Não me satisfaz ainda a acomodação com que por vezes se escolhe aceitar que, quando damos o primeiro passo na direção contrária ao peso dos fardos que já nascemos carregando, todo um sistema de autodefesa da sociedade e do mundo se move pra nos fazer recuar o passo dado, e apagar a marca da pegada singela que deixamos como nossa iniciação a enxergar além dos cabrestos que nos cercam, sem rastro de qualquer escolha distinta, sem possibilidade de pisar de novo, sem que ninguém saiba que qualquer coisa diferente existiu. Mas se fazemos força e insistimos no passo, o sistema se articula com uma força à altura, e lida tão mal com a nossa vontade inconsequente de viver uma vida plena de seus próprios movimentos, que se desequilibra sozinho. No meio da transição entre absorver valores sem racionalizá-los e tomar ciência do nosso potencial de ser e de estar da forma que nos cabe melhor, nos damos conta de que todos os fundamentos que ditam como tudo deve ser são tão frágeis à mudanças, que recaem por si só diante de qualquer perturbação. E é exatamente por isso que a princípio a reação de repressão vem de uma investida tremenda de muita energia em prol de manter tudo dentro do sistema. Porque o próprio sistema sabe que se não abafar e conter qualquer início de movimento, nada mais segura, nada mais é capaz de reter, depois que já houver movimento. Isso porque é tão libertário agir plenamente, e agir plenamente não necessariamente significaria ir contra o sistema, mas visto que o sistema prefere manter padrões de valores ditados como certo e errado, e tradições que ferem o direito de ir e vir, não igualitários, e que não respeitam as individualidades cada qual com suas diferenças, por que sim, somos muito naturalmente diversos, é de se esperar que qualquer faísca de vida que ruma a se serpentear numa chama, acabe por incendiar o sistema, e isso porque a faísca é compreendida como um fogarel de afrontas. Num modelo em que certo é certo e errado é errado, qualquer proposta singela de, antes mesmo de negar o certo e o errado, simplesmente questionar por que o certo é certo e o errado é errado, já é um ataque brutal. Mas é preciso prevalecer sem se negar, a fim de que se descubra cada vez mais. E é na prevalência do ser que reside a fraqueza do opressor. Desse modo, a cada vez que há um novo reconhecimento de si e o impedimento de uma autonegação no mundo, há caminho no sentido de deixar o 'ser' ser sua própria causa incausada, ser seu próprio motor. E se somos rainhas e reis de nós mesmos, e de nossos ideias, e de nossas crenças, e de nossas escolhas, somos o que há de mais capacitado a se apropriar do tempo e do espaço pra viver, no universo inteiro, somos a nossa própria liberdade.
Tenho cá guardada em mim a gratidão de poder partilhar isso, e por poder saber o que significa não estar sozinha pra carregar o peso moral de escolher racionalizar as correntes com as quais convivi. Tenho ainda a gratidão de ter uma coleção de pontos de luz, de portos seguros, manifestados na forma de seres humanos que caminham juntos, todos juntos, tudo numa coisa só. Porque é assim, só assim, que é possível fazer da coletividade o abrigo capaz de suster e de transbordar ainda mais a nossa liberdade. Emancipação não é um ato solitário. É junto, é nossa emancipação. Vamos nos realizar em nós!





