"A essas horas é um perigo andar sozinha", foi o primeiro pensamento que me veio à mente quando me deparei com a sensação de solidão, tanto de outras pessoas como da luz do dia. O ponto de ônibus estava vazio, a não ser por mim e, trinta minutos depois, por um morador de rua.Quando surgiram dois faróis na curva, quase agradeci em voz alta e, imediatamente, implorei aos céus pra que fosse o meu ônibus e eu não tivesse que ficar por mais tempo ali, com aquele indigente. Mas não era. E nessa hora, o mendigo disse que estava com fome.Antes mesmo de pensar em me afastar dele ou de temê-lo, percebi que ele não era o único. Quando tinha sido a última vez que comi? Não disse nada, mas ele começou a se aproximar. Senti o coração batendo mais rápido, preparando meu corpo para correr, mas não me movi. Esperei pelo cheiro naturalmente desagradável misturado ao de álcool. Quando abriu a boca sem dentes de novo, disse que seu pai tinha falecido e que estava enterrado no São Luis, túmulo 687. Disse que aconteceu quando ele estava preso. Não pôde vê-lo. Pediu dinheiro. Se eu desse, ele teria o que comer pela manhã. Se não, ficaria com fome por mais tempo. Ele contou que sabia que o viam como a doença da cidade, mas que queria viver ao lado de todos e garantir que ninguém achasse que ele fosse pegar alguma bolsa.
Dei uma nota de cinco reais a ele, sem pronunciar uma palavra. Para minha surpresa, ele estendeu a outra mão e me entregou um lenço que provavelmente um dia teria sido azul. Disse que foi de seu pai. E a essa altura eu já não o temia mais. Então ele se afastou, no mesmo instante em que enxerguei meu ônibus.
No dia seguinte deixei o lenço sobre o túmulo 687 do cemitério São Luis, cujo nome inscrito em um pequeno pedestal era José Antônio Batista. E às 23h44min, voltei ao mesmo ponto de ônibus. Não havia ninguém além de mim, mesmo depois de trinta minutos. Senti fome, mas não quis comer. Não temia mais a noite. E decidi que mais alguém ia ficar acordada na cidade, nas ruas, além de todos os filhos de Antônio Batista.
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