncio absoluto!
Silencia a tua espera
Que eu já tô indo embora.
Vou te por pra fora do meu beijo
Vou te tirar de mim.


sábado, 17 de janeiro de 2015

Mascaricidade

Eu tenho u'a certa vontade
De fazê u'as caridade
De sentir os que são de perto feliz
E os que são de longe, com saudade

Eu tenho u'a certa vaidade
Que não deixa eu revelá minha idade
Que é pra fazê de conta que fui eu que quis
Cultivar diante do espelho essa minha imagem

Eu tenho que protegê a tua virgindade
Que é pra entendê mais de privacidade
Pra desenrolá sua vinda de Assis
E não ter que ouvir certas barbaridade

Eu tenho em mim u'a certa maldade
Que num me arranca dessa calamidade
Que é fazê de conta que não fiz
Matá em ti, a minha bondade

Eu tenho comigo aqui u'a certa prosperidade
Que me deixa acomodada nessa cidade
Pra brincá de ter que pedir bis
Pra toda essa falta de verdade

Eu tenho pra mim que essa tua superioridade
É u'a mentira disfarçada de sacanagem
Veio se esconder da imperatriz
Só por não conseguir vivê  u'a certa irmandade.