Funciona mais ou menos assim:
Alguém tem interesse, enquanto outro alguém ainda nem reparou.
Quando outro alguém percebe, alguém faz de conta que não percebeu.
Todos os 'alguéns' fingem-se de despercebidos em público.
Aí alguém e um outro alguém tem contato; sós.
Se o outro alguém investe, avança, mas flutua, devagar, no limiar entre a tentativa e a prevenção do fracasso, alguém sorri por dentro, mas não conta pra ninguém.
Mas, se o outro alguém investe, avança, confiando ou não no sucesso, alguém admira... e suspira.
(isso se as pupilas já tiverem dilatado, e se a sustentação dos encontros dos olhares já durarem mais tempo que o normal)
É claro que Ninguém também é personagem da história: é a consciência irracional de alguém.
Nenhum alguém conta nada pra ninguém, mas ninguém é a própria Suspeita.
E alguém, se despertado pelas evidências do outro alguém, mexe nos cachos. Revela as palmas das mãos.
E aí, a paranoia de alguém tenta estragar qualquer atitude que porventura venha a ocorrer, por antes mesmo de o outro alguém agir, alguém já esperar por algo.
Eu e um outro alguém, façamos o seguinte: descuidemo-nos de pensar que alguém deve esperar algo de outro alguém.
Não é que Ninguém não possa pressupor ou contar com algo. É que qualquer alguém merece viver bem sem esperar pelo 'quê' nem saber por 'quem'. Alguém pode entender que as coisas, quando mais simples, são mais raras. Ninguém nunca entende isso, mas Alguém pode entender.
A Poesia Dama Nômade
terça-feira, 14 de outubro de 2014
domingo, 21 de setembro de 2014
H2....Só
Infiltra,
escoa,
Vem me
transpirar
Remove,
assola
Desgasta e
desagua em nós
Que venha a
estiagem
Que abasteça
enquanto umedecer
Enquanto
escorrer
Enquanto
suar
Molha o
recinto, molha o urbano
Molha a
indústria, e a agricultura
Dilui a
preocupação de que é finita
O amor
torna-se solúvel
O café é
solúvel
A
transmissão é contagiosa
Contamina à
jusante
É o que há à
montante
Da nascente
da imundice
À foz da
esperança
Não é mais
água
Símbolo de
pureza
É deságua, que
desagua na seca.
domingo, 14 de setembro de 2014
Eu tenho medo
Eu tenho medo desse mundo
Cheio de gente conhecida
Cheio de coisa descabida
Eu tenho medo de não ter
Uma morte bem morrida
Que é pra me afastar dessa coisa dita
Que é pra eu acabar no desalento
De ter sido esquecida
Eu tenho medo de amar
Pra ficar mais sofrida
Pra alimentar esses tanto de ferida
Eu tenho medo de viver
Sem ter visto essa vida
Sem perder o medo de ouvir
Chamarem a mim de querida.
domingo, 7 de setembro de 2014
Fá, Sol, Lá, Se vai
Onde foi parar o elogio dessa voz eu não sei. Uma garganta calou a outra, uma voz que pousa no ar e rouba outra voz. Um cantor e um admirador sem palavras, perplexos.
"Sua voz é muito linda", disse a menina debruçada num cometa, viajando num espaço de ideias enquanto a música passava bem devagarinho.
Eu quero um tanto de Alceu, outro tanto de Valença.
Vamos tentar cantar aquela canção? Aquela que consegue dizer tudo que não dizemos, que traduz todo amor que sentimos, que alivia em nós a nossa angústia, que traz paz e que consegue desenrolar todas as nossas dores, vamos?
Eu vou pegar um verso do Nando sobre amor, e um do Arnaldo sobre solidão. Um da Cássia sobre nós, e um outro que invento mais tarde.
Eu sei que você tava era querendo me ver cantar por aí.
domingo, 24 de agosto de 2014
Hoje é um velho dia
Ah, fala sério! Pensa se não é pra vivermos dias bons ao invés de dias comuns sempre. Os dias ruins vão acontecer vez ou outra, intercalando-se aos bons. Quando estou de bom humor acredito que nenhum dia comum devia acontecer. Tem tanta coisa interessante, tanta descoberta a se fazer e tanta coisa escrita que ainda não foi lida. Como se precisássemos hoje de uma leitura nova, ou de um assunto novo pra achar que o dia foi melhor... Nunca vamos saber o que é que vai fazer um dia ser especial. Só sabemos que coisas especiais acontecem de vez em quando. Nós é que mudamos nosso conceito de "especialidade", e aí a raridade é comum, e os sonhos banais. Com que audácia vem me dizer que o coração está fraco pra fortes emoções!!! Coração fraqueja quando não sabe por quem vai bater, depois fraqueja quando descobre por quem bate. Fraqueja quando se engana ao achar que esteve fortalecido, e fortalece quando esquece de sentir que fraqueja. Que venha a emoção abalar a razão, o raciocínio. Porque o coração, esse já se abala sozinho, se frustra, se alegra, se desentende. Sorri. E só ri. Ri todo dia. Num dia o sorriso da alegria, noutro aquele sorriso amarelo, sem graça. E todo dia acaba por saber sozinho quantas emoções vivemos, e quantas poderíamos ter vivido. Entre viver e não saber o que deixamos de viver, prefiro a moleza do coração, e a rigidez que ora me falta à razão, ora me sobra, transborda, escorre pelas palavras que eu não digo, me fazendo trancar o coração. Não vou confiar no meu coração. Se confiança vem de uma aceitação deliberada de confiar que nem sempre percebemos, é melhor que com a razão eu escolha não confiar, pra que minha inconsciência confie nele sem que eu saiba, e eu não me importe com as emoções que possam me parecer fortes demais.
sábado, 16 de agosto de 2014
Sentinela
Não faz sentido ser tão jovem e ter um coração assim, tão velho.
Ainda não entendo onde foi que perdi a desenvoltura do interesse.
Ou todas as pessoas são mesmo desencantáveis a partir de um ponto no tempo, ou eu assassinei a humanidade que fazia parte de quem fui.
Duvido muito que as pessoas tenham perdido seu encanto.
Um ser assim como eu, só tem consciência de que deve pedir socorro por não sentir algo que sabe que é essencial.
E pedir socorro por algo que não expressa perigo aparente é esquisito demais.
Eu só posso lamentar por alguns segundos, e amar a vida e continuar seguindo nos minutos seguintes, quando já esqueci de pensar no que eu deixo de sentir.
Mas eu não fui desfertilizada a ponto de não ver mais nenhuma semente germinar em mim.
Ainda posso observá-la em seus primeiros estágios de desenvolvimento.
Mas logo ela seca!
Vou continuar procurando uma letra de música que traduza minhas impressões sobre os acasos.
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
0h00
Não não meu amor! Não precisa gritar. A luz acabou, mas ela volta já. Calma, calma. Eu estou aqui. Estou aqui com você. Assim, bem quetinha. Vou te soltar agora, tudo bem? É só pra acender uma vela meu amor. É rapidinho. Onde ficam os fósforos? Tudo bem, achei. Pronto. Vem cá. Senta aqui perto dela, vou acender mais uma, ou quantas você quiser. Vai ficar tudo bem, vou ficar aqui com você até a luz voltar. Podemos conversar aqui. Você já pode começar a se perdoar por todas as paixões que achou ter amor. Ninguém tem que amar por toda a vida, você não enganou ninguém. Mas que maravilha! É assim mesmo, continue. Você está a um só passo de se ver livre da culpa que escolheu carregar. Não se preocupe comigo, eu vou ficar bem. Eu vou estar aqui quando a luz voltar. Voltou! Viu amor?! Não durou muito. Vou apagar as velas. O que foi amor? Não venha me dizer que agora prefere continuar no escuro. Quer deixar as luzes apagadas? Tudo bem, tudo bem. Vamos continuar conversando no escuro? Você sabe o que é o escuro pra mim? É o conformismo em não saber se você me sorri ou se me ignora. Eu não gosto de não poder ver seu rosto. Amor, você viu que o relógio do microondas parou? São 00:00hs meu amor. O tempo parou pra nós. Por que tudo que eu gostaria de te dizer não cabe em nenhum tempo nem em nenhum espaço do mundo? Se eu ver seu rostinho de novo, tudo que eu gostaria de dizer vai embora amor. Acho que nada do que eu diria é importante de verdade. São só minhas ilusões querendo se fazer reais a todo custo. Não posso ter esses sonhos com você amor, você é pior que eu! Se eu te abraço você espera que eu vá te dar o mundo. Se eu só sorriu você acha que já te esqueci. Você precisa dizer se tem medo ou se gosta do escuro amor. Eu nunca vou saber se você desistir de se conhecer. O tempo é nosso esta noite. Diz pra mim o que você acha disso tudo. Minha maior agonia é não saber o que você acha. Ninguém que não amou deve querer saber como é amar sem amar. Você acha que eu não quero te amar? Eu não posso amar você enquanto não houver clareza aqui. Não amor, agora não acenda mais essa maldita luz. Eu viveria mil noites com você, mas só no escuro. Você já se perdoou por seus amores mal vividos. Agora deixe que eu me perdoe por viver bem e não conseguir amar.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Além, porém aqui.
A verdade é aqui. Depois do horizonte, onde os olhos não alcançam, quem garante que algo é? Depois de conhecer e reconhecer lugares, e de não poder estar em todos ao mesmo tempo, que prova há de que existem simultaneamente, dois a dois, três a três, e ao infinito e além? Existem universos temporários criados de nós para nós que nos afirmam que podemos ser e estar em algum lugar. E todos os universos possíveis estão bem guardados, conservados na memória ram e na rom. Essa necessidade exagerada de afirmarmo-nos entrelaça-se ao desejo de ser desejado, e a essa altura já criamos as personagens dos lugares em que acreditamos estar. Não é intrinsecamente irritante não poder saber com certeza se alguém é o que é, ou se é só criação nossa? Mas fato é que independentemente de serem meros frutos de imaginação, há pessoas e lugares que são além.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Nunca vou te aprender
Não deixaria de dizer o quanto gosto da cor dos seus lábios, e do cheiro do seu cabelo caindo no meu rosto quando vem dizer bom dia. Se não fosse o mundo inteiro contra mim, levaria seu café requentado todos os dias, esperaria sua cerimônia pra despertar enquanto mais uma canção frustada tentaria surgir, pra me fazer dizer coisas que nunca disse a ninguém, e depois, quando sua xícara já estivesse vazia, ficaria parada te observando, vendo você brincar de desenhar minha silhueta no ar. Eu iria amar ficar vendo passarinhos em suas costas, enquanto você me contaria como foi sua primeira ida a uma cachoeira.
Eu gostaria de poder aprender mais sobre sua inquietude disfarçada, mas o universo inteiro conspira contra mim. E enquanto o mundo for mundo, você vai ser sempre um enigma. Eu preciso que a Terra acabe pra te ter aqui comigo. Posso ser tão egoísta assim, a ponto de querer que o mundo inteiro se resuma à você e eu? Perdoa essa vontade insana, que de hoje não passará. Te aprenderia sem te prender, mas não vou te aprender nunca.
quinta-feira, 31 de julho de 2014
Deixei cair o coração
Deixei cair o coração.
Nem foi preciso sair da contra mão.
Já fui entregue a desilusão.
Outrora e agora, só há consagração
me perseguia a solidão.
Não há quimera maior nesse meu coração
Ele caiu em suas mãos.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
És pura perfeição, és natural.
Quem foi que definiu a perfeição?
Acho humanamente impossível ser humano e não ser perfeito. Até porque, às vezes, perfeição mais parece adequação a um certo contexto do que quaisquer conjuntos de características consideradas moralmente corretas e quase divinas se manifestando em um só ser.
As essências não podem ser imperfeitas. São definições. A existência não pode ser imperfeita. Ela preceda ou não a essência, existir é acontecer. E acontecimentos não são imperfeitos. São fatos. Os fatos são verdades nada perfeitas manipuladas e selecionadas por nossas memórias. Não há como deixar de esquecer e de lembrar. E somos assim perfeitos. Toda essa alegria, essa crueldade, essa tristeza, essa angústia, essa curiosidade, essa falta de sentimento, esse sentimentalismo excessivo, tudo é perfeito. Nunca fomos parâmetro de perfeição. Nós só fomos. Somos. Não há o que não seja perfeito, há o que esteja deslocado e fora de cena. As coisas são porque acontecem, porque existem, porque são literalmente essenciais. E por motivos que eu nunca saberei, algumas delas são muito exclusivas. Ninguém inventou a exclusividade. À perfeição tentaram dar mil designações, mas não pensaram o que a faz exclusiva e o que é que distingui uma perfeição de outra. Os cabelos negros e longos, os negros e curtos, os curtos e loiros, os loiros e mais que longos ou mais que curtos, os ruivíssimos, todos evidenciam perfeições distintas. Mas o quanto são perfeitos depende do valor que os olhos de quem observa lhes atribui, e isso não é algo mensurável. Que difícil e que simples seria dizer quão perfeitas são as pessoas. Gosto dos momentos que são perfeitos e que não posso dizer o quanto são, porque me fazem escrever. Mas escrever a perfeição das vidas que perambulam a minha vida é humanamente impossível, e é perfeito assim. Jamais quereria poder traduzir todas as perfeições na fala, nem mesmo na escrita. Porque há coisas que a arte captura, que a sensibilidade reproduz em nós, e que não são nunca ditas nem escritas. Faz parte da nossa perfeição não ter a capacidade de registrar tudo de modo racional. Que graça isso teria? A melhor parte da poesia são os versos que não foram escritos. Dentro da simplicidade cabe a ideia de não poder dizer tudo, mas de poder entender. O que não significa que entendamos tudo, e isso também faz parte da nossa perfeição. Tanta coisa deixada no ar, e ninguém vai saber, nem lembrar. Porque faz parte da perfeição conseguir conter em nós aquilo que nos cabe, à nossa essência. Não há como não ser exclusivo, porque a perfeição é um troço instável no mundo e em cada um dos seres. E origina assim a exclusividade. Há certas perfeições mais exclusivas que parecem ser fixadas no mundo pra que possamos apreciá-lo mais. Não há nada mais perfeito relativamente a nós que as coisas que podemos amar. Inevitavelmente criamos preferências por certas perfeições, e isso é o que há de mais natural em nossa essência.
domingo, 6 de julho de 2014
Nojentus aicredus
Pra que é que eu fui tentar descobrir essa espécie?
É pegajoso, peludo e mole.
Não tem audição alguma. E parece fazer questão disso.
É rastejante sozinho. Parasita os outros. É carregado.
Fede!
É repugnante carregá-lo nas costas, mas todos carregam.
Regurgita de três em três horas.
Causa repulsa, mas não afasta ninguém. Como é isso?!
Sente prazer em semear a discórdia.
Atrapalha o trânsito aumentando seu peso.
Atrapalha o pensamento diminuindo o movimento do hospedeiro.
O hospedeiro pára.
Ele come, e regurgita.
Soltas os pelos.
Ameaça matar o sistema nervoso de alguém.
E revive! Mais forte e mais pegajoso.
Atrapalha a visão. Ele que inventou a cegueira.
Eca.
Na noite em que não dormi
"A essas horas é um perigo andar sozinha", foi o primeiro pensamento que me veio à mente quando me deparei com a sensação de solidão, tanto de outras pessoas como da luz do dia. O ponto de ônibus estava vazio, a não ser por mim e, trinta minutos depois, por um morador de rua.Quando surgiram dois faróis na curva, quase agradeci em voz alta e, imediatamente, implorei aos céus pra que fosse o meu ônibus e eu não tivesse que ficar por mais tempo ali, com aquele indigente. Mas não era. E nessa hora, o mendigo disse que estava com fome.Antes mesmo de pensar em me afastar dele ou de temê-lo, percebi que ele não era o único. Quando tinha sido a última vez que comi? Não disse nada, mas ele começou a se aproximar. Senti o coração batendo mais rápido, preparando meu corpo para correr, mas não me movi. Esperei pelo cheiro naturalmente desagradável misturado ao de álcool. Quando abriu a boca sem dentes de novo, disse que seu pai tinha falecido e que estava enterrado no São Luis, túmulo 687. Disse que aconteceu quando ele estava preso. Não pôde vê-lo. Pediu dinheiro. Se eu desse, ele teria o que comer pela manhã. Se não, ficaria com fome por mais tempo. Ele contou que sabia que o viam como a doença da cidade, mas que queria viver ao lado de todos e garantir que ninguém achasse que ele fosse pegar alguma bolsa.
Dei uma nota de cinco reais a ele, sem pronunciar uma palavra. Para minha surpresa, ele estendeu a outra mão e me entregou um lenço que provavelmente um dia teria sido azul. Disse que foi de seu pai. E a essa altura eu já não o temia mais. Então ele se afastou, no mesmo instante em que enxerguei meu ônibus.
No dia seguinte deixei o lenço sobre o túmulo 687 do cemitério São Luis, cujo nome inscrito em um pequeno pedestal era José Antônio Batista. E às 23h44min, voltei ao mesmo ponto de ônibus. Não havia ninguém além de mim, mesmo depois de trinta minutos. Senti fome, mas não quis comer. Não temia mais a noite. E decidi que mais alguém ia ficar acordada na cidade, nas ruas, além de todos os filhos de Antônio Batista.
Adivinha quem é
Precifica. Crucifica. E quando sorri fica ainda mais bonita.
É corrosiva. Intemperante. Sem prudência para desamar.
Dilacera. Ri. É puro amor sem ninguém.
É ameaça. Livre. Se apega ao desapego.
Bela. Sensível em duas horas. E sólida.
Perdeu a miudeza. Magnífica. Disposta. Feliz. Simples.
Aproxima. Afasta. Acaricia. Sorri. Já viveu. Fim. Desatada.
Excessivamente amiga. Que amor! Silencia. Aumenta a não dor.
Conta estória. Faz estória.
Descarada. Ora bruxa, ora fada.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
A pior coisa que já escrevi
É terrivelmente gostoso poder dizer todas as verdades e todas as mentiras do mundo num texto. Mas é claro que se corre o risco de interpretações errôneas. Se houver a real intenção de dizer alguma coisa, que ela fique clara o suficiente para a pessoa certa no momento certo. Mas a maravilha maior desta noite é escrever para o mundo e para absolutamente ninguém. Talvez eu devesse aproveitar minha vontade de não dizer nada, e guardar as palavras que um dia eu já quis dizer, como "Acabo de perceber que agora eu quero dizer alguma coisa". Na verdade (ou na mentira), grande parte das falas foram interiorizadas para o eterno em mim quando as pronunciei, e depois as perdi. Acho importante a princípio desperdiçar, porque ser econômico tem propósitos maiores quando se conhece as consequências do desperdício. Não jogo as palavras. Eu as lanço! E quanto as que eu já tinha perdido, acabei por trazer finitude ao infinito, que já não existia a essa altura. Perdi o apego. Eu agora apago. Qual é o problema em se viver abertamente feliz assim? Nenhum.
Certa vez conversei com um amigo sobre a possibilidade de haver algo capaz de sanar todas as vontades do ser humano, e mais: algo capaz de sanar a vontade de ter vontades. Não chegamos a qualquer resposta (não que eu esperasse uma), e levei algum tempo pra perceber que não há resposta para isso pelo simples fato de que todo dia meu suposto vazio pode ser preenchido, só depende das minhas escolhas. Se as coisas que compreendo mas não aceito, e as que eu aceito sem compreender, vão continuar existindo e eu com elas coexistindo, e os sonhos se soerguendo, e se desmoronando, e a felicidade insistindo em se fazer presente frente a todos os casos e acasos no fim, mas só pra quem sabe o que ela é....... O que é que eu ia dizer? Ah!, Não importa, provavelmente metade era mentira. Já estive presa nas margens de mim, me perdendo, e fora das fronteiras, me encontrando, sem haver a necessidade de um paralelismo entre universos nada distintos. Na mentira eu não sei quem sou. E na verdade é possível que eu também não saiba. É provável que ontem eu soubesse. Já esqueci. Eu ainda não achei o que escrever numa parte que faltava, e talvez nunca ache. Não que não haja poesia suficiente pra me dizer que já sei o quão poderoso é meu amor, e como ele me preenche de modo inteiro, mas todos os dias posso destruir minhas vacâncias, e isso é tão lindo. Como é que uma só pessoa pode carregar metade das coisas que eu preciso pra viver? É sim possível atingir um estado de realização total, e é no fim do dia que fico bem próxima disso. É hoje o dia! E sou eu mesma a pessoa! Se houvesse um cálculo que relacionasse grandezas como a quantidade de influências externas e biologicamente internas que regem meu comportamento, e meu humor, tenho a impressão que o resultado apontaria uma tendência ao infinito, e que eu levantaria uma sobrancelha de indignação com o termo 'limite'. No segundo seguinte eu ia descobrir que a matemática é tão exata a partir das ideias mais abstratas dessa capacidade de imaginação humana, que eu iria novamente pegar folhas e lápis de cor, e saíras surgiriam exibindo suas cores. Não é impressionante não conseguir declamar numa noite o que não se declama numa vida, nem saber o que escrever no próximo período, nem como destruir minha próxima oração. Chinelo, macaco, óculos, montanha, cabelo e pronto. Destruí a que sucederia essa. Não é impressionante começar a escrever sem saber onde é que vou chegar, nem seria parar de
Essas são algumas das Saíras.
domingo, 20 de abril de 2014
Desconhecido
Isto ainda não deixou de me surpreender: o desconhecimento de onde ou com quem vamos estar nas próximas horas. Ou sob quais circunstâncias, que tipo de situação nos aguarda. Existe uma inversão de valores e de esperanças que ocorrem em função da incerteza do quão significativo alguém pode passar a ser em alguns minutos. Talvez incomode o fato de ser exposto e parecer tão vulnerável, tão dependente de um estranho que se faz essencial com pouco, mas não tenho qualquer problema com isso. Posso ser testemunha de que se despeja muito valor e muita consideração onde não há capacidade de suporte pra tanto reconhecimento. Mas deve ser meio assustador contar com alguém como se uma certa oportunidade fosse a última oportunidade, e não ter noção de até onde vão os limites de esforços de quem não se conhece. Não se pode querer achar que já se sabe qual tipo de reação vem no segundo seguinte. Mas não é estranho ver quão reduzidos podem ser os limites de quem tem motivo pra ser além das fronteiras e não é: é apenas frustrante. Acho que essa frustração é compensada quando surgem surpresas inesperadas e estranhas, das pessoas que são estranhas. Esse não é o tipo de coisa com a qual se acostuma, porque é sempre contra a rotina. E de qualquer forma, se acontecesse sempre suponho que iria doer demais tentar deixar com que vulnerabilidade e orgulho disfarçado de auto-defesa coexistissem simultaneamente e diante das pessoas "estranhas". Imagine ter que ter uma metáfora pra insegurança todo dia na boca do estômago, que terrível seria.
sábado, 19 de abril de 2014
Um amigo não tão ideal
Seu problema é ser fofo demais, lindo demais, educado demais, e perfeito demais. Ninguém pode ser tão "na medida certa" o tempo todo. Tenho impressão de que quando sua máscara cair eu vou acabar ficando surpresa. Já te contei isso? Eu deixei de me surpreender com os outros de tão banal que foram ficando os absurdos. Mas você não quer ser comum. Inverteu minha visão e o banal agora é ser o ideal. Dá pra aguentar os primeiros minutos da sua raridade, e depois tudo é irritante demais: seu jeito de falar, sua voz aveludada, seus olhos penetrantes, seu cabelo caindo na testa, sua inteligência e sua vontade de descobrir. Por que todas as qualidades passaram a ser negativas em você? Talvez eu tenha me acostumado com a ideia de que um certo conjunto de características funcionais, ocorrendo simultaneamente e em harmonia em um só ser, fosse minha maior ilusão. Um personagem que jamais seria escrito em um livro. Só ficaria perambulando minhas impressões pra fazer comparações com os outros, e seria parâmetro das minhas frustrações. Nunca ninguém ia ser da maneira mais adequada de 'ser'. E é claro que quando digo adequado quero dizer o que eu julgo in e conscientemente como apropriado. Em razão disso, eu me pego buscando nas pessoas coisas que eu gostaria de ser e que gostaria que elas fossem. Acredito que a honestidade é uma das maiores virtudes que se pode desenvolver. É difícil achar quem seja honesto' em todos os momentos e em todas as coisas e em todos os lugares'. Ainda bem que não estou sempre com você, mas já se passam muitas horas dos dias em que vivo mais essa amizade, e o quanto eu consigo ver já é suficiente pra dizer o quão honesto você é capaz de ser. Honestidade é uma coisa que atrai. É uma das coisas que gosto de ver nos outros e em mim. Talvez seja isso: a busca e a crença de que estar perto das pessoas que tem certos atributos, os quais se deseja ter também, faz com que a presença das pessoas com esses atributos seja insuportável. Ora você se sente um bem, ora um mal, mas o que se quer mesmo é o reconhecimento do bom, do belo. As vezes eu penso em parar de duvidar da sua perfeição, e de achar que existe alguma máscara pra cair. E quando eu começo a dar uma chance pra uma nova maneira de te encarar e de te perceber, você aparece de novo. Um telefonema seu é a gota d'água! Dá pra te amar e te odiar com uma facilidade terrível, repentinamente. Uma catástrofe essa amizade minha, e uma bênção. É chato até mesmo pensar em te escrever. Eu inicio a sentença te adorando e, ou eu apago toda a frase ou reescrevo e transcrevo a bondade em maldade. E tudo isso porque... Por que? É engraçado imaginar que as coisas que fariam com que eu me apaixonasse são as mesmas que me fazem ter repulsa. Mais engraçado ainda é a ideia de uma auto-defesa minha contra você. Talvez eu é que não me permita amar demais, e dois segundos antes de pular de um precipício eu desista da ideia de mais essa aventura e odeie o mundo. E assim eu odeio você! Continuo sendo amiga dessa sua perfeição estupidamente seduzível. Você é prova de que eu posso me desdobrar de um extremo a outro nas minhas emoções, sem tirar o sorriso do rosto nem deixar de dizer todos os comentários amigáveis que merece ouvir. Vou alternando sinceridade, a mais profunda sinceridade, e a hipocrisia, no sentido mais hipócrita da palavra. E pensar a hipocrisia em seu sentido mais hipócrita, supondo falácias pra sua própria definição, seria um dos nossos assuntos mais ridículos de quando não temos nada melhor pra dizer, sem jamais abandonarmos nossa sinceridade. Quando eu te quero bem, te quero bem demais, mas na maior parte do tempo, eu não te quero. Eu te desquero. Eu não te suporto. Eu não te 'in'suporto. Eu te 're'suporto. Eu te 're'quero. Eu não sei o que eu quero. Eu espero algo de você que me diga o que eu não sei que quero ouvir. Quando eu me deparei com você tive que deixar de alimentar minhas ilusões. Descobri que eu idealizava o que eu jamais quis. Por isso consigo ser sua amiga: eu te 'des'amo. É irritante não poder simplismente odiar.
Assinar:
Postagens (Atom)


