sábado, 19 de abril de 2014

Um amigo não tão ideal

Seu problema é ser fofo demais, lindo demais, educado demais, e perfeito demais. Ninguém pode ser tão "na medida certa" o tempo todo. Tenho impressão de que quando sua máscara cair eu vou acabar ficando surpresa. Já te contei isso? Eu deixei de me surpreender com os outros de tão banal que foram ficando os absurdos. Mas você não quer ser comum. Inverteu minha visão e o banal agora é ser o ideal. Dá pra aguentar os primeiros minutos da sua raridade, e depois tudo é irritante demais: seu jeito de falar, sua voz aveludada, seus olhos penetrantes, seu cabelo caindo na testa, sua inteligência e sua vontade de descobrir. Por que todas as qualidades passaram a ser negativas em você? Talvez eu tenha me acostumado com a ideia de que um certo conjunto de características funcionais, ocorrendo simultaneamente e em harmonia em um só ser, fosse minha maior ilusão. Um personagem que jamais seria escrito em um livro. Só ficaria perambulando minhas impressões pra fazer comparações com os outros, e seria parâmetro das minhas frustrações. Nunca ninguém ia ser da maneira mais adequada de 'ser'. E é claro que quando digo adequado quero dizer o que eu julgo in e conscientemente como apropriado. Em razão disso, eu me pego buscando nas pessoas coisas que eu gostaria de ser e que gostaria que elas fossem. Acredito que a honestidade é uma das maiores virtudes que se pode desenvolver. É difícil achar quem seja honesto' em todos os momentos e em todas as coisas e em todos os lugares'. Ainda bem que não estou sempre com você, mas já se passam muitas horas dos dias em que vivo mais essa amizade, e o quanto eu consigo ver já é suficiente pra dizer o quão honesto você é capaz de ser. Honestidade é uma coisa que atrai. É uma das coisas que gosto de ver nos outros e em mim. Talvez seja isso: a busca e a crença de que estar perto das pessoas que tem certos atributos, os quais se deseja ter também, faz com que a  presença das pessoas com esses atributos seja insuportável. Ora você se sente um bem, ora um mal, mas o que se quer mesmo é o reconhecimento  do bom, do belo. As vezes eu penso em parar de duvidar da sua perfeição, e de achar que existe alguma máscara pra cair. E quando eu começo a dar uma chance pra uma nova maneira de te encarar e de te perceber, você aparece de novo. Um telefonema seu é a gota d'água! Dá pra te amar e te odiar com uma facilidade terrível, repentinamente. Uma catástrofe essa amizade minha, e uma bênção. É chato até mesmo pensar em te escrever. Eu inicio a sentença te adorando e, ou eu apago toda a frase ou reescrevo e transcrevo a bondade em maldade. E tudo isso porque... Por que? É engraçado imaginar que as coisas que fariam com que eu me apaixonasse são as mesmas que me fazem ter repulsa. Mais engraçado ainda é a ideia de uma auto-defesa minha contra você. Talvez eu é que não me permita amar demais, e dois segundos antes de pular de um precipício eu desista da ideia de mais essa aventura e odeie o mundo. E assim eu odeio você! Continuo sendo amiga dessa sua perfeição estupidamente seduzível. Você é prova de que eu posso me desdobrar de um extremo a outro nas minhas emoções, sem tirar o sorriso do rosto nem deixar de dizer todos os comentários amigáveis que merece ouvir. Vou alternando sinceridade, a mais profunda sinceridade, e  a hipocrisia, no sentido mais hipócrita da palavra. E pensar a hipocrisia em seu sentido mais hipócrita, supondo falácias pra sua própria definição, seria um dos nossos assuntos mais ridículos de quando não temos nada melhor pra dizer, sem jamais abandonarmos nossa sinceridade. Quando eu te quero bem, te quero bem demais, mas na maior parte do tempo, eu não te quero. Eu te desquero. Eu não te suporto. Eu não te 'in'suporto. Eu te 're'suporto. Eu te 're'quero. Eu não sei o que eu quero. Eu espero algo de você que me diga o que eu não sei que quero ouvir. Quando eu me deparei com você tive que deixar de alimentar minhas ilusões. Descobri que eu idealizava o que eu jamais quis. Por isso consigo ser sua amiga: eu te 'des'amo. É irritante não poder simplismente odiar.

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