quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O atual efeito do passado de São Paulo

Sobre o Rio Tamanduateí nasceu a Vila de São Paulo de Piratininga. Na época da chuva, o rio tomava conta de toda a área onde foi estabelecida a vila.
Desde a chegada dos jesuítas, foram também estabelecidas suas capelas, nas colinas próximas ao rio. Daí, o princípio da interferência que causaria grande mudança ao meio ambiente da região.
O Professor Nestor Goulart Reis (história da arquitetura - USP), diz que quando os portugueses chegaram aqui, escolheram sabiamente um ponto plano entre o Rio Tamanduateí e o Rio Anhangabaú e, portanto, tinham um lugar para fácil consumo de água limpa, o Anhangabaú, e o Tamanduateí lhes proporcionava locomoção.
Durante aproximadamente 300 anos, a vida em São Paulo só existiu por causa desses dois rios. E hoje, o Rio Tamanduateí é aquele canal, próximo ao mercado municipal. Um dia o rio já chegou a estar em toda aquela área, até a famosa 25 de Março.
Em 1867, foi inaugurada a primeira ferrovia de São Paulo, que usou a rota do rio. Pouco à pouco, com o aumento da urbanização, o rio foi sendo "exprimido". Surgiu também a elite cafeeira. E mais tarde, a água encanada. E junto ao consumo dessa água, surgiu o esgoto, que era lançado nas várzeas dos rios.
Com a canalização do Rio Tamanduateí, tiraram suas curvas e afundaram seu leito, fazendo com que ele transportasse o esgoto mais rápido.
Na década de 20, os dois rios que atravessavam a cidade foram transformados em parques: o Parque do Anhangabaú, com o rio já canalizado e enterrado, e o Parque D. Pedro II. E a metrópole, crescia cada vez mais rápido.
A Professora Odete Seabra (geografia - USP), diz que o humano criou as enchentes, pois os rios já estavam lá, e  tomamos o espaço em que transbordava nas épocas de cheias.
Francisco Rodrigues Saturnino de Brito, engenheiro sanitarista, foi quem projetou e propôs que nós devíamos garantir a integridade da várzea do Rio Tietê, assim que ele foi também canalizado, observando que causaria um imenso problema mais tarde.
Em contraste com a proposta de Saturnino de Brito, houve a proposta de Francisco Prestes Maia, que era o Plano de Avenidas da Cidade de São Paulo, com objetivo maior de vender automóveis. Prestes Maia foi prefeito de São Paulo de 1938 a 1945. Durante esse tempo, foram construídas as avenidas Nove de Julho, Duque de Caxias, Conceição, e outras mais contempladas em seu plano de urbanismo.
E assim o espaço das águas passou a ser espaço dos carros.
Como a proposta de Prestes Maia visava priorizar o uso dos automóveis, de modo geral, na sociedade estabeleceu-se um processo de abandono das ferrovias. E de acordo com o Plano das Avenidas, iniciou-se uma extensa exploração de um território que fora antes habitado pelas águas do Tamanduateí e do Anhangabaú. Pela chamada especulação imobiliária, o território era visto como uma boa área para a implantação das estradas e loteamentos.
Com a implantação das estradas, consequentemente surge o favorecimento à urbanização. Investiu-se na construção de casas e edifícios. E assim deu-se o desenvolvimento da metrópole. Diversas casas e prédios, foram então sendo construídas. E a cada vez mais, eram elaborados novos planos para o que chamavam de "desenvolvimento". Porém, sustentabilidade estava completamente fora desse conceito. 
Tomemos como exemplo o fato de que as áreas onde a cidade se estabelecia só eram vistas como áreas que poderiam render quaisquer tipos de lucro, se fossem primeiro soterradas para que se pudesse investir em construções. Uma área rica em mata, uma área onde existia um rio, não tem valor algum? 
Não haveria um modo de usufruir dos recursos da natureza, sem afetá-la tanto, de forma tão drástica?
Os problemas apresentados hoje, como enchentes, não passam de uma consequência das escolhas feitas no passado. 
O homem modelou o rio, deixando-o como achava que seria melhor, mas a lei da natureza é simples: Quando chove, o rio sobe.

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