sexta-feira, 25 de julho de 2014

És pura perfeição, és natural.

Quem foi que definiu a perfeição?
Acho humanamente impossível ser humano e não ser perfeito. Até porque, às vezes, perfeição mais parece adequação a um certo contexto do que quaisquer conjuntos de características consideradas moralmente corretas e quase divinas se manifestando em um só ser.
As essências não podem ser imperfeitas. São definições. A existência não pode ser imperfeita. Ela preceda ou não a essência, existir é acontecer. E acontecimentos não são imperfeitos. São fatos. Os fatos são verdades nada perfeitas manipuladas e selecionadas por nossas memórias. Não há como deixar de esquecer e de lembrar. E somos assim perfeitos. Toda essa alegria, essa crueldade, essa tristeza, essa angústia, essa curiosidade, essa falta de sentimento, esse sentimentalismo excessivo, tudo é perfeito. Nunca fomos parâmetro de perfeição. Nós só fomos. Somos. Não há o que não seja perfeito, há o que esteja deslocado e fora de cena. As coisas são porque acontecem, porque existem, porque são literalmente essenciais. E por motivos que eu nunca saberei, algumas delas são muito exclusivas. Ninguém inventou a exclusividade. À perfeição tentaram dar mil designações, mas não pensaram o que a faz exclusiva e o que é que distingui uma perfeição de outra. Os cabelos negros e longos, os negros e curtos, os curtos e loiros, os loiros e mais que longos ou mais que curtos, os ruivíssimos, todos evidenciam perfeições distintas. Mas o quanto são perfeitos depende do valor que os olhos de quem observa lhes atribui, e isso não é algo mensurável. Que difícil e que simples seria dizer quão perfeitas são as pessoas. Gosto dos momentos que são perfeitos e que não posso dizer o quanto são, porque me fazem escrever. Mas escrever a perfeição das vidas que perambulam a minha vida é humanamente impossível, e é perfeito assim. Jamais quereria poder traduzir todas as perfeições na fala, nem mesmo na escrita. Porque há coisas que a arte captura, que a sensibilidade reproduz em nós, e que não são nunca ditas nem escritas. Faz parte da nossa perfeição não ter a capacidade de registrar tudo de modo racional. Que graça isso teria? A melhor parte da poesia são os versos que não foram escritos. Dentro da simplicidade cabe a ideia de não poder dizer tudo, mas de poder entender. O que não significa que entendamos tudo, e isso também faz parte da nossa perfeição. Tanta coisa deixada no ar, e ninguém vai saber, nem lembrar. Porque faz parte da perfeição conseguir conter em nós aquilo que nos cabe, à nossa essência. Não há como não ser exclusivo, porque a perfeição é um troço instável no mundo e em cada um dos seres. E origina assim a exclusividade. Há certas perfeições mais exclusivas que parecem ser fixadas no mundo pra que possamos apreciá-lo mais. Não há nada mais perfeito relativamente a nós que as coisas que podemos amar. Inevitavelmente criamos preferências por certas perfeições, e isso é o que há de mais natural em nossa essência.

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