terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Realize.

Não me satisfaz ainda a acomodação com que por vezes se escolhe aceitar que, quando damos o primeiro passo na direção contrária ao peso dos fardos que já nascemos carregando, todo um sistema de autodefesa da sociedade e do mundo se move pra nos fazer recuar o passo dado, e apagar a marca da pegada singela que deixamos como nossa iniciação a enxergar além dos cabrestos que nos cercam, sem rastro de qualquer escolha distinta, sem possibilidade de pisar de novo, sem que ninguém saiba que qualquer coisa diferente existiu. Mas se fazemos força e insistimos no passo, o sistema se articula com uma força à altura, e lida tão mal com a nossa vontade inconsequente de viver uma vida plena de seus próprios movimentos, que se desequilibra sozinho. No meio da transição entre absorver valores sem racionalizá-los e tomar ciência do nosso potencial de ser e de estar da forma que nos cabe melhor, nos damos conta de que todos os fundamentos que ditam como tudo deve ser são tão frágeis à mudanças, que recaem por si só diante de qualquer perturbação. E é exatamente por isso que a princípio a reação de repressão vem de uma investida tremenda de muita energia em prol de manter tudo dentro do sistema. Porque o próprio sistema sabe que se não abafar e conter qualquer início de movimento, nada mais segura, nada mais é capaz de reter, depois que já houver movimento. Isso porque é tão libertário agir plenamente, e agir plenamente não necessariamente significaria ir contra o sistema, mas visto que o sistema prefere manter padrões de valores ditados como certo e errado, e tradições que ferem o direito de ir e vir, não igualitários, e que não respeitam as individualidades cada qual com suas diferenças, por que sim, somos muito naturalmente diversos, é de se esperar que qualquer faísca de vida que ruma a se serpentear numa chama, acabe por incendiar o sistema, e isso porque a faísca é compreendida como um fogarel de afrontas. Num modelo em que certo é certo e errado é errado, qualquer proposta singela de, antes mesmo de negar o certo e o errado, simplesmente questionar por que o certo é certo e o errado é errado, já é um ataque brutal. Mas é preciso prevalecer sem se negar, a fim de que se descubra cada vez mais. E é na prevalência do ser que reside a fraqueza do opressor. Desse modo, a cada vez que há um novo reconhecimento de si e o impedimento de uma autonegação no mundo, há caminho no sentido de deixar o 'ser' ser sua própria causa incausada, ser seu próprio motor. E se somos rainhas e reis de nós mesmos, e de nossos ideias, e de nossas crenças, e de nossas escolhas, somos o que há de mais capacitado a se apropriar do tempo e do espaço pra viver, no universo inteiro, somos a nossa própria liberdade. 
Tenho cá guardada em mim a gratidão de poder partilhar isso, e por poder saber o que significa não estar sozinha pra carregar o peso moral de escolher racionalizar as correntes com as quais convivi. Tenho ainda a gratidão de ter uma coleção de pontos de luz, de portos seguros, manifestados na forma de seres humanos que caminham juntos, todos juntos, tudo numa coisa só. Porque é assim, só assim, que é possível fazer da coletividade o abrigo capaz de suster e de transbordar ainda mais a nossa liberdade. Emancipação não é um ato solitário. É junto, é nossa emancipação. Vamos nos realizar em nós!

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Rumo

Fica no alto
Eu gosto de ver daqui
E da sensação
De estar cada vez mais perto
Gosto de chegar
Mais perto

E que sorriso é esse?
Que coisa mais linda
Vi da primeira vez
Nem podia falar
Ia parecer maníaca demais
Mas vi

E guardei comigo a verdade
Por trás dessa imensidão
Que você tem nas retinas
Foi num dia qualquer
E as minhas pupilas
Dilataram
Quando eu te olhei

E esse castanho profundo
Fica do lado
Que na dúvida
Eu me guio em você
Até ficar no alto também
E ver castanho de frente

Fica no rosto
Que é no seu rosto
O lugar onde me confundo
E vira meu Norte
Poder te olhar
Sem qualquer bússola por perto

Fica aí, no alto
E sem direção
Porque não teve muito sentido
Mais um dia comum
Em que estava tudo
Tão mais lindo
Que o cotidiano

É daí mesmo
Foi essa mesma imagem
Que refletiu nessa tua íris
A figura da descoberta
De estarmos dentro de nós
O tempo todo
Te abriguei dentro do olhar

Me reconheci nos teus olhos
Eu cabia em você!
Me aponta esses dois enigmas
Que eu me sinto num desafio
De saber a direção
Foi você de novo

Os passos já eram nossos
Antes de sabermos
Fica aí no alto
Que é assim que eu dito
O nosso caminho
Deve ser esse o tal do rumo


domingo, 8 de novembro de 2015

Constantemente


E a gente apertou o botão de reinício, revoltados com os 3,50, olhando pro céu da janela apreciando a chuva... A gente fica cansado sim, muito cansado. Mas o ritmo desse modelo continua, e nós também continuamos, imersos, sendo engolidos ao mesmo tempo que tentamos naufragar numa ilha qualquer em que tudo seja diferente do que já nos saturou. Basta por hoje! Eles fecham escolas, e nós temos que continuar. A galera pede intervenção militar, e nós temos que continuar por nós e por eles. A gente vai pra rua pagando os tais 3,50 no mesmo inconforto diário, e grita, e caminha, e se dedica. Tiramos um tempo pra dedicar à indignação com a redução da maioridade penal, e não paramos, continuamos. A gente até percebe o quanto podemos estar errados no fim sobre as nossas próprias convicções, mas concordar em sermos desumanos, isso não queremos. Queremos um gole d'água pra nos preparar pra próxima. Só que água não tem não! Tem gestão, e isso não significou água até agora.
Vão fechar a escola que eu estudei também... Isso aperta muito, é de desesperançar.
O noticiário nos trouxe a nova: Rompimento das barragens em Mariana, a lama deixa a gente literalmente onde por vezes já estamos. E em seguida, só pra nos banhar de mais doses de ironia, atenta para o fato da necessidade de mais policiamento no Morumbi, dizendo que os condomínios são praticamente obrigados a ter piscina porque os moradores não tem direito de ir e vir, não tem segurança pra ir se quer ao clube.
Não é maluquice buscar rotas alternativas, a falta de sanidade está em continuar onde já estamos. E as coisas que são boas são, se não proporcionalmente, até mais intensas que as angustiantes. Nosso jeito de encarar tudo deve ter um papel muito mais significativo do que o que achamos. O jeito de lidar faz diferença sim, e a gente ainda consegue ser feliz no mundo como está. Imagine se a história fosse outra.. Outra qualquer que fosse, só menos agressiva a nós mesmos. A gente transbordaria luz!
E continua o assédio, mas continua o respeito. E continuam as torturas socialmente construídas, mas continua o desprendimento de preconceito. E continua a vida e suas formas, evoluindo em ritmos diferentes. E se temos a violência e também a opção de paz, a justificativa é completamente válida e suficiente pra optar pela paz a medida que afirmamos "porque eu escolhi".
A evolução das questões sociais também tem tempos de adaptação distintos, será que vai dar tempo de sobreviver? E de finalmente fazer mais que isso e viver?
E se a gente começasse a negar abraços em um tempo como esse? Não, não, que os abraços continuem, que as nossas trocas continuem, que pessoas que amam momentos continuem, e que a luta continue.
Que a gente se compreenda e se perceba numa rede só.
Que a vida possa ser um dia, mais!

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O casal "casaumentou", e o casório diminuiu.

Tínhamos decidido que hoje
Era o seu dia de lavar a louça
Lembra que já havia um tempo
E eu já sabia que ia ficar com você,
Quando nós achamos que ia dar
Pra ficar vivendo a vida num mergulho
Pra conviver sempre dentro
De uma lua de mel,
E você me fez a proposta.
Achei que pra dividir lembranças
E construir momentos
Tudo tivesse que ser a dois.
Foi você quem deu a entender
Que felicidade era só uma questão de interpretar.
E quando decidimos juntos
Que a casa devia ser maior
Pra caber todas as nossas extravagâncias,
Fomos aos poucos esquecendo
De continuar juntos, com tanto espaço pra se perder.
A cama é maior agora
Mas nunca a trocamos.
Tem mais espaços vazios.
Trocamos sim,
Os pratos, as cortinas, a mão que segura o controle remoto
O seu canal preferido. E o meu fogão!
Agora ele é seu.
A centrífuga e o ferro de passar também são.
Queria dar um recado, sobre a última noite
Que eu deixei de dormir direito pra te esperar chegar
E ter a casa arrumada
A filha num recanto bom
Sua roupa, sua comida, e o cheiro bom que vem sentir em mim
Faz tempo que planejei tantas coisas,
E já que não tenho plano nenhum agora
Depois de passar dias e dias da vida que escolhemos
Minha vontade de realizar meus sentimentos
Ainda é viva
Fortemente viva.
Deixe a louça pra lá
Estou te liberando desse contrato
Já não importa se é meu dia ou o seu
Dos acordos que esperei sem retorno
E das vezes todas que não tive resposta
Das inúmeras promessas eternamente efêmeras
Só guardo a culpa de não ter feito
Tudo o que tive vontade de fazer por mim
Porque desde que eu vi minha filha triste
E me dei conta de que sou capaz de dar a ela o melhor abraço do mundo
Fiquei feliz comigo mesma e me abracei
E não senti falta de todos os abraços que não tive
Tive sim a vontade, de abraçar-me mais!
E de abraçar o mundo grande.
Meus braços são maiores ainda
Eles podem dar duas voltas no globo.
Eu só demorei um pouco pra perceber
Que não adianta negar ao corpo
Aquilo que ele pede
E meu corpo quer mais.
Não quero dessa vida uma tampa de caneta perdida
Só minha palheta que caiu atrás do sofá há dois anos
Por que foi que eu nunca a peguei?
Não, não, vem cá minha cara
Que saudade de tocar.
Você é que devia ter varrido aquele canto
Eu a teria de volta logo... mas já passou.
E também deveria ter cozinhado todas as quintas
Porque chegava mais cedo
E feito qualquer coisa pra que eu não sentisse
Que a vida estava parada
Me recusei a sentir!
Não há estado mais móvel que esse,
Essa graça de poder estar viva
Sustenta a nossa força
De querer viver.
E eu me rendo à vida hoje.
Minha filha é uma jovem
E espero que ela goste da vida
Pra não se abandonar nunca.
E se esse casamento
Aumentou a nossa casa um dia
Que ela possa ver
Tudo que de mim não pude diminuir
Pra deixar de ser
Aquilo que jamais fui.



quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Quando me apontaram "A doente"

Um paciente quer saber quanto tempo deve esperar pra marcar o próximo encontro com alguém. O tempo mais “ideal” pra que as impressões do último momento fossem embora ou ficassem guardadas em algum lugar da memória suficientemente fundo, de uma profundidade que impedisse qualquer resquício da ideia de continuar a interação de onde haviam parado, pra que qualquer possível início não viesse à tona.
Início de quê mesmo?

O Ministério da Saúde adverte: é altamente perigoso ao sistema nervoso e ao músculo cardíaco impedir o fluxo natural das trocas entre pessoas.
Os sintomas? Repressão da vontade de estar com alguém, anulação de si, desistência.
Em caso de sintomas, consulte a si mesmo.

 Formas de precaução: Evite evitar em excesso; não carregue o peso da culpa de não ter o mesmo interesse pelo outro; mantenha-se longe de exposição a papeis sociais que não são seus; tome duas doses diárias de auto reconhecimento (possíveis efeitos colaterais: sensação de descoberta de seus próprios sentimentos); jamais reflita traumas de experiências passadas sobre pessoas de contextos diferentes às essas; certifique-se de que não está reduzindo sua própria capacidade de sentir por outras pessoas bons sentimentos.

AVISO: qualquer sensação de segurança de si e de melhor administração de seus sentimentos, bem como o estabelecimento de critérios de seleção sobre aquilo que é aparentemente bem-vindo e aquilo que não é, são esperados.

Recomendações: Existem tratamentos mais específicos para o afastamento deliberado pelo paciente de quaisquer pessoas, inclusive das que são um bem ao mesmo. Os últimos estudos apontam que o paciente, ao manter essa distância entre si mesmo e os outros, tem uma percepção que lhe permite sentir segurança, autocontrole, e imunidade a envolvimentos mais intensos. A sensação de estar vulnerável às influências de humor provenientes de outras pessoas pode ser extremamente desesperadora ao paciente. Em casos mais extremos, já foram registrados depoimentos em que o paciente chegou a descrever a possibilidade de envolvimento com alguém como sendo algo que esse alguém esperava, já pré-supunha, e foram precisos meses de tratamento, até que o paciente compreendesse que as necessidades do outro se resumiam ao momento em que estiveram juntos e só. Em tais casos é recomendado que as outras pessoas deixem claro ao paciente, através da prática de uma técnica conhecida como “fala”, quais são suas intenções. Um fenômeno muito recorrente é a ideia de que o avanço e/ou investimento de tempo em qualquer relação vá acabar tornando-a um contrato social não desejado. Existem algumas medidas que podem ser aplicadas nesses casos, como ingerir doses de leveza e tranqüilidade. O uso sincero de expressões como “Relaxa aí meu bem”, ou “Menos querido, menos” já foi constatado como método de eficiência no tratamento.


ATENÇÃO: nos estágios finais da recuperação do paciente, quando esse já apresenta menos stress, mais calma, e um domínio maior da capacidade de aproveitar bons momentos com mais simplicidade, atentar para o uso da camisinha.  

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Resumo

Familiar.
Repetindo.
Bis.
Confiança.
Confissão.
Conselho.
Amizade.
Almoço.
Sobremesa.
Chuva.
Frio.
Molhar.
Caminhar.
Aproximação.
Abraço.
Aconchego.
Vontade.
Espera.
Ambiente.
Trabalhos.
Concentração.
Exposição.
Visita.
Descoberta.
Bem-vindo.
Embora.
Lugar.
E chuva.
Beijo.
Parada.
Beijo.
Desejo.
Repetindo.
Bis.
Escolha.
Esconderijo.
Abrigo.
Frio.
Abraço.
Quente.
Compartilhar.
Prosa.
Relação.
Culpabilidade.
Relatos.
Receios.
Futuro.
Questionamento.
Sofrimento?
Não.
Agradabilidade.
Agradabilíssimo.
Bis.
Leve.
Dilatar.
Expansão.
Mais prosa.
Sexo.
Investigação.
Conhecimento.
Prazer.
Falar.
Curiosidade.
Compreensão.
Esclarecer.
Melhoria.
Convite.
Decisão.
Logística.
Tempo.
Fome.
Partida.
Café.
Sono.
Chuveiro.
Quente.
Água.
Quente.
Cama.
Quente.

Noite.
Fim.

domingo, 11 de outubro de 2015

Não me desabraça.

Por mais que pareça que nosso jeito de escolher viver não caiba nesse mundo, nada, absolutamente nada, deve parecer imutável. E se não fossem as pessoas que tem vontade de vida, que não se abandonam no mundo, que não recuam e caem sobre si mesmas, desacordando todos os dias e deixando de ser e de estar, essa história toda de haver humanidade na terra seria uma completa perda de tempo e energia. Mas evoluímos pra ser seres pensantes, passíveis de emoção, e deliberativos. O mundo só não é um lugar ideal porque, e ainda que salientar isso de forma tão resumida pareça uma afronta a complexidade da nossa existência, porque as pessoas se deixam, “se naufragam”. É preferível carregar o peso de tudo aquilo que deixamos de ser, do que ser de fato. Um autoabandono que não se “auto reconhece”. Se “auto ignora”, isso sim. Finge não se ver, não se perceber. E não só finge, se faz na mentira e se constrói numa verdade ilusória. E todos os dias não encaram o sentido de poder existir. Mas como nada deve parecer imutável, se desprender dessa cegueira e dessas correntes faz com que saibamos que somos tão grandes, mas tão grandes, que já não cabemos em nós. O corpo é pouco. O corpo é só o começo. O corpo é só um pedaço. Uma parte do espaço que podemos ocupar, porque ao escolhermos não nos abandonar, nós somos o universo inteiro. E conseguimos sustentar de um jeito mais simples toda a complexidade das relações que nos circundam e nos compõem, porque o universo é isso: é a soma das interações desde seu início até agora. E quando percebemos que somos também o universo, percebemos que podemos ser mais, atemporais, transcendentais de nós e do espaço. E nós somos então o nosso espaço, somos quem nos delimita, somos do tamanho que podemos escolher ser. E enquanto esse mundo continua estando como está, cada emancipação vai sofrer repressão, até que a emancipação seja o alicerce do novo mundo. Não desamparar, não se desabraçar. Não me desabraça. 

domingo, 30 de agosto de 2015

HERMES DAMACENO (parte III)

Num dia desses meu vô comentou, numa conversa qualquer sobre música, que havia muito tempo em que ouvira um trecho de música do Roberto Carlos. Sabia que era dele, mas não conhecia a música. Gostou muito do que ouviu. Procurou discos e foi atrás de tentar ouvir a música de novo. Não conseguiu. Percebeu que se tratava de uma canção mais antiga. Eu não ouço o "rei", não podia contribuir muito, mas pedi pra ele me mostrar um trecho. Disse que ia procurar a música. Ele falou que gostou muito, que a música falava de um contexto que fazia-o se lembrar das festas de quando era mais novo. Ele queria me mostrar a parte da letra que lembrava, começava a cantar e se interrompia pra dizer que não tem "o tom". Eu ria e insistia pra ele continuar, dizia que tudo bem, era só pra eu achar a música. Estava com o celular na mão. Ele cantou algo como "quem chega fica no passo dessa dança, e quem não chegou quer vir dançar", algo assim. A música é "O Baile da Fazenda", de 1998. Meu vô disse que nunca mais tinha conseguido ouvir, estava passando em algum lugar do mundo e tocava a tal música. Digitei o trecho que ele me mostrou acompanhado do nome do rei. Play no Youtube. Começou a tocar. "É essa vô?" Ele ficou admirado com os avanços da tecnologia, com a nossa acessibilidade e a facilidade de pesquisar e encontrar. "Mas, olha, essa menina achou assim rápido". De outras conversas nossas já concluímos que é assustador o ritmo com que a humanidade desenvolve coisas, e estrutura preconceitos e desigualdades pra manter esse ritmo. A música traz as estrofes:

"O baile vai correndo solto a noite inteira
Começa cedo e não tem hora pra acabar
Gente dançando só pelo prazer da dança
E outra só pelo prazer de se abraçar

O povo todo se diverte nessa festa
Que vai até o outro dia clarear
Quem já chegou acerta o passo nessa dança
Quem não chegou aperta o passo pra chegar

Casais dão passos soltos no salão inteiro
E um casalzinho quase não sai do lugar
Que tal um baile? alguém pergunta,eles respondem
baile é bom, mas bom mesmo é namorar"

Vez ou outra meu vô pede pra minha vó colocar uma musiquinha. Ela mesma conta que "Hermes de vez em quando assim, quando tamo aqui, ele fala 'Ô Nega, põe uma musiquinha aí, eu gosto de ver você alegre, dançando, cantando' ". Ela inicia um CD e faz a casa se energizar toda, duma alegria, dum bom humor. E ele se diverte. Ficamos numa noite dessas assistindo o DVD do Antenor Nunes ao vivo em Lagarto, SE. Quando chega numa música chamada "Filotando" só faltamos rolar no chão de rir. O Antenor conta que um cabra só vai no forró onde a Filó tá. Se a Filó não estiver, ele não fica. Mas, "Filó tando no forró eu danço até o sol raiar". Meu avô dançava mais novo nos bailinhos. E me disse ainda antes de ontem que ia dançar. Era comemoração de seus 75 anos, recentemente completados em 28 de agosto, sendo véspera dessa data o dia dos meus 19 anos feitos. 

Sobre poder assoprar as velinhas juntos, que conste: hoje eu só desejo ouvir mais uma infinidade de músicas desses artistas nascidos do sertão, como o poeta Antenor, e tantos outros de um espírito e uma musicalidade de raiz nos nossos ambientes de origem próxima, com meu avô, minha avó, uma tigela de amendoim sem sal, e nenhum relógio por perto, pra continuarmos rindo esquecendo de ir dormir.




sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Ano passado

Talvez hoje tenhamos entendido um pouco mais sobre o que somos e pretendemos fazer. Até que é plausível chegarmos a um acordo de paz. Essa não é uma paz vibrante. É concisa, quieta e tranquila. É comportada, nos moldes da boa convivência. É madura e eficaz. É assim que é. Contrária a qualquer beijo desesperado, a qualquer corpo suado, trêmulo de gozo, a qualquer carícia forte. Não sei onde é que se guarda o autocontrole, mas seja lá qual for o recanto de consciência que abrigue a repressão das nossas vontades mais íntimas, nós nunca as guardamos. Fizemos diferente por alguns anos. Nós as escondemos. Conseguimos fazer de conta que a ética e as normas de etiqueta eram filosofias alheias ao que vivíamos. Mas agora, arrumamos um espaço pra deixar nossa representação social visível mesmo em quatro paredes. Então, sobre a paz, serenidade. Sobre a viagem nova, uma mala grande. Sobre toda mudança... ora, expansão de si, por favor. Não contaremos com o acaso, como costumava ser. Agora nós escolhemos. E hoje escolhemos a nossa paz.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

É tiro

Atira.
É tiro!
Atira!!!
Eu atiro,
e tiro
Tira?
Tiro.
O que tira?
A tira.
Tira?
A tira de pano
Você rasgou toda
Quando me atirou.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

HERMES DAMACENO (parte II)

Quando meu vô decidiu se casar, voltou pra Bahia pra passar um tempo com sua mãe na intenção de voltar de lá pra São Paulo já 'esposado'. Ele pedia pra deus que conseguisse esconder sua origem, pedia pra que a natureza de onde ele veio nunca fosse descoberta pela família que ia constituir. Seus tios, primos, e o próprio pai, eram todos insensíveis demais, geniosos demais, vingativos, individualistas, distantes uns dos outros. Meu vô sempre foi e é muito atencioso, sempre fez e faz por merecer a gratidão de terceiros. Não foi diferente no casamento. Ele e seu irmão Miguel sempre deram valor a união familiar, aos ensinamentos, e a observação das coisas, especialmente meu vô, um observador nato, desde que nasceu. Os dois são os mais distinguíveis do restante da família.  Pois é, ele pedia pra deus pra não ser como sua gente. E se uniu a um povo caloroso, que festeja, abraça e almoça junto: a família da minha vó deve ser a mais receptiva que conheço. Provavelmente é. Ele casou, trouxe ela pra cá e não deixou de garantir que ela voltasse todo ano pra passar uns tempos no meio das irmãs. Começaram a vida conjugal em São Paulo, morando na Cidade Ademar, zona sul.
Quando o calendário apontou o ano de 1969, meu vô já tinha rondado tudo enquanto é lugar do município buscando terreno. E fincou bandeira no lugar onde nasci, onde dei meus primeiros passos (ou quase primeiros, porque minha vó diz que comecei a andar pouco antes, em Itamira, numa viagem nossa). Ele já tinha montes de areia e pedras pra construção dar início, quando interrompeu os projetos por conta da morte de seu pai. O Velho, quanto mais velho, ficou um frequentador razoável da casa do meu avô, que já tinha aí sua primeira filha, batizada pelas avós materna e paterna numa das idas de minha vó pra sua terra. Religiosamente, meu vô embarcava a esposa de ano em ano pra Itamira, e assim sua mãe conheceu a neta. E naquele ano mesmo, sua mãe teve que vir pra São Paulo, fazer uns tratamentos. Teve complicações de saúde, algo no útero, ou qualquer coisa que tenha lhe dado um aumento no volume do seu abdômen, meio parecido com "barriga d'água". Pois foi assim que se cumpriu uma certa profecia, porque meu avô ainda jovem lá em Itamira em conversas com uma senhora de parentesco distante, cujo assunto era a separação de seus pais (ou abandono de seu pai), ouviu dessa mulher que seus pais ainda haviam de se encarar e apertariam as mãos, antes que deus chamasse um dos dois. E minha bisavó esteve aqui hospedada junto ao filho e a nora por cerca de um mês, enquanto passava por acompanhamento médico. Pois nesse aproximadamente um mês, o marido que foi embora pra São Paulo ia vê-la, perguntava como é que estavam as dores, se houve melhoras. E depois ia pra sua casa, onde tinha a mulher a esperá-lo. Minha bisavó esteve melhor, os tratamentos concluíram, e ela saiu daqui rumo à Bahia de novo num domingo. Na quinta-feira seguinte, meu bisavô faleceu. Meu avô escreveu pra ela uma carta, que levou como fecho do envelope duas tiras finas de fita isolante grudadas em formato de cruz. E em sua casa, minha bisavó recebeu aquela carta vinda de São Paulo, com uma cruz pregada, e meu vô sente e sabe que ela pensou "Pois saí de lá nesse instante, e deixei todos bem. O que é que sucedeu?". Falecido em 1969, o Tal, o progenitor, o distante, de coração raso, poucas palavras, uma ou outra dica de construção, e uma ou outra visita na parte da tarde, agora envelhecido, deixando  pro mundo três filhos, uma ex-esposa que segurou (e com toda firmeza) a criação desses filhos sozinha, e uma outra mulher no teto que aqui teve. O que quer que tenha passado com os compadres, os camaradas, as outras mulheres, com o que pensava das coisas do mundo e o que sentia, morreu também, junto a sua finitude. Mas à parte de eternidade que lhe cabia, essa é marca firme que vive e me conta história. É meu vô. E é também o meu sangue.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

HERMES DAMACENO (parte I)

Meu avô veio pra São Paulo pela primeira vez em 1958. A esperança era a mesma que é comum à maioria: "Vim fazer meu destino". A terra seca e o calor de Itamira nunca lhe deram uma perspectiva de futuro agradável. Aliás, "agradável" é um termo suave. Acho que ele não via vida no lugar onde nasceu. A ideia inicial era ficar alguns meses, trabalhando e fazendo dinheiro do seu suor. Chegou aqui, se instalou em um bairro nas proximidades do Jabaquara. O pai dele havia vindo pra cá antes. Ele nem o conhecia direito. Quando saiu da Bahia disse a sua mãe que ia pra São Paulo conhecer 'O Tal'. Quando o encontrou aqui, conversaram uma conversa de brucutus. Meu avô já me disse que o pai dele e nada eram a mesma coisa. Mas, o tal progenitor lhe ofereceu um lugar pra ficar. A casa era na beira de um córrego, e meu avô dormia com os ratos, literalmente. O pai dele chegou a oferecer um quarto onde ele morava, mas meu avô preferiu ficar só, em um canto pra ele apenas. Esse meu bisavô era pedreiro. Meu avô não tinha profissão. "Se você quiser eu posso te ensinar, não é fácil não, mas eu posso te ensinar e você pega o jeito". Foi assim que meu avô começou a suar pra ter o que comer, sozinho. Ele com ele, ele por ele, ele e deus. Levou uns cinco meses pra ele começar a fazer o serviço sem supervisão nem auxílio de ninguém. E daí em diante, passaram-se mais três anos pra fazer o dinheiro que precisava. Quando já tinham se somado uns dois anos e meio de labuta em São Paulo, seu irmão Alfredo também veio pra cá. Eles trabalharam juntos por um tempo. Mas o Alfredo era cabeça dura, mais "eu faço do meu jeito". Um dia meu avô acompanhava um trabalho dele. Ficou observando ele fazer um negócio meio torto (eles trabalhavam revestindo parede com pedras, fazendo aqueles desenhos naturais bonitos). Em um dado momento não se conteve e falou com o cabra. Sugeriu, aconselhou... O Alfredo ficou meio esquentado. E tocavam as coisas assim. Foram morando juntos aqui e moldando uma convivência de harmonia, na medida do possível, só que como homens feitos. Não eram mais crianças. O irmão mais novo, Miguel (que se parece um bocado com meu vô, só é uns três tons mais claro na cor, mas as feições são quase as mesmas), também veio pra cá. Se envolveu com as práticas da mercearia. Hoje esse meu tio avô vive lá na Bahia sem machucar uma madeira com um prego sequer. Passou tudo que aprendeu aos filhos e aos netos, e a rapaziada toda faz tudo quanto é móvel. Ele também teve que crescer suando só, do zero, vendendo seu trabalho nas feiras. E cresceu. Era o único marceneiro das redondezas lá em Itamira. Aprendeu em São Paulo, e voltou. Comprou terrenos e construiu casa para todos os filhos em seus casamentos. Moram todos na mesma rua. É praticamente a Rua dos Damaceno. O Alfredo, que era irmão do meio, faleceu antes que eu pudesse me lembrar dele. Só lembro do bigodão dele porque vi em foto.
Meu vô, quando recebeu o Alfredo aqui, já conseguia sustentar a ele próprio mais o irmão. O Miguel, no tempo que esteve aqui, morava em um bairro muito longe, eles quase não se viam. O Alfredo bebia bastante, saia com muitas mulheres. Sobre a bebida, na palavras do meu vô "Eles eram duma farra, o Alfredo e um primo nosso, que trabalhava junto de nós. Já eu, nunca fiz esse uso". Meu vô sempre foi muito sossegado com essas coisas e, talvez, um dos motivos que contribuíram pra isso tenha sido a posição de chefia que teve que assumir. Quando ele chegou aqui suas pretensões eram "fazer a vida". Ele ia trabalhar todos os dias, e na hora do almoço comia distante da peonada, pra não apresentar a marmita aos outros, com sua comida seca. Ficava quieto em seu canto. Várias vezes via o pai dele circular com uma moça daqui, e nunca entendeu o porquê de ele ter abandonado sua mãe, "uma mulher de muita fibra, de força, de garra", nas falas dele mesmo. Criou os filhos juntos, íntegra, firme, jamais estremeceu as estruturas da família. Acreditava nos valores que aprendeu, e fossem qual fossem, não os abandonou. Nunca abandonou nada.
Com três anos e meio de estadia em São Paulo, comprou passagem, deixou o Alfredo e o primo deles morando em sua casa aqui, e voltou pra Bahia. Encontrou e encarou a mãe dizendo "Sai pra voltar em cinco meses. Estou voltando com três anos e cinco".  Ele passou uns 30 dias lá e voltou pra cá mais uma vez. Não queria mais ficar em Itamira. Trabalhou nas roças que eles tinham, pegou na inchada de novo. A terra seca e vermelha continuava a mesma, o calor continuava o mesmo. Ele já preferia a garoa de São Paulo. Voltou. Ficou aqui mais um tempo, vivendo da sua arte, sim, sua arte, porque esse arranjo com pedras (rochas para os geólogos) decorativas nas paredes é um trabalho muito artístico pra nós. E daí a pouco, encasquetou com a ideia de arranjar a sua nega. Mais um tempo passado de trabalho em São Paulo, e tirou uma nova resolução. Disse ao Alfredo que ia pra Bahia pra voltar 'ajeitado com uma moça'.
A minha vó estava brincando de boneca com as irmãs sempre que meu vô chegava na casa dela pra namorar (relato dela mesma). Tinha 16 quando casou. O pai dela gostava muito do meu vô. E meu vô já era conhecido da família dela por uma série de qualidades, de bons valores pra um rapaz de Itamira. Tudo foi acertado dentro de três meses. Ele disse que ia 'esposar' (ele fala assim as vezes) e que levaria ela pra morar com ele em São Paulo. E a despedida da minha vó foi terrivelmente difícil, como era de se esperar.
Casaram. E meu vô retornou à São Paulo muito bem esposado.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Meu Primeiro Junho

Apaguei a luz. 
Pupilas dilatadas.
Pr'onde foi o medo? Passou!
Dilatei mais as pupilas, e a alma.
Dilatei para não ser de lata.
Não vou enferrujar.
Amei-me.
Pela primeira vez: Amei-me.
Rasguei meus velhos calendários
Empurrei a verdade pra mim
Eis-me! 
E aqui jaz quem já não sou.
Sou um instante de breu
De olhos fechados
Peito leve
Eu vou.


quinta-feira, 28 de maio de 2015

Pra acordar feliz

eita que essa energia boa
é gostosa demais
e eu bem queria dizer
que bem que queria estar
bem do seu ladim
pra ouvir cê dizer
que cê bem me quer
e pra saber bem
que quando essa energia boa é sua
é minha também.


domingo, 24 de maio de 2015

12hs30min

Leia 0hs00min


Calma amor, eu tenho pouco tempo pra pensar em nós. Tive menos tempo ainda pra pensar em mim. Eu sei amor, eu sei. Nas próximas horas eu deveria me lembrar de tudo. Mas é tão desgastante pensar a vida amor. Eu estava só vivendo. Não, não amor. Isso não significa que eu não tenha as mesmas impressões sobre nós, as mesmas dúvidas, a mesma vontade de definir o que somos. É que não investi tanto tempo pensando nisso, e agora você me vem com um prazo. Surpresa! Eu estou desnorteado amor. Achei que gostasse da nossa leveza, mas você ficou apavorada. Mas não faz mal. Venha, vamos nos sentar aqui, tudo bem? Nas próximas horas do dia seremos só você e eu. Agora nós podemos combinar assim: daremos trinta minutos ao nosso silêncio; depois, podemos investir mais trinta minutos tentando entender do que é que temos medo; mais trinta minutos pra eu sentir como você é importante pra mim; te dou agora trinta minutos, faça com eles o que quiser; depois, nós podemos usar mais trinta minutos pra tentar compreender porque nossa leveza é maravilhosa, e porque pra que ela continue a ser maravilhosa, precisamos nos fixar em algo. Muito bem meu amor, já se sente mais esclarecida? Eu me sinto! Vamos agora, pelos próximos trinta minutos pensar como estamos bem um sem o outro, e tentar entender nossa vontade de potencializar nossa alegria ficando juntos. Precisaremos de mais trinta minutos pra nos recuperar de um trauma esquecido, e pra não desfalecer na amargura de um bem perdido. Amor, nós somos mais agora. Você sabe que vamos ter que usar trinta minutos pra planejar uma auto organização nossa, certo?! Até porque se definimos o que somos já seremos mais que a essência: seremos amor leve. Em trinta minutos é possível compreender essa necessidade de sermos mais que isso? Já fomos uma vida inteira num segundo. Queremos mais amor?! Eu vou dedicar trinta minutos de luz à você, pra que os paradigmas que a nossa união corrompe não nos façam esquecer daquilo que somos de verdade. Somos amantes livres, meu amor, e somos leves. Que em nossa auto organização não nos esqueçamos disso. Porque eu só posso querer você trinta minutos por dia. Mais que isso é um abismo amor. Vou fazer assim: nos próximos trinta minutos avaliarei tudo aquilo a que me entrego e não quero abrir mão, e tudo aquilo de que eu abro mão sem ter que me entregar. Talvez trinta minutos depois eu ache a resposta amor. Nos próximos dias haverão mais minutos do que o de costume amor, pra que nós tenhamos mais tempo de não falar mentiras. Eu já entendi que quero ficar com você amor. Já entendi isso no primeiro segundo da nossa vida. Não precisaria de mais horas, só dos minutos que você vai levar pra ver que também está disposta a encarar o mundo comigo. Muito bem amor, muito bem. Que foi? Quer fazer uma pausa de trinta minutos? Sem problemas, eu espero. E esse desejo louco amor?! Acha que vai me beijar sem parar durante trinta minutos? Muito bem, eu aceito o desafio com você. Eu aceito o desafio com você até o fim desses trinta minutos. Agora, que nos próximos trinta minutos possamos finalmente pensar no que quisermos ser. E que nos trinta minutos que se seguirem, tenhamos clareza do que faremos com nossas vidas. Digo isso porque, ao fim desses mesmos trinta minutos, vou te propor uma reflexão de autoconhecimento, e você vai levar trinta minutos pra entender que ficaremos juntos por um tempo maior que trinta minutos amor. Pronto, tudo bem. Vamos embora? Já deu a hora meu amor, são só trinta minutos daqui até o altar.

domingo, 3 de maio de 2015

Um Dia Azul

É que me parece novo, sem sentido nem sensação
É que a cor é o que fica na memória
E nosso jeito de acreditar
Que escapamos da prisão
É o que nos faz transbordar em nós
De nós pra nós mesmas
Aquilo que somos de verdade

É que a verdade pode mudar
E se eu disser que hoje é azul
Não precisa não contrariar
É que a vontade de que esse seja
Mais um dia pra sermos só nós
É o que nos mantém
Tão vivas, e tão azuis

É que eu não podia deixar de falar
Mas me falta um tanto de razão
É melhor rir, e fugir, e olhar
É que se eu disser que é energia em transição
Que ela seja constante, do jeito que é,
Porque essa troca é ininterrupta.


sábado, 14 de março de 2015

Recanto

É uma pena que todo amor que eu venha a sentir 
não possa ser colorido assim, 
mas vale a pena desenhar suas penas, 
e deixar você num papel, pertim de mim. 
É bom saber que quando eu não souber mais escrever, 
ainda vão me restar os lápis de cor.
Sai voando, que eu fico com a lembrança do teu voo.



sábado, 28 de fevereiro de 2015

Bailarina

Uma mulher que eu conheci dizia que jamais viveu pra dançar, mas que dançava pra viver. Impressiona-me o fato de que ela foi a pessoa mais livre do mundo em um palco, e uma das mais reprimidas nos bastidores. Ela me dizia que sentia estar mais distante do chão quando dançava. Dizia que a dança é capaz de fazer o corpo flutuar. E dizia que quando a dança acabava, esperavam que ela ficasse presa, no chão. No colchão. Na cama. No limbo. Por baixo. Um dia ela me disse que poderia dançar sem que esperassem nada, sem que dissessem o que ela tem que fazer. Sem que tentassem deduzir quem ela era fora do palco. Me disse que não era uma mulher da vida que dança: ela era a dança viva num corpo de mulher. Disse que qualquer um pode dançar, pode fazer da dança seu jeito de manifestar-se no mundo. Disse que o palco era seu espaço de militância. Disse que quando dançava podia lutar pelo que acreditava. Disse que dançaria até seu último suspiro, pra nos mostrar que podia flutuar a vida inteira. Pra mostrar que podia fazer o que quiser... Que podia dançar pra sempre. Que podia escolher transfigurar seu corpo em arte e zelar por ele. E doá-lo ao verbo dançar, pra que fosse sempre uma mulher que dança num corpo que vive, ou um corpo de mulher que dançasse a vida.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Depoimento de um Bagual

"Não ia nem pedir pra que houvesse um lanchinho mais gostoso, pra que houvesse um cheirinho melhor. Era só a sede mesmo. Eita, que essas mulheres não entenderam nada no que eu queria dizer, e fui expulso sem motivo, meu Sinhô. Crê nisso? Mas eu entendo. Na verdade, se eu fosse mulher teria medo de ficar perto de homem como eu. Uns colegas meus disseram há tempos que essa coisa de ficar tentando imaginar o que é que se passa na cabeça dos outros é uma babaquice, mas eu ainda acho fascinante. Houveram tantos doutores... tantos doutores, que ficavam tentando imaginar o que é que passava na minha, que tomei gosto, oras! A verdade é que apesar de não deixar de ser uma tentativa interessante, é irreal. Eu escondi meus motivos em um lugar de mim que nem eu mesmo tenho acesso. Já não posso explorar minha clemência, e não me importo não. Não mais. Aquelas conversas sobre minha infância, ou sobre minhas impressões vendo uma série de imagens abstratas num papel, de nada adiantaram. Eu sei porque quiseram me... me... me castrar! Minha mãe me dizia que eu ia ser único. E eu sou. E vou continuar sendo. Eu sei que caí em desuso. A inutilidade incomoda sim. Mas eu fui brilhante de um jeito que ninguém... que ninguém... que ninguém será! A genialidade é uma ideia relativa, e eu sei que fui um gênio dentro das minhas perspectivas. Eu nasci pra arquitetar planos. Sim, sim... Eu me afastaria de mim. Mas agora só o que tenho a abraçar é o meu próprio tórax. Tiraram de mim minha própria gravata. Essa coisa de arrependimento é muito cristã pro meu gosto. Não acredito nessa coisa que dizem, que é possível mudar um modo de vida a qualquer momento. Acredito que é possível mudar em algum momento, sim. Mas não em qualquer um, e não agora. Só que mulher vai continuar sendo mulher. E eu... eu não sou mais um homem". 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Assenta a poeira

Não se preocupe com isso
Você não vai nem saber o que é
Vou tirar você daqui
Vou te por pra fora do meu universo
Não vou te dar nenhum verso
Vou fingir que não te vi
Não se envolva, deixe de abalos
Não grite, não chore.
Silêncio absoluto!
Silencia a tua espera
Que eu já tô indo embora.
Vou te por pra fora do meu beijo
Vou te tirar de mim.


sábado, 17 de janeiro de 2015

Mascaricidade

Eu tenho u'a certa vontade
De fazê u'as caridade
De sentir os que são de perto feliz
E os que são de longe, com saudade

Eu tenho u'a certa vaidade
Que não deixa eu revelá minha idade
Que é pra fazê de conta que fui eu que quis
Cultivar diante do espelho essa minha imagem

Eu tenho que protegê a tua virgindade
Que é pra entendê mais de privacidade
Pra desenrolá sua vinda de Assis
E não ter que ouvir certas barbaridade

Eu tenho em mim u'a certa maldade
Que num me arranca dessa calamidade
Que é fazê de conta que não fiz
Matá em ti, a minha bondade

Eu tenho comigo aqui u'a certa prosperidade
Que me deixa acomodada nessa cidade
Pra brincá de ter que pedir bis
Pra toda essa falta de verdade

Eu tenho pra mim que essa tua superioridade
É u'a mentira disfarçada de sacanagem
Veio se esconder da imperatriz
Só por não conseguir vivê  u'a certa irmandade.